O Serviço Nacional de Saúde de que precisamos

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Longe vão os tempos em que o PSD e o CDS encerraram as urgências do hospital de S. João da Madeira ou defenderam a sua entrega à Santa Casa, sabendo que com isso viria a degradação do serviço público, a redução de consultas e de cirurgias e a gradual privatização deste equipamento.

Esses partidos que olham para a saúde como um mercado e para os utentes como clientes com os quais se pode realizar lucro quiseram cortar a eito no SNS: encerrar serviços e entregar várias unidades à exploração privada. Imagine-se o que era se o SNS hoje, em plena pandemia, tivesse muito menos recursos. Como resistiríamos enquanto sociedade? Com muita dificuldade.

Mas longe vão esses tempos e ainda bem. Mais longe agora que a pandemia tornou evidente que um SNS público, universal e gratuito é absolutamente essencial para o país. É que enquanto os privados se entretêm a negociar os milhares de euros que receberão por cada doente Covid, o SNS não espera e mantém-se no terreno todos os dias; enquanto na primeira vaga os privados fecharam portas e até mandaram trabalhadores para lay-off, o SNS trabalhou todos os dias para todos nós. A diferença é esta: uns querem o lucro, o SNS quer o bem-estar da população e o interesse público.

Este já não é o tempo de cortar no SNS, como propunha o PSD e o CDS, mas também não pode ser o tempo de manter tudo na mesma como se não houvesse uma pandemia lá fora, como propõe o PS. Este tem de ser o tempo de apostar no SNS como prioridade política. Sem medo, sem rodeios, sem meias palavras.

Como o fazer?

Admitindo que são precisas medidas imediatas para recuperação de juntas médicas, de consultas nos centros de saúde e de cuidados hospitalares. Isso implica a contratação de muita gente. Os médicos de família não podem estar submersos a acompanhar os docentes Covid que estão em casa e não ter tempo de fazer mais nada; as equipas que fazem cuidados de saúde ao domicílio têm de ser duplicadas, triplicadas, quadruplicadas, para garantir que o SNS vai ter com quem precisa. São precisos muito mais pro ssionais para que não se adie consultas e cirurgias, para que as pessoas possam ter acesso ao seu médico.

Admitindo que o reforço do SNS não pode ser feito com precários ou com subcontratações. Durante a pandemia multiplicaram-se os contratos de 4 meses com assistentes operacionais, enfermeiros, técnicos superiores, médicos… Será que é com contratos de 4 meses que reforçamos o SNS? Não, não é. Com esses contratos só se reforça a precariedade.

Ao mesmo tempo, 30% das vagas para contratação de médicos ficam vagas. Porquê? Não existem esses médicos ou não são necessários? Pelo contrário, eles acabaram de ser formados e são necessários para o SNS como de pão para a boca. O problema é que as condições de trabalho no SNS não os motivam, não os fazem ficar no SNS. E isso tem de mudar. Um bom SNS é um SNS onde os profissionais de saúde são contratados de forma de nitiva, com condições e em exclusividade.

Por último, admitindo que o SNS precisa de investir em áreas onde continua muito deficitário: meios complementares de diagnóstico, saúde mental e saúde oral.

Não é a primeira vez que dizemos que deve haver uma aposta no Hospital de São João da Madeira (e em muitos outros) para que ali se possam fazer mais análises e exames. Por que teima o SNS em pagar mais de 500 milhões de euros por ano a laboratórios privados para fazer análises e exames rotineiros? Não era muito mais simples fazer isso no centro de saúde ou sair do centro de saúde e ir ao hospital fazer uma colheita de sangue ou fazer uma radiografia? Era muito mais simples e os utentes tinham acesso ao exame e ao resultado de forma muito mais rápida.

Também não é a primeira vez que dizemos que a saúde oral e a saúde mental são cuidados essenciais e não um luxo. O problema é que para muitas pessoas são mesmo um luxo. O facto de existir pouca resposta do SNS nestas áreas faz com estes sejam serviços caros e, consequentemente, proibitivos para muitas pessoas. Mas não tem de ser assim. Na verdade, é até muito simples. Contratem-se centenas de psicólogos e de médicos dentistas (eles existem!) e ofereça-se uma carreira específica e condições de trabalho no SNS. Eles virão e os utentes terão acesso a mais serviços e a mais saúde.

A questão é: para isto temos mesmo de ter claro que a aposta é no SNS. Não é car a meio caminho, não é car em cima do muro, não é pôr só mais um bocadinho de dinheiro, não é com remendos ou políticas tapa-buracos. É dizendo claramente: é por aqui, o SNS é que é o caminho.

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