No início desta semana, por causa das medidas de combate à Covid-19, cada vez mais apertadas, Sónia Pinto viu cancelado o seu concerto agendado para dia 15 em S. João da Madeira. A cantora de jazz e a sua banda tinham encontro marcado com o público sanjoanense na Casa da Criatividade este domingo no âmbito do Musicatos Jazz, inserido no programa do festival Novembro Jazz, mas a pandemia trocou-lhes as voltas. Para esta artista do Porto, as últimas diretivas do Governo não fazem “muito sentido” 

 

Como surge a música na sua vida e, em particular, o jazz?

A música sempre foi uma paixão para mim. Na verdade, não me lembro da minha existência sem música e sem cantar. Na minha infância, adorava filmes musicais e lembro-me de adormecer a ouvir o maravilhoso Nat King Cole, pelo que talvez venha daí a minha inclinação natural para as “canções de jazz”.

Mas o jazz como uma coisa mais séria entrou muito mais tarde na minha vida. Comecei a cantar em público como vocalista de uma banda pop e senti a necessidade de estudar técnica vocal. Nessa altura, iniciei aulas de canto na Escola de Jazz do Porto, o que me levou a ouvir e estudar muito bom jazz. Fiquei viciada!

 

Na sua opinião, o jazz é apreciado pelo público português quanto devia?

O jazz não é efetivamente um “estilo musical” de massas. Mas existe no jazz uma multiplicidade de subgéneros estilísticos: vocal, contemporâneo, gypsy, free, etc., em que cada músico, projeto, autor, imprime a sua identidade à música que faz. E é disso que o jazz vive e cada um tem o seu público.

Naturalmente, eu conheço o meu público e ofereço o que ele procura e está habituado a receber: a minha interpretação e personalidade, na minha voz una, com uma roupagem musical de qualidade executada por músicos de excelência. E embora não seja um público para encher um estádio como noutros “estilos musicais” é um público que verdadeiramente aprecia o que vem ouvir.

 

“Os apoios que existem no nosso país na área da cultura são insuficientes”

 

Sempre trabalhou na área da música ou teve outra profissão?

Antes de me dedicar exclusivamente à música, passei alguns anos com uma fantástica equipa de trabalho no INESC TEC [- Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência], onde fiz muitos e bons amigos, mas sempre com a música em paralelo. Aliás, em Portugal, a grande maioria dos músicos tem outra atividade, normalmente atividade letiva, para conseguir uma carreira financeiramente sustentável. Os apoios que existem no nosso país na área da cultura são insuficientes.

 

Como define a sua música?

As definições resultam sempre demasiado redutoras em relação àquilo que na realidade se faz. Neste caso, pode dizer-se que é jazz vocal e, no entanto, é dado espaço aos músicos para que os seus momentos de criatividade e improvisação sejam um contributo enriquecedor.

Mas a música é, para mim, comunicação e partilha, por isso, o que pretendo com a minha música, as minhas letras, voz e interpretação, é fazer as pessoas sentirem algo. Pode ser felicidade, tristeza, vontade de dançar ou rir, amor, revolta, qualquer emoção que eu sinto e transmito por meio da música, poema, voz. O som viaja em ondas e faz contato físico com o ouvinte. Eu quero chegar ao corpo e ao coração das pessoas assim, nessas ondas, tocando-as.

 

Tem uma banda: tem nome? É composta por quem?

Este trabalho sai com o meu nome pessoal, mas tem obviamente um coletivo de músicos por trás, que são o “alicerce” em termos musicais. Este “empreendimento” assenta no Pedro Neves no piano, o Miguel Ângelo no contrabaixo e o Leandro Leonet na bateria. E depois tem “acabamentos de luxo” [risos] como a guitarra do Bruno Macedo e o saxofone do João Martins quando é possível apresentarmo-nos todos em palco.

 

O álbum “Why Try To Change me Now” é o seu trabalho de estreia. Pode falar-nos sobre ele?

