Mais de 30 anos depois a Sanjoanense regressou esta época à 1.ª divisão. Como foi a preparação da temporada com todas as condicionantes que se viviam, e ainda se vivem, devido à pandemia?

A 1.ª Divisão é algo novo para todo o grupo de trabalho, mas o grande impacto que sentimos e que pensávamos que não iríamos ter era ao nível das receitas de bilheteira. Isso é uma quebra no orçamento.

Logisticamente também é diferente, pois numa divisão mais exigente os atletas precisam de condições diferentes, sendo também importante um trabalho muito forte por parte dos treinadores.

A subida de divisão era um objetivo?

Na época passada tínhamos desinvestido e esse não era o nosso objetivo principal, apesar de haver essa ideia. Contávamos com uma equipa curta, muito jovem e pouco pesada, enquanto nos outros anos, em que assumimos a subida, formamos um plantel onde tínhamos basicamente duas equipas, uma a jogar e outra pronta a entrar. Ainda assim, e apesar de algumas lesões, conseguimos subir de divisão e isso obrigou-nos a reforçar o plantel, trazendo peso e altura à equipa. Neste momento podem dizer que temos muitos estrangeiros, mas a Sanjoanense é das equipas da 1.ª Divisão com mais jogadores formados no clube.

Refere que a ADS é um dos clubes da 1.ª Divisão com mais atletas provenientes da sua escola de formação. Face aos objetivos da equipa, que passam pela manutenção, era descabido apostar num plantel todo ele sanjoanense?

Completamente. Os melhores jogadores de S. João da Madeira com qualidade de uma 1.ª Divisão estão todos neste plantel e isso é resultado da Sanjoanense ter estado muitos anos sem formar atletas com qualidade para este nível de competição.

Depois da subida ter sido alcançada referiu que a meta para esta época passava por estabilizar a equipa em termos operacionais. Isso foi conseguido? O que significa?

Queria dizer com isso que o objetivo era alcançar um nível aceitável em todos os aspetos, como termos a parte médica ao nível de uma 1.ª Divisão, rodearmo-nos de uma equipa com algum suporte, criar melhores condições para os atletas, entre outras coisas. Penso que conseguimos alcançar isso.

Isso quer dizer que a Sanjoanense teve de adaptar a sua estrutura para ser um clube com capacidade para estar neste nível. Neste momento o que distingue a Sanjoanense de outros clubes da 1.ª Divisão?

Como somos novos aqui tivemos de mexer bastante no plantel de um ano para o outro e isso cria algum desequilíbrio, enquanto as equipas que já cá andam têm de fazer menos alterações. Para a próxima época, ao construirmos o plantel, só temos de mexer nos pontos onde falhámos, porque apesar de termos tido sucesso em algumas decisões, noutras verificamos que não foram as melhores.

“A Sanjoanense é das equipas da 1.ª Divisão com mais jogadores formados no clube”

Neste momento a Sanjoanense ocupa a 12.ª posição. O lugar está dentro do que era esperado?

Confesso que esperava estar um bocado mais acima, mas tivemos algumas contrariedades e é muito difícil ter um campeonato perfeito. Considero que há cinco equipas (Sanjoanense, Boa Hora, ISMAI, Boavista e Gaia) que estão a tentar fugir aos lugares de descida e nós somos uma delas. Tirando essas e colocando de parte Porto, Benfica, Sporting e Águas Santas, que para mim estão num patamar acima de todos os outros, há um grupo intermédio de equipas que, apesar de considerar serem superiores à Sanjoanense, podemos vencer sem ser uma grande surpresa e alcançar um resultado extra.

Esse grupo intermédio que refere justifica, de alguma forma, o facto da Sanjoanense ter estado cerca de oito jornadas sem vencer no arranque do campeonato?

De certa forma sim. Tivemos alguns jogos onde estivemos bem e podíamos ter vencido, como o encontro fora com o Póvoa ou em casa com o Avanca. Foram dois jogos onde não conquistar pontos me custou um bocado, porque estavam perfeitamente ao nosso alcance. Mas nós estamos neste campeonato para consolidar a nossaposição e dar experiência de 1.ª Divisão aos nossos jogadores, para no próximo ano estarem mais maduros e, assim, ter um plantel melhor.

