Branca de Neve

0
126

A serra é mágica na sua simplicidade. Vestida de mimosas, pintada do amarelo do tojo e da giesta, rosada da urze, pintalgada de outono, despida de folhas, cinzenta das fragas, negra de breu, branca de neve, a serra é alma e coração de quem a ama. Mar de frescura, porto de abrigo, lar de aconchego, horizonte de liberdade, é a serra que nos solta os pés para chegarmos ao céu.

Sempre amei a serra. Desde criança que os meus olhos aprenderam a vê-la ao longe, erguendo-se sobre o vale, dourada de sol e de lua, prateada de neblina, flamejada de relâmpagos, praguejada de trovões ou serenamente abraçada de arco-íris.

A Serra da Freita é um tesouro que nunca me canso de visitar porque nunca me cansa o seu regaço. Desde muito nova que lhe conheço os caminhos por mais avessos que sejam, quando nem estradas havia. Ao fim de muitas horas, de cajado na mão, lá chegávamos ao cimo, por estreitos carreiros talhados no chão pelo andar de muitos anos e de muitos pés. Nunca da memória se esvai o prazer do saboroso farnel, a toalha estendida sobre as lajes ou nas margens do rio Caima por ali nascido, ainda criança, de água saltitante e cristalina, desconhecendo o abismo que mais à frente o há-de precipitar de uma altura medonha, na Frecha da Mizarela.

Hoje, não é assim. O carro vai onde quer que seja e nós não resistimos a fazer-lhe a vontade, como aconteceu. De outra forma, a idade nunca poderia aceitar a constante sedução da sua íngreme subida e o repouso do seu planalto. O sol abriu, e apesar do frio, apetecia respirar aquele ar puro que tudo parece limpar dentro de nós. A meio do caminho, porém, uma insidiosa cortina cinzenta parecia coar lentamente a luz do sol, e de repente as árvores e arbustos despidos começaram a vestir-se de um nevoeiro brilhante como num conto de fadas. No ar dançavam gotículas prateadas como numa bola de cristal. Foi tudo tão rápido que não nos apercebemos de que estava a nevar intensamente. Um deslumbramento! Cada vez mais densa, a neve caía em flocos, e em poucos minutos tudo ficou coberto de um manto branco. Como por artes mágicas, a paisagem transfigurou-se por completo numa espécie de fantasia de postal, envolvendo-nos numa inesperada beleza que enchia os olhos e a alma. Por prudência, não subimos mais e retomámos lentamente a descida, deixando Schneewittchen para trás, branca de neve, nostalgia de uma infância encantada pelos contos dos Irmãos Grimm. Talvez, quem sabe, os Sete Anões andassem por ali, mas já não tivemos coragem de os procurar.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Loading Facebook Comments ...