Sim, é o meu álbum de estreia em nome próprio.Um álbum editado com o selo da editora Alemã, Mons Records.

Conta com algumas das canções que me fizeram apaixonar pela linguagem do jazz, como: “Cry me a River”, “Almost like being Inlove”, “Fly Me to the Moon”, “Angel Eyes”, “It’s Only a Papermoon”, entre outras. Estas canções foram reinterpretadas, ganhando um novo sentido estético assente em arranjos diferenciadores e contemporâneos, na sua maioria de autoria do Pedro Neves, que coproduziu o disco comigo.

Alguns temas têm novas letras de minha autoria, sendo que o tema “The Saga of Harrison Crabfeathers” de Steve Kuhn, foi bastante destacado e elogiado nas “Reviews” já publicadas.

Este disco, para além do trabalho desenvolvido com o Pedro Neves no piano,  o Miguel Ângelo no contrabaixo e o Leandro Leonet na bateria, contou ainda com a participação de notáveis músicos como o Bruno Macedo, na guitarra; João Martins no saxofone; Manu Ihdra na percussão e o quarteto de cordas de Eliseu Silva (Eliseu Silva no primeiro violino, Ana Patrícia no segundo violino, Emanuel Vieira na viola e Filipe Roriz no violoncelo).

 

“Na música, quase todos os concertos foram cancelados ou adiados e, obviamente, isso cria preocupação e stress”

 

Como surgiu a possibilidade de participar no Musicatos e, ao mesmo tempo, no Novembro Jazz?

Creio que este é o segundo ano consecutivo que o Ciclo Musicatos tem um dos concertos dedicados ao jazz, integrado no festival Novembro Jazz. A Academia de Música de S. João da Madeira amavelmente endereçou-me o convite, que aproveito para agradecer, criando mais uma oportunidade de divulgar o meu trabalho.

 

Como tem sido, na qualidade de artista, lidar com a pandemia e todos os constrangimentos que dela resultaram/resultam?

Tem sido difícil! Os trabalhadores da cultura são os mais vulneráveis em qualquer situação de crise. E esta crise tem sido um problema bem real para todos os artistas e toda uma cadeia de pessoas que são afetadas quando não há espetáculos.

Na música, quase todos os concertos foram cancelados ou adiados e, obviamente, isso cria preocupação e stress. E mais uma vez os apoios são insuficientes.

 

E o que tem a dizer sobre as recentes medidas do Governo que acabaram por levar ao cancelamento do seu concerto do dia 15 em S. João da Madeira?

Como já disse, a cultura é sempre afetada em situações de crise. É dos setores que mais sofrem!

Não concordo muito com estas últimas regras. Não fazem muito sentido. Porque, para mim, é mais seguro estar num auditório [como a Casa da Criatividade, que respeita todas as regras de segurança] a ouvir música do que andar de transportes públicos ou ir a restaurantes.

Terão de se arranjar outros horários, porque a cultura tem de continuar, quer para bem dos artistas, quer para bem do público. Caso contrário, entramos num estado depressivo que não é bom para ninguém. Eu, por exemplo, não me importava de atuar às 10h00 da manhã. Não sei é se haveria público, uma vez que não é muito habitual.

 

Sónia Pinto

Nasceu no Porto e foi na sua cidade natal que começou os estudos de canto, na Escola de Jazz do Porto. Frequentou também aulas de canto jazz particulares e participou em diversos workshops de canto, nacionais e internacionais. Estudou com Fátima Serro (PT), Kiko Pereira (PT), Luciana Souza (Brasil/EUA), Fay Claassen [NL (Países Baixos)]. Mais tarde, frequentou o Curso Livre de Canto Jazz da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto, E.S.M.A.E. Sónia Pinto conjuga na perfeição a sua forte personalidade musical com a do grupo de músicos que a acompanham. Conhecida pela sua voz profunda inconfundível e pelas suas performances emocionais, continua a aparecer em clubes de jazz e salas de concerto por todo o país.

 

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