Em março o Campeonato de Portugal era cancelado numa altura em que a Sanjoanense estava a poucos pontos dos lugares de acesso à fase seguinte. Como é que lidaram com a decisão?

Foi uma frustração e uma perda enorme para o clube e para o projeto. Todos os anos temos de ter alguma engenharia financeira para a construção do plantel e procuramos trazer algo diferente daquilo que existe em Portugal ou neste campeonato, porque queremos vender sempre um ou dois atletas, pois essa é a principal fonte de receita. É por isso que construímos planteis com uma grande diversidade cultural, para tentar descobrir, dentro desse grupo, um ou dois elementos que possamos potenciar e esse interregno deu-nos um corte muito grande. É obvio que a observação dos atletas deve ser feita ao longo do ano, mas é nos últimos meses que os clubes começam a ver os atletas para a próxima época e isso coincidiu com a pandemia. De quatro ou cinco jogadores rotulados para serem vendidos, vendemos apenas um a um preço abaixo, o Belkheir, que foi para o Leixões.

Mas não foi apenas a venda de jogadores que foi afetada.

Com o interregno a possibilidade de vender jogadores diminuiu cerca de 80%, mas a receita de bilheteira e própria publicidade sofreu um corte. As empresas também foram afetadas e cortaram alguns patrocínios. E se a parte financeira foi dramática, a competitiva foi muito mais. Não acredito que subíssemos de divisão, mas iríamos aproximar-nos dos lugares da frente e, consequentemente, valorizar jogadores, para além de que a vitória em Lourosa, que era um dos candidatos, foi um catalisador para que as últimas nove jornadas fossem muito boas para nós.

O principal objetivo passa, então, pela rentabilização do seu principal ativo, que são os jogadores?

Claramente. Só há uma forma de sobreviver neste campeonato que é fazer com que as receitas sejam, pelo menos, iguais às despesas e a única forma de equilibrar isso é rentabilizar ativos, promovendo-os e vendendo-os. Sabemos que é muito difícil vender jogadores na terceira divisão portuguesa, mas com trabalho árduo ao nível da prospeção temos conseguido.

Refere que é muito difícil vender jogadores neste campeonato, mas também admite que a Sanjoanense o tem feito. Isso é reflexo do trabalho ou da escolha dos atletas e da sua potencialização ao longo da época?

Um bocado das duas. Uma grande parte das equipas do Campeonato de Portugal sonham com a subida e querem-no a curto prazo e é mais fácil serem competitivas com jogadores portugueses do que estrangeiros, porque conhecem a realidade deste campeonato. E nós sentimos essa dificuldade, quer seja na língua, na alimentação ou mesmo na própria cultura tática. Ao longo dos últimos anos tenho falado com clubes de outra dimensão e dizem-me que os jogadores do Campeonato de Portugal não servem para outro campeonato e que nós trazemos algo diferente que os fazem pensar em contratar um ou outro atleta. Com isso é difícil ter uma equipa competitiva e conhecedora desta prova. Nós queremos as duas coisas, mas como temos alguma fragilidade financeira temos de correr o risco de trazer gente jovem e estrangeiros para tentar potenciar. Dentro das nossas possibilidades temos conseguido isso, mas depois ficamos um bocado aquém no aspeto competitivo. É certo que são vendas de valor baixo, mas são um balão de oxigénio para a Sanjoanense.

“É certo que são vendas de valor baixo, mas são um balão de oxigénio para a Sanjoanense”

Depois da suspensão acabaria por ser decidido o fim da época 2019/2020, à exceção da I Liga, que, mais tarde, retomou para cumprir as jornadas em falta. Acha que essa decisão também podia ter sido aplicada às restantes competições?

Como estamos do outro lado da barricada, é obvio que também queríamos jogar, mas não há nada mais importante do que uma vida. Para além da grande perda financeira, foi frustrante ver a I Liga chegar ao fim e os restantes campeonatos não terem essa possibilidade, mas temos de ter noção que não temos a capacidade e as condições dos clubes que estão na principal competição do país. A decisão foi penosa e prejudicial, mas, se calhar, foi a medida que teve que ser tomada.

E concorda com a proibição de público quando alguns eventos culturais e até desportivos realizaram-se com assistência, ainda que limitada?

