O relógio e o chá

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Quando poiso os olhos naquele mostrador muito branco com algarismos muito negros é como se abrisse a cortina de um palco e a memória reencarnasse real e viva num horizonte de luz crepuscular sem princípio nem fim. Sempre mexeu comigo aquele relógio preto, pendurado na parede da sala grande. Talvez por me fazer pensar que o tempo não pára. Recordo o meu pai a acertá-lo à noite antes de se deitar, ouço o rodar rezingão do torniquete a dar corda, o ranger leve dos ponteiros e o bater das horas a cada hora. E invade-me, nessa altura, uma espécie de saudade sonâmbula, embalada pelo tic-tac do relógio, capaz de me levar a qualquer recanto da minha infância.

Esta tarde estou só. A minha única companhia é a lareira que acendi este ano pela primeira vez. A chama das vides é mais brilhante e parece conversar comigo. Em cima da mesa antiga, a toalhinha de linho muito lavada e bem passada a ferro. Do velho bule de porcelana vermelha acastanhada, solta-se um cheirinho a saudade e a limonete. Lá fora, cai uma chuva miudinha em fios tão finos que lembram uma cortina de renda. Os ténues raios de sol parecem brincar às escondidas com a chuva, e ao longe um arco-íris atravessa a serra de lés-a-lés. A chover e a dar sol na cabeça do rouxinol.

E, com isto, se aconchegou a hora do chá. A hora do chá foi sempre, para mim, sagrada. Mais do que uma pausa, é um ritual. Desde pequenina que gosto de chá. Detestava leite, e minha mãe via-se aflita para o substituir por outra bebida. Fazia-me banacau (farinha feita à base de banana e cacau), cacau com limão e canela, cevada fervida à lareira numa infusa de barro, com tempo de espera para a mistura assentar. Mas a única bebida de que muito gostava era o chá. Naquele tempo, chá de hortelã ou cidreira, ervas secas ou verdes, colhidas de madrugada antes das orvalhadas, ou até de cascas secas de cebola. De manhã, acompanhava o chá um pãozito com manteiga feita em casa, batida num cântaro de barro e depois guardada em papel vegetal. Comia pouco, era muito biqueira, como diziam na aldeia. Por isso, ia trincando o pão ao longo do carreiro da escola que atravessava o mato, mais directo e menos perigoso, acompanhada da minha gata com quem repartia o pão aos bocadinhos. À tarde voltava ao meu chá.

Tenho uma variedade enorme de chás em caixas ou latinhas, desde os verdadeiros chás pretos, blended or not, infusões e tisanas. Os meus preferidos são o Earl grey, o chá de limonete e o de erva de príncipe. Ainda hoje me dá um prazer enorme prepará-lo com toda a beleza e requinte que ele merece. Basta-me, porém, tomá-lo com pão e manteiga, mel e compota, tão pouco para ser manjar! E se for com as amigas o prazer é maior. Mas hoje estou só. Lá fora deixou de chover e a noite começou a cair. Dentro de mim e à minha volta só silêncio e solidão. Apenas o crepitar da fogueira e o tic-tac do velho relógio preto na parede, a iludir-me, dizendo que o tempo não passou e parou na minha infância.

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