O reino das aves

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Um dia frio e baço de Outono. A tarde estava pardacenta, e a Ria, na sua praia-mar ou maré alta, reflectia a cor de chumbo do céu que de vez em quando deixava cair sobre ela grossas cordas de chuva. A ondulação da água batia suavemente nas margens a um ritmo musical sincopado, quase silencioso, que se esbatia pelos campos depenados. Em frente, ao longe, na outra margem, o casario pintalgava de branco a paisagem, quebrando a linha do horizonte. Do lado de cá, pela pouca profundidade, pequenos baixios lodosos deixavam a descoberto lamas e cascalho. O reino das aves. Aves sem conta.

Pousavam e esvoaçavam ao longo da ria à procura de pequenos animais marinhos, ou sobre os campos recentemente lavrados, à procura de vermes e insectos que saíam da terra revolvida. Gaivotas grandes e pequenas, pombos, maçaricos, estorninhos, uma garça- real aqui e além, isolada e contemplativa, corvos marinhos mergulhando nas águas turvas, todas as aves me eram familiares, embora não as esperasse em tal abundância. Outros pássaros, que me eram estranhos, de asas coloridas ou muito brancas, planavam à superfície das águas, dando a impressão de que eram os senhores daquele reino.

Não muito longe da margem, avistei uma mancha branca, poisada em pernas altas e escuras que lembravam estacas. Supus ser um bando de cegonhas, que as há por ali também, mas logo me apercebi, com grande espanto, de que era uma colónia de flamingos brancos. Por uma pequena estrada bordando a margem, aproximámo-nos o mais possível e vimos outros bandos, uns maiores outros mais pequenos, uns brancos e outros rosados. Ainda pensei que a cor se deveria a um raio de sol que espreitava por entre as nuvens cinzentas, mas logo vi que se tratava de bandos diferentes. Como são aves gregárias, organizam-se em pequenas colónias, que na presença de qualquer coisa estranha, se juntam e apertam de tal modo, que fazem lembrar pequenas manchas à tona de água.

Com esta imagem singular na cabeça, tentei recolher alguma informação e fiquei a saber que estes flamingos são oriundos da bacia do Mediterrâneo e migram no Outono e Inverno à procura de alimento e talvez nidificação. A foz dos rios, os estuários, os deltas, as lagoas pouco profundas, os sapais são o santuário dos flamingos. Desde há uns anos, a Ria de Aveiro, talvez devido às águas do Vouga, passou a ser também procurada por eles. A cor rosada das suas pernas e asas deve-se a um pigmento vermelho de crustáceos ou algas que fazem parte do seu alimento.

Soube bem sentir a paz desta ria e destas águas, e entrar assim no reino das aves em plena tarde de Outono. Mas para lá desta linda paisagem, impressionou-me sobretudo a beleza inspiradora daquelas manchas brancas ou rosadas pintando a tarde pardacenta. Mais do que o lirismo apaziguador desta vivência, aqueles plácidos bandos de flamingos incutiram em mim um sentimento de luz, de paz, de ascensão e de fuga desta mancha escura que estamos a viver.

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