Temos de ter noção que há modalidades que fazem com que as pessoas tenham uma conduta diferente do que acontece, por exemplo, num concerto. No entanto, acho que deveriam ter sido realizados testes piloto para averiguar as consequências e, a partir daí, tomar decisões. Sei que o futebol é muito débil ao nível da sensatez das pessoas, que muitas vezes extravasam-se de forma a colocar em risco os outros, mas acho que o Estado está a esquecer-se um bocado do desporto, não apenas com essas medidas, mas também ao nível dos apoios. As federações e as associações vão apoiando dentro das suas possibilidades, mas não vejo o Estado português a fazer nada. O futebol, por exemplo, não é só diversão, mas um negócio a todos os níveis e a inibição de público tem um peso no orçamento de um clube na ordem dos 30 a 40%.

O cancelamento da época precipitou a decisão da FPF de proceder a uma remodelação dos moldes do Campeonato de Portugal. Qual a posição da Sanjoanense?

Este vai ser um ano de mudança e vai ser difícil, mas tinha de ser feita porque os quadros competitivos eram injustos. Era necessária a criação de uma liga que seja um campeonato corrido, em que os primeiros dois ou três classificados subam diretamente de divisão, sem terem de disputar um play-off. Há muitas equipas que querem, mas não podem estar no Campeonato de Portugal porque não têm condições, não têm uma infraestrutura adequada à prova, não têm uma estrutura em termos de recursos humanos e de logística compatíveis com uma divisão que já apresenta alguma qualidade. Com esta alteração a Federação Portuguesa de Futebol está, de alguma forma, a fazer uma triagem das equipas que têm capacidade para estar numa 3.ª Divisão, que passa a ser de âmbito mais nacional e com requisitos praticamente profissionais. É quase como uma antecâmara para a competição profissional.

“O Sérgio Machado assimilou aquilo que é o projeto da Sanjoanense”

Com esta mudança dos moldes competitivos qual é o objetivo do futebol da Sanjoanense?

O objetivo assumido é entrar na 3.ª Liga, mas não vai ser fácil mediante o orçamento que temos e porque há mais sete ou oito candidatos, pois este ano calhamos numa série que é extremamente competitiva. Se terminarmos no sexto lugar continuamos no Campeonato de Portugal, mas é quase uma descida porque a prova passa a ser a quarta divisão nacional.

Depois do cancelamento da época 2019/2020, e após vários meses de paragem, como foi feita a preparação da atual temporada?

Estamos habituados a trazer jogadores de fora com alguma valia e esta época isso não foi possível, pelo que arriscamos um bocado com este plantel, que é extremamente jovem. Foi para isso que nos preparamos, sempre com cuidados na parte orçamental, mas focados numa equipa competitiva. E, para já, estamos enquadrados com os nossos objetivos, mas sentimos que foi um início de época complicado porque acreditávamos que a pandemia iria trazer um abrandamento orçamental das outras equipas e o que se verificou foi precisamente o contrário.

Para a nova época a aposta passou pela continuidade do técnico Sérgio Machado. É o homem no lugar certo?

Claro. Por isso é que propusemos a renovação. O Sérgio Machado assimilou aquilo que é o projeto da Sanjoanense. Um projeto cauteloso ao nível financeiro e com a capacidade de poder potenciar jovens para que o clube tenha sustentabilidade financeira. Além disso, apresenta um modelo de jogo que gostamos, um método de treino que achamos atual e conta com uma equipa técnica com um carater que consideramos como ideal para estar à frente de uma equipa como a Sanjoanense.

Na altura em que foi anunciado o cancelamento das competições referiu que a Sanjoanense iria voltar mais forte. Foi o que aconteceu?

Apesar de muito jovem temos uma equipa que não tem defraudado as nossas expetativas. Se calhar queríamos um plantel mais ajustado ao nosso objetivo, mas isso não foi possível devido à pandemia. Tivemos de nos adaptar à realidade, mas estamos dentro do que pretendemos que é a estabilidade e estamos a ser competitivos.

E é fácil manter a equipa motivada com a ausência de um dos “motores” do jogo, que são os adeptos?

É claro que é difícil, porque um estádio vazio é quase um jogo sem alma. O público é como um barómetro dos jogos e isso deixou de existir. A vivacidade que um jogo de futebol tem foi retirada, mas os jogadores tiveram de se adaptar a esta nova realidade.

