Da esperança

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Da esperança sabemos que deve ser a última a morrer e repetimos, uma e outra vez, esta frase batida como se depois de tudo o que conhecemos e sabemos houvesse ainda uma instância última de recurso e resolução daquilo que consideramos problemas e dificuldades.

Talvez haja. Talvez não haja. E dessa zona de dúvida e incerteza, desse território vazio de respostas, que emerge em cada um de nós uma vontade de resistência e um desejo de combatividade dirigido aos diferentes objetivos e às muitas contrariedades que fazem parte do nosso caminho.

Achamos que se trata de autodeterminação ou mesmo ambição. Falamos de energia, capacidade, autonomia e deixamos de fora qualquer referência à esperança, já que essa parece reservada a ser um sentimento que nos pode visitar quando mergulhamos em zonas de aflição. Mas, de facto, talvez se trate mesmo de uma questão de designações. Talvez a esperança seja constitutiva e faça parte da nossa gestão quotidiana ainda que envolta em outros nomes mais suaves e menos comprometidos.

É ainda uma esperança minorada mas efetiva aquela que usamos para esperar que as coisas corram a contento, que a vida nos saia bem, e que consigamos ir atingindo metas que vamos estabelecendo. Chamamos-lhe expectativas e achamos que são desejos legítimos e aspirações razoáveis, muito longe do território semântico em que se apela à esperança.

Por vezes, penetramos em formas residuais do pensamento mágico da nossa infância e, mesmo que a pro idade não esteja do nosso lado, tentamo-nos com palpites que surgem não se sabe de onde. Jogamos na lotaria ou esperamos que alguém apareça a resolver o que não sabemos. À revelia de qualquer racionalidade, acreditamos que há um destino feliz à nossa espera ou um anjo protetor que vela pelos nossos interesses.

Também há uma esperança organizada e partilhada com outros, a que chamamos fé. Por vezes consensual, por ter ritos próprios e cânones definidos, por ser anterior a nós próprios e mergulhar num caldo cultural em que sempre evoluímos, arrumamo-la noutro patamar de fenómenos. Talvez a esperança seja a última a morrer apenas porque faça tão parte de nós que só possa morrer connosco.

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