São João da Madeira, que modelo de cidade?

E de repente descobriram a importância da memória

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Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

 

Não deixa de ser curioso que o PSD e os seus apoiantes, cronistas ou não, tenham despertado agora para a importância de uma casa de memória, sendo este um dos seus focos quando se trata de fazer um balanço negativo da atividade deste executivo PS.

Falemos, então, da casa da memória para fazer a pergunta que se impõe: porque é que durante os doze anos que governou a cidade, o PSD nunca projetou ou sequer considerou a possibilidade de dar corpo a um projeto como este?

Indo mais longe, se bem me lembro, até chegou a desconsiderar a memória ao decidir acabar com o muito elogiado e relevante núcleo histórico da Oliva. Quando, há uns anos atrás, numa das várias visitas que fiz à Oliva Creative Factory quis visitar este núcleo informaram-me que o mesmo tinha sido desmantelado porque precisavam da sala para instalar uma empresa que iria pagar bem por esse espaço. Creio que posteriormente foi recuperado e instalado de uma forma quase “clandestina” na Torre da Oliva, mas acredito que muitos Sanjoanenses nem saberão disso.

É caso para dizer: ainda bem que não apareceu uma empresa com vontade de alugar o edifício onde está o Núcleo de Arte.

Por aqui se pode ver o quanto o PSD é sensível às coisas da memória. Mas adiante.

Segundo a definição da Casa da Memória de Guimarães, uma casa da memória “é um centro de interpretação e conhecimento que expõe, interpreta, reflete e comunica testemunhos materiais e imateriais que contribuam para um melhor conhecimento da cultura, território e história da cidade e das suas pessoas”. E estes são, do meu ponto de vista, os princípios que devem presidir à criação de uma casa da memória: preservar aquilo que é a memória de uma cidade e do seu povo em todas as suas dimensões.

Deste modo, entendo que o atual executivo ao ponderar a criação de um centro de memórias industriais está na iminência de tomar uma má decisão e prestar parco serviço à comunidade. Estas memórias, as industriais, encontram-se já bem alicerçadas e têm o seu habitat natural nos museus industriais da cidade onde, ao que sei, existe um importante acervo de testemunhos de antigos operários.

Afigura-se, portanto, que a única razão que pode levar a que esta decisão seja tomada seja dar conteúdo a um serviço vazio de sentido. É uma decisão errada, que não se compreende e que resultará no desperdício de recursos e no dispersar de valências e conteúdos. Considero, na ótica da boa gestão, que não faz sentido procurar esvaziar uns serviços para dar conteúdos a um outro de utilidade questionável. E quanto a isto, se dúvidas existissem, a maldita pandemia encarregou-se de as dissipar.

De todo o modo, a escolha deste caminho mono temático afigura-se redutor no sentido em que deixa de fora tantas outras memórias relevantes da nossa comunidade.

A memória coletiva de São João da Madeira está longe de se esgotar nos testemunhos dos operários fabris e da história da indústria (que insisto, está já devidamente protegida).

Quantos sanjoanenses das novas gerações sabem que na cidade existiu um rancho folclórico que teve um papel cultural e etnográfico importante, ou um grupo de ação cultural, ou um grupo de teatro amador? Quantos saberão as histórias das equipas sensacionais de hóquei em patins? E quantos conhecem as relevantes figuras da literatura e da fotografia? Quantos jovens conhecem os benfeitores que ajudaram a erguer a cidade e a história dos Brasileiros de Torna-Viagem?

Enfim, os exemplos podiam ser muitos, tantos quantos a complexidade da memória de uma cidade, que se faz de muitas vidas e muitas histórias. Conhecer melhor a cultura, o território e a história da cidade e das suas pessoas implica, então, preservar também estas memórias.

A memória é um elemento fundamental para compreendermos a construção da identidade de uma comunidade. É, por isso, da maior importância proteger a relação do património cultural com a identidade e memória social. O objetivo deve ser evidenciar a memória social como questão fundamental para a formação sociocultural e como uma forte componente da nossa marca identitária.

A memória ajuda-nos a enfrentar a mudança. Ao ancorar o nosso sentido de existência mostra-nos que procedemos de algum lado, que temos uma história antes de nós para contar e com a qual aprender. Dá-nos confiança e segurança para enfrentarmos o futuro.

Mas, muito para além de todas estas considerações, não posso deixar de notar que esta decisão de ignorar estas memórias enquanto elementos importantes da nossa história deixará de fora uma parte muito significativa do nosso passado enquanto comunidade, o que será, a todos os títulos, imperdoável. O futuro nos dirá quanto do nosso passado foi esquecido, quem fez por o esquecer e porquê.

 

A prosperidade ou decadência de uma cidade transcende as medidas fiscais e económicas, pois as cidades são muito mais do que orçamentos ou negócios, abrangem pessoas, culturas, heranças históricas e património físico e imaterial.

Philip Kotler

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