Com a pandemia o clube reforçou a aposta nas transmissões online. Não teme que isso crie hábitos e mude a forma como se assiste ao desporto?

Corremos esse risco, mas a alma do futebol é o público e esse está ansioso por regressar ao estádio. Quem gosta de futebol quer vir ao estádio assistir aos jogos, comentar e extravasar as emoções.

“O público é como um barómetro dos jogos e isso deixou de existir”

Em novembro alguns casos positivos de Covid-19 obrigaram ao confinamento do plantel. Essa paragem refletiu-se na equipa?

Claro. Os atletas perdem muita capacidade muscular, física e até técnica. Tudo isso é prejudicial e se não é fácil de ultrapassar, nos clubes pequenos e com poucos recursos mais difícil se torna. Mas não nos podemos virar para o problema, mas para a solução. A Sanjoanense ultrapassou isso com dificuldade e regressou preparada para a competição.

No regresso a equipa teve dois jogos praticamente seguidos. A paragem teve impacto nesses encontros?

Com quatro dias de treino fomos a Vila Franca de Xira defrontar uma equipa do escalão superior. A equipa transcendeu-se, teve uma postura excecional e conseguiu dar tudo o que tinha, mas a repercussão veio a seguir. No jogo de Vildemoinhos pagamos essa fatura, nomeadamente na segunda parte. Foi um jogo onde a equipa sentiu muitas dificuldades.

Qual a relação que existe entre a SAD e o futebol de formação do clube?

Boa. Nem sempre estamos em concordância e tivemos um mal-entendido que está esclarecido e é um episódio ultrapassado. Se calhar deu uma imagem que o futebol sénior e o futebol de formação não se entendem, mas isso não é verdade. Temos uma relação boa e cordial.

Três anos depois desde que a SAD tomou conta do futebol sénior da Sanjoanense, que balanço faz, até ao momento, deste projeto?

É claramente positivo. É obvio que queremos que a Sanjoanense seja engrandecida com esta estrutura e isso está a ser conseguido. Estamos a estabilizar a parte financeira, que era onde residia a maior preocupação. Em termos competitivos, no primeiro ano entramos praticamente a meio da época e a prioridade foi quase salvar o clube da descida. O ano seguinte foi de credibilização, porque tivemos muita dificuldade em recrutar. Foi um ano em que tivemos de investir mais um bocado porque íamos ao mercado e as pessoas recusavam-se a vir para a Sanjoanense devido às dificuldades financeiras ou porque o clube estava sempre a descer. O terceiro ano, que corresponde praticamente à quarta época (2020/2021), que tem um quadro competitivo diferente, foi de muito investimento, mas temos de ser cautelosos para conseguirmos cumprir o orçamento.

“Os clubes são feitos de adeptos e de pessoas”

Qual a relação entre a SAD e o presidente do clube Luís Vargas?

É ótima. É um homem com o perfil adequado para levar a Sanjoanense a bom porto. Tem feito um trabalho exemplar, difícil, e às vezes contestado, mas a perfeição não existe. É uma pessoa que tem ajudado para que esta relação funcione bem e não se evidencie a divisão entre a SAD e o clube. É tudo Sanjoanense e é uma forma de gestão que tem permitido ao clube crescer.

E no que diz respeito aos adeptos e à cidade, sente que a SAD tem o apoio necessário?

Tem apoio, mas não o suficiente. O tecido empresarial tem apoiado, mas as pessoas têm de se aproximar mais do clube. Os clubes são feitos de sócios e adeptos. No futebol sénior sentimos que os sanjoanenses estão à espera que o clube passe para um nível superior para depois começarem a apoiar. Acho que tem de ser ao contrário. O apoio tem de ser agora, neste momento, para depois podermos dar o salto.

Vê isso como falta de bairrismo?

O bairrismo ainda existe, mas perdeu-se grande parte. A nova geração não é tão bairrista como a anterior e é com essa faixa etária que temos de nos preocupar. As modalidades do clube têm de ser mais acutilantes para que isso não desapareça e o hóquei em patins é, neste momento, um exemplo. O futebol da Sanjoanense precisa desse apoio, e quando não conseguimos apoio financeiro só pedimos que as pessoas venham ver os jogos.

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