Face ao percurso da Sanjoanense até ao momento no campeonato acredita que a manutenção vai ser conseguida?

Acredito plenamente. Tenho poucas dúvidas que não consigamos a manutenção.

Referiu que esperava que a posição da Sanjoanense fosse ligeiramente melhor. Considera que a prestação da equipa tem correspondido ao esperado?

Claro, mas, como referi, esperava mais. Acho que o inverno, por uma série de fatores, é sempre uma altura complicada em termos de motivação pessoal, mas noto que toda a equipa está focada e comprometida com os objetivos, com os treinos e os jogos.

“Estamos neste campeonato para consolidar a nossa posição”

A pandemia trouxe consequências e alterações a toda a realidade desportiva. Quais são os impactos que se refletem na secção?

Para além da captação de novos atletas, que este ano foi nula, a pandemia está a ser devastadora para os jovens. Há muitos que suspenderam voluntariamente a prática desportiva e, com certeza, não será fácil regressarem. Apesar de não termos feito paragens voluntárias, os níveis de absentismo dos atletas aos treinos rondam os 40%. Já para os que se mantêm a motivação é a principal dificuldade, uma vez que não há competição. Por outro lado, a pressão sobre os dirigentes é enorme.

Em termos coletivos, antes da pandemia tínhamos colocado todas as equipas da formação a competir nas primeiras divisões, e estamos, neste momento, a preparar a entrada de uma equipa de sub20 para fazer alguma competição, partindo do princípio as medidas vão descer.

No que diz respeito aos seniores masculinos, como estão na 1.ª Divisão, não se registaram grandes alterações uma vez que a equipa mantém-se em competição.

Então, como é que se encontra a formação?

Encontrava-se ativa até ao último confinamento obrigatório e regressará logo que este seja levantado. Felizmente, até hoje, ainda não tivemos um único caso nas nossas equipas de formação.

Nos escalões mais jovem praticamente não fizemos ações de captação, pelo que a primeira equipa, dos 6 aos 9 anos, que é nova no início de cada época, este ano não existe.

Referiu que uma das dificuldades é a motivação dos jovens que vão mantendo alguma assiduidade nos treinos. Como é que tentam contornar esse obstáculo?

Quando não há competição, jogos para preparar ou posições para disputar com o colega é muito difícil, mas, dentro das possibilidades, tentamos manter a boa forma dos atletas sempre com a modalidade presente. No entanto, há, sem dúvida, um retrocesso ao nível da evolução técnica.

E que consequências se podem esperar para as centenas de jovens atletas que passam por este momento de incerteza?

Os miúdos que normalmente apostam cedo numa carreira desportiva, nestes dois anos irão dirigir o seu foco para outras coisas, pelo que acredito que poderá haver falta de atletas de topo na geração que hoje tem entre 15 e 18 anos.

“Toda a equipa está focada e comprometida com os objetivos”

Que medidas considera que deveriam ser implementadas para minimizar essas consequências?

As medidas diretas a tomar são poucas. Podemos realizar treinos online, como já fizemos, mas o essencial é manter as estruturas técnicas com apoios financeiros ou com acordos de forma a que quando pudermos arrancar de novo, termos as condições mínimas para reagir. Já as medidas indiretas penso que deveriam passar por subsídios, para que os clubes não desapareçam ou não dispensem o staff.

De que forma o andebol da Sanjoanense está a trabalhar para acautelar isso?

Temos mantido a máquina sempre em funcionamento, mas em baixa atividade, de forma a que num possível recomeço possamos implementar um plano de ataque rápido, focado na captação e em número de treinos. E porque o mercado começa a ter técnicos com qualidade disponíveis também vamos aproveitar para reforçar os nossos quadros.

As consequências também se refletem ao nível financeiro.

