São João da Madeira, que modelo de cidade?

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Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo

Alberto Caeiro

 

O barulho das luzes 

Sempre pensei que esta expressão tinha por fundamento a sensação de que as luzes nos distraem da realidade que nos rodeia. Pelos vistos não é assim e existe até uma explicação científica para o seu uso. No entanto, isso também não vem ao caso.
‘Quem vem e entra’ na cidade ao final da tarde, pela rotunda agora popularmente conhecida como a do MacDonald’s, fica com a “falsa sensação” de ter entrado numa cidade cheia de movimento e estonteante dinâmica.
Porém, não podia estar mais longe da realidade. Se é verdade que na “hora de ponta”, sendo esta a principal via de acesso à cidade, podemos perceber uma grande afluência de carros, entre os que saem do trabalho e os que regressam a casa, vindos das zonas industriais da cidade, tal não nos deve induzir em erro. São apenas carros a ir e a vir,
senhor. Apenas carros. A maior parte dos quais com um único ocupante. Por outro lado, se entrarmos (ou sairmos, dá igual) na cidade pela Arrifana, o panorama é bem outro: muito menos trânsito! Ou, se por hipótese, quisermos experimentar o acesso à cidade pela Avenida do Brasil então os carros são basicamente inexistentes (a não ser os dos residentes nessa rua).
Acrescenta a tudo isto que se por acaso formos à Praça Luís Ribeiro pelas 19H (mais ou menos a hora do grande tráfego da tal rotunda) deparamo-nos com uma falta de vida absolutamente constrangedora, que representa muito daquela que foi a total ausência de um plano estratégico para esta cidade nas últimas décadas, de um plano focalizado nas pessoas e pensado para as pessoas. Quantos de nós já não experimentou uma sensação de desconforto quando se desloca à Praça a partir das 19H? Quantos de nós já não pensou que depois de determinada hora São João da Madeira parece uma cidade fantasma, sem “vivalma” na rua?
Só olhando para a cidade por inteiro podemos definitivamente mergulhar na sua realidade e não sermos tentados ao engano pela suposta “dinâmica cosmopolita” da rotunda do MacDonald’s. Apontar as fragilidades de que padecemos não é nenhuma falta de bairrismo. Pelo contrário. Só nos podemos tornar mais fortes quando reconhecemos e enfrentamos, sem receio, as nossas debilidades.
E o que se pede aos diferentes atores políticos é que não recorram ao discurso fácil de que “tudo vai bem” e, sobretudo, não sejam tentados a exagerar ao ponto de se tornarem fantasiosos. Não avançamos para a concretização de um modelo de cidade e a consequente afirmação de uma marca identitária que nos distinga se enveredarmos por um discurso fácil que procura levar os nossos concidadãos a pensar que está tudo bem e que ao percorrermos a Avenida da Liberdade é como se estivéssemos na 5ª Avenida, com o
Central Park ali ao lado.
Este tipo de discurso, de tão desfasado da realidade, tem por vezes o efeito contrário, gerando nos cidadãos um certo descrédito e a ideia de que os políticos são capazes de tudo dizer quando se trata de “puxar a brasa à sua sardinha”.

À espera do desejado

Diz-se que o PSD se prepara para apresentar no “tempo tido como certo” (quem sabe numa manhã de nevoeiro) um político experiente e com provas dadas no município, com vista às próximas eleições autárquicas.
Esta notícia remete-nos, mais uma vez, para a situação vivida pelo PSD local nos últimos anos: a tão comentada procura de uma figura carismática e de relevo na cidade para ser cabeça de lista às eleições autárquicas. Foi assim nas anteriores e será assim nas futuras.

E esta é uma prova cabal da falta de confiança e convicção dos dirigentes em si próprios. Apenas isso justifica a necessidade de serem caucionados pela tal figura, como se de um “fiador político” se tratasse. Em política, a perceção é muito importante e ao passar esta imagem o PSD parte em desvantagem para qualquer batalha eleitoral.
É evidente para todos aqueles que se interessam pela política partidária local que o PSD sofre uma espécie de orfandade política há já alguns anos que faz com que os seus atuais protagonistas manifestem falta de convicção. Essa é a imagem que deixam passar criando a ideia nos eleitores de que não se sentem por si só capazes de governar a cidade.
Por tudo isto, entende-se que o partido e os seus atuais dirigentes anseiem por apresentar o seu D. Sebastião, tão desejado como venerado, e constantemente evocado.
Tenho por certo que as próximas eleições autárquicas serão um momento de clarificação para os militantes e eleitores do PSD local. Ou se dá o tão desejado regresso e depois se verá o resultado conseguido ou será necessária uma mudança de protagonistas que tragam ao partido a tão necessária lufada de ar fresco e corte radical com este estado de alma em que os atuais dirigentes estão mergulhados.

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