O açude

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De regresso a casa depois do Natal, vivido como sempre no meu cantinho da aldeia, entre memórias, aletrias, rabanadas e lareira, parei o carro no cimo de um mato que nos pertence, ao ver que alguma coisa me havia despertado inesperadamente a atenção. Na margem da estrada, no local onde toda a vida se erguera uma cortina cerrada de árvores e arbustos, surgiu uma ampla clareira que deixava a descoberto uma paisagem que nunca
dali se avistara.
Os meus olhos poisaram de imediato no rio que ao fundo corria por entre os lameiros, dobrando-se sobre um farto açude que ao brilho do sol poente tomava a cor da prata. O riacho, pouco mais largo do que uma ribeira em dias de Verão, levava agora tanta água que parecia um grande rio, todo vaidoso do seu caudal engrossado pelas chuvas abundantes deste Inverno.
Por ali me vi e me revi, pequenita, pela mão de meu pai, que de vez em quando ia ver as terras que tínhamos ao longe, arrendadas e feitas pelos caseiros. Saber como iam as coisas, se era boa a nascença, se era respeitada a lei da rega, se algum talhadouro estava mal talhado, se já pintava o bago, eram razões para a visita de meu pai. Recordo como se fosse hoje o lameiro mesmo à beira do rio, ladeado por uma ramada baixinha, onde havia videiras americanas que pintavam mais cedo. O meu pai tirava alguns bagos mais maduros para eu provar, com a preocupação de algum arejo ou moléstia, por não serem lavados. Naquele tempo, a economia de uma família era a terra, o milho e o vinho. Uma má colheita era um desastre para caseiros e senhorios.

Ali me mantive por alguns momentos, deixando os meus olhos fundir silenciosamente presente e passado, desfolhando páginas esquecidas deste saudoso álbum a preto e branco da minha infância. Senti que poisavam no açude como as borboletas brancas que as minhas mãos pequeninas tentavam caçar. A mesma natureza, o mesmo cenário, o mesmo palco, agora vazio, sem história nem actores. Talvez ainda houvesse crisálidas… e ainda nascessem borboletas, voando sobre a água e as flores a ligar as dobras do tempo.
Meti-me no carro e rumei a casa com os olhos cheios de água… do açude.

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