Mais de 35 desenhos identificados em Portugal e no estrangeiro

 

O Centro de Arte Oliva (CAO), em colaboração com a Coleção Treger/Saint Silvestre, vai realizar este ano uma exposição sobre Jaime Fernandes com a curadoria da sua diretora Andreia Magalhães.

A exposição sobre o mais reconhecido autor de Arte Bruta em Portugal vai ser acompanhada de uma publicação exaustiva sobre a sua vida e o seu trabalho.

Nesse sentido está a ser levada a cabo uma campanha de identificação e de localização de obras de Jaime Fernandes que possam estar em coleções públicas ou particulares.

Quem tiver qualquer informação sobre os desenhos do artista português, bem como de outras obras, documentos ou até testemunhos, deve contactar o CAO através do email centrodearteoliva@cm-sjm.pt com o assunto Projeto Jaime Fernandes.

“O maior número de obras identificadas da sua autoria são os cerca de 70 desenhos apresentados na exposição que a Fundação Calouste Gulbenkian realizou em 1980. Desde então a obra dispersou-se e uma boa parte perdeu-se. Em Portugal e fora do país foram já localizados mais de 35 desenhos integrados em coleções públicas e particulares que vão ser apresentados nesta exposição”, revelou a diretora do CAO ao labor.

“Em Portugal localizou-se um número muito significativo de desenhos. Quatro desenhos da coleção da Fundação Calouste Gulbenkian; dois da coleção Treger/Saint Silvestre, em depósito de longo prazo no CAO, dois no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, pertencendo a grande maioria a coleções particulares”. Já “fora do país identificámos desenhos em coleções, públicas e particulares, todos eles com processos de empréstimo em curso. Destes fazem parte a Collection de l’Art Brut [mais conhecida por Museu de Lausanne] (Suíça); as coleções privadas de Hannah Rieger, Viena (Áustria); Frédéric Brun (Montreuil- Sous-Bois, França), Nicole Laray (Paris, França) Art Brut abcd Collection (Montreuil, França), Karin and Gerhard Dammann Collection (Tä gerwilen, Switzerland); Eternod–Mermod Collection (Begles, França)”, deu a conhecer Andreia Magalhães. “Na sequência dos contactos estabelecidos está a ser estudada a apresentação desta exposição no Museu de Lausanne (Suíça) em data posterior à do CAO”, adiantou a diretora ao labor.

Exposição prevista para maio, mas dependente da evolução da pandemia

A exposição “Vi uma cadela minha com lobos” sobre Jaime Fernandes está “agendada para o final de maio, mas com esta questão da pandemia não sei se não se atrasará um pouco”, acautelou Andreia Magalhães, demonstrando, ainda assim, “muita confiança” de que o CAO a conseguirá inaugurar até “aos meses de verão”.

A Coleção Treger/Saint Silvestre foi iniciada por Richard Treger e António Saint Silvestre na década de 1980. É a única Coleção de Arte Bruta/Outsider da Península Ibérica e uma das mais importantes a nível europeu que está em depósito desde 2014 no CAO, onde tem sido apresentada através de exposições temporárias. A coleção tem cerca de 1.500 obras de 350 artistas de todo o mundo.

O artista que começou a desenhar aos 66 anos

Jaime Fernandes (1899-1969) foi diagnosticado com esquizofrenia aos 39 anos e esteve internado mais de três décadas no Hospital Miguel Bombarda em Lisboa, onde viria a morrer em 1969.

De acordo com os testemunhos e as referências feitas aos desenhos nos registos clínicos do hospital e nas cartas que escrevia à sua mulher, Jaime Fernandes começou a desenhar inesperadamente aos 66 anos, quatro anos antes da sua morte. A sua obra é constituída por desenhos, não datados, sobretudo feitos com esferográficas coloridas sobre diversos tipos de papel que contemplam um reduzido formulário de figuras, sobretudo animais imaginários, figuras humanas ou antropomórficas, sempre desenhadas numa densa trama de linhas. As cartas, outros escritos e os desenhos do artista português foram filmados depois da sua morte por António Reis e Margarida Cordeiro, dando origem ao filme “Jaime” (1974). Este, por sua vez, marcou o primeiro momento de revelação pública da obra de Jaime Fernandes.

A maior exposição dedicada ao seu trabalho foi feita pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1980, onde foram apresentados 74 desenhos. Um ano depois foi iniciada a divulgação internacional da obra de Jaime Fernandes. Na 16ª Bienal de São Paulo, 51 desenhos do artista português integraram a exposição “Arte Incomum”, com a curadoria de Victor Musgrave e Annateresa Fabris. A obra de Jaime Fernandes foi apresentada e interpretada a par de 16 dos mais reconhecidos artistas de Arte Bruta como Henry Darger, Johann Hauser, Miguel Hernandez, Bill Traylor ou Adolf Wolfli em “Outsiders: an exhibition of Art Brut”, organizada pelo galerista Gérard A. Schreiner, em 1988, em Nova Iorque. Jaime Fernandes tem sido internacionalmente reconhecido como um dos mais importantes nomes da Arte Bruta europeia, estando representado em diversas coleções internacionais, como dá a conhecer o CAO.

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