São João da Madeira. Que modelo de cidade?

Parte III

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“As cidades do futuro precisam de descobrir o bem comum, como sua raiz fundamental”

Cardeal Tolentino de Mendonça

 

Quando pensamos no modelo de cidade ideal é fundamental termos em conta o Bem Comum, pensando-a como um projeto que diz respeito a todos e faz de todos protagonistas da experiência social. Dito isto, é vital deixar de lado os “interesses particulares” ou os “egoísmos corporativos”.

Tenho defendido que para a concretização de um modelo de cidade é necessário que exista um plano bem desenhado, com objetivos definidos e uma liderança forte, ao mesmo tempo que é necessária a presença de uma oposição política igualmente forte e assertiva.

Infelizmente, este parece não ser o caso de São João da Madeira. Temos tido, em alguns momentos, um executivo hesitante e, por demasiadas vezes, uma oposição mais preocupada com os seus “interesses particulares” do que com o seu papel de oposição. Aliás, temos mesmo assistido a uma inabilidade política e falta de sentido de oportunidade por parte da coligação PSD/CDS que chega a ser confrangedora.

Senão, vejamos. No mesmo dia em que com pompa e circunstância a oposição decide comunicar à cidade a incapacidade por parte do atual executivo de captar investimento, o atual executivo, por seu lado, apresenta publicamente, com mais pompa (a presença de duas secretárias de Estado) e mais circunstância (a presença do investidor) um projeto turístico de 7 milhões de euros que, a curto prazo, irá criar 35 postos de trabalho e gerará um importante impacto económico na cidade, sobretudo, na área da restauração e comércio local.

Diga-se que esta evidente falta de habilidade politica já se tinha feito notar em várias ocasiões. Destaco, por agora, apenas duas.

A primeira: a sua chegada tardia e incipiente à discussão da transferência da Junta de Freguesia para os Paços da Cultura. Esperava-se que esta decisão tivesse provocado uma enérgica e incisiva reação por parte da oposição, até porque, e como já se percebeu, esta transferência não resultou em qualquer benefício para a cidade. Quando muito prejudicou a cidade ao ter conduzido à triste ocupação do foyer de instituição cultural por uma secretaria. Enfim, prejudica-se a dinâmica cultural da cidade em prol de vontades particulares e manutenção de frágeis relações políticas que, ao que se sabe, nem se mantiveram assim tão bem. Mas, e a oposição? Poderia e deveria ter ido mais longe na sua oposição a este desmando.

A segunda: o processo de requalificação da Praça Luís Ribeiro em que se perderam (todos) na discussão estéril da “minha praça é melhor do que a tua”, quando a questão deste processo deveria passar por interrogar o seu promotor acerca do plano estratégico subjacente, com vista à regeneração económica da cidade. Centrar a discussão na componente estética da “coisa”, tocando “ao de leve” no impacto que a “coisa” terá no desenvolvimento económico e social da cidade foi um erro crasso da oposição, do qual se aproveitou o executivo com evidentes ganhos políticos.

 A CULTURA CONFINOU-SE

Tenho uma grande dificuldade em entender porque é que os museus da cidade estão fechados aos sábados e domingos de manhã, nestes fins-de-semana de confinamento, e porque é que a casa da criatividade e os paços da cultura estão sem atividade, num momento em que, a fazer fé na comunicação social, o governo tenta contrariar a ideia de que a cultura está confinada.

Tenho bem presente a reportagem feita por um canal de televisão junto de alguns espectadores à saída do espetáculo musical Avenida Q, que teve lugar às 10 horas da manhã, de sábado, 14 de Novembro, no teatro Maria Matos. “É um horário pouco habitual. Não estava preparado para ver um musical pela manhã. Agora estou bastante satisfeito por ter vindo. Soube-me muito bem” – este era, mais ou menos (já não consigo reproduzir as palavras), o sentimento das pessoas que assistiram ao espetáculo.

Não será muito mais fácil suportar uma tarde de sábado ou de domingo encerrado em casa depois de se ter aproveitado a manhã para fazer uma visita a um museu ou assistir a um espetáculo? Não seria melhor se a Casa da Criatividade e os Paços mantivessem a sua atividade adaptada a novos horários? E os museus não deveriam estar abertos e com programação especial?

Saberá com certeza o executivo que nem todos os Sanjoanenses vão passar as manhãs de sábado e de domingo nas compras nos hipermercados, nem às portas das farmácias.

Tenho para mim que estamos a perder uma boa oportunidade de dar aos nossos concidadãos a possibilidade de usufruírem dos seus equipamentos culturais, quanto mais não seja porque estão confinados no seu território e, deste modo, mais disponíveis para viverem a sua cidade, mesmo que seja por umas escassas horas.

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