Chega de tanta idiotice

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Sente-se. Está sentado?

Encoste-se tranquilamente na cadeira. Deve sentir-se bem instalado e descontraído. (…) Ouve-me bem? Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me? (…) Então repito: você é um idiota. Um idiota.

Por favor não me interrompa. (…) Não venha com evasivas. Você é um idiota.

Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo. A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.

Você é um idiota.

Pergunte pois aos seus parentes se você não é um idiota… Claro, a si não lho dirão, porque se tornaria vingativo como todos os idiotas. Mas os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.

É típico que você o negue. (…) Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um Idiota. É francamente fatigante. (…)

Ah sim, acha você que tem exatamente as mesmas ideias do seu parceiro. Mas também ele é um idiota. Faça favor, não se console a dizer que há outros Idiotas: Você é um Idiota.

De resto isso não é grave. (…) Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.

E então na política! Não há dinheiro que o pague.

Na qualidade de Idiota você não precisa de se preocupar com mais nada.

E você é Idiota

Bertolt Brecht

No passado dia 24 de Janeiro, 7 cidadãos Portugueses apresentaram-se a eleições para o mais alto cargo da Nação, Presidente da República Portuguesa. Os resultados foram mais ou menos os esperados. No entanto, por força da sua importância mediática e por ter sido o centro de todas as análises políticas dos doutos comentadores de serviço não resisto, também eu, a esmiuçar o resultado obtido pelo candidato André Ventura.

1º O partido CHEGA não esteve sujeito ao escrutínio dos Portugueses.

2º Quem se apresentou a estas eleições foi uma figura mediática (made in CMTV), pelo que o resultado obtido é fruto desse mero mediatismo futebolístico.

3º O programa e ideário do CHEGA não foi a votos, por isso não se pode extrapolar estes resultados para uma futura eleição nacional (legislativas ou autárquicas).

4º O primeiro grande teste ao CHEGA, enquanto partido político, terá lugar nas próximas autárquicas, e a questão que se lhe colocará é saber se é um Partido de âmbito nacional ou apenas um grupo reunido à volta de uma figura panfletária que dá voz a palpites de café e que contabiliza o descontentamento ocasional.

O líder do partido não vai poder ser candidato a 308 municípios. Eventualmente, será candidato a Lisboa. Eventualmente, até poderá ter alguma votação que se veja. Mas, quem serão os candidatos aos restantes municípios? Existirão ou será este partido reduzido à sua verdadeira e inexpressiva dimensão? Tomemos por exemplo a nossa cidade. Das 685 pessoas que votaram no André Ventura quem irá ser o cabeça de lista às autárquicas?

Se tivermos presente a excelente reportagem de Pedro Coelho, na SIC, facilmente concluímos que as segundas figuras do partido são muito fraquinhas, para não ir mais longe.

Tenho para mim que o partido se irá fragmentar severamente na hora de elaborar as suas listas para as autárquicas. Basta lembrar o que aconteceu na II convenção em Évora, em que só à terceira, e após uma série de curiosas jogadas de bastidores, conseguiram eleger a direção.

Prevejo, por isso, uma belíssima luta fratricida, que poderá fazer implodir o partido ou, no mínimo, fragilizá-lo irremediavelmente.

As eleições regionais nos Açores são o exemplo paradigmático do que afirmo:

”O vice-presidente do Chega-Açores, Orlando Lima, demitiu-se nesta segunda-feira do cargo, por considerar que o líder nacional do partido, André Ventura, descurou “os interesses dos açorianos” na noite das eleições regionais”.

“O também cabeça de lista do Chega pela Ilha Terceira nas eleições de 25 de Outubro revelou na sua página do Facebook que enviou uma carta ao líder regional do partido, Carlos Furtado, lembrando que recomendou que na noite eleitoral André Ventura “fosse afastado da comunicação social”, devendo ser o presidente regional a assumir a comunicação à imprensa”.

Não sou tão pessimista como alguns. Não acho que a democracia esteja em risco.

Acho que a exemplo de outras iniciativas de partidos sem ideias e sem programa mas cheios de soundbites, construídos à volta de um líder, também este não terá futuro. Será apenas mais um epifenómeno, como foi Marinho Pinto e o seu partido que não sobreviveram a mais do que dois atos eleitorais.

No caso do Chega acredito que poderá durar mais tempo e até conseguir sobreviver durante uns anos, mas também acredito no bom senso e na memória dos portugueses, pelo que vaticino já hoje que nunca terá uma expressão significativa no panorama político Português.

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