Claro. Acho que não há nenhuma entidade que não tenha sentido a crise financeira que veio por arrasto com a pandemia. Este ano prevíamos ter novas receitas de torneios, publicidade e bilheteira, por estarmos na 1.ª Divisão, e que não se concretizaram. Para além disso, por força de toda a situação, também houve uma diminuição da quotização dos atletas. Estimo que a pandemia implicou uma redução na ordem dos 40 mil euros em receitas. Isso, como é óbvio, reflete-se ao nível da gestão, pois é necessário tomar decisões e garantir o equilíbrio da secção e isso não é fácil e torna-se desgastante para os dirigentes que, não sendo profissionais, já chegam ao andebol com o cansaço do dia de trabalho.

Numa situação excecional como esta, acha que deveria existir alguma forma de apoio para os clubes?

Existem apoios para quase tudo, mas para o desporto e diretamente para os clubes, não conheço. Há, sim, em Espanha, na Alemanha e noutros países, mas em Portugal, infelizmente, não. Esquecem-se que há milhares de pessoas ligadas ao desporto, desde atletas, técnicos, equipas médicas, administrativos e que muitos deles dependem, de alguma forma, desta atividade. Acho que há pouca sensibilidade em Portugal para o desporto.

“A pandemia esta a ser devastadora para os jovens”

O momento que se vive e a quebra de patrocínios e receitas pode, de alguma forma, colocar em causa algumas modalidades ou até clubes?

Sem dúvida. Há já vários casos de clubes que ou pararam ou tiveram de dispensar todas as pessoas. É muito complicado, por exemplo, na formação. Quando pararmos 15 dias os encarregados de educação já não querem liquidar as quotas, mas nós temos de continuar a pagar aos técnicos, porque não podemos dispensar as pessoas e esperar que elas voltem quando regressar alguma normalidade.

No nosso caso, o andebol manteve-se sempre em funcionamento, só paramos com a obrigatoriedade do confinamento.

Que medidas considera que seriam importantes adotar no desporto para minimizar as dificuldades que o mesmo atravessa?

Devia haver apoio financeiro para que os clubes se mantenham vivos, sem terem necessidade de dispensar pessoas para quando se regressar a uma certa normalidade possam voltar em força.

Face à situação será necessário muito trabalho de captação e recuperação para dar continuidade a esta geração.

Com o momento que se vive e a interdição dos espaços desportivos ao público, a secção apostou nas transmissões online dos jogos. A aposta tem-se revelado positiva?

Claro. Só faz sentido existirmos se estivermos próximos dos adeptos pelo que tínhamos, obrigatoriamente, de encontrar uma forma para que eles pudessem assistir aos nossos jogos e a recetividade tem estado acima do esperado. Temos mais visualizações online do que presenciais quando estávamos na 2.ª Divisão. Mas não nos limitamos a colocar uma câmara no campo. Fazemos algo mais elaborado com publicidade, resultado e comentadores, mas, obviamente, há custos associados a tudo isto.

Já no caso das seniores femininas a recetividade tem ficado abaixo do esperado.

“Há pouca sensibilidade em Portugal para o desporto”

Não teme que isso possa levar à forma como se assiste ao desporto e, consequentemente, à diminuição do público num eventual regresso à normalidade?

Tenho a certeza que após a pandemia o mundo vai ser completamente diferente. As pessoas que agora têm acesso a praticamente todos os jogos não vão querer prescindir dessa comodidade, mas depois da pandemia acredito que os clubes vão deixar de fazer esse esforço, porque não é a sua atividade “core” e isso poderá levar ao surgimento de empresas especializadas para aproveitar esse nicho de mercado.

Mas um jogo ao vivo é um jogo ao vivo, não se pode substituir.

Têm previstas algumas medidas por forma a rentabilizar financeiramente as transmissões?

Aproveitamos todas as paragens de jogo para passar publicidade, no entanto, essa publicidade de lançamento é feita para os nossos patrocinadores atuais.

Desde que apostamos nas transmissões online não tivemos nenhum patrocinador novo ou específico para os jogos, pelo que a rentabilização das transmissões não contribui nada para as receitas.

Já no que diz respeito ao andebol feminino, de que forma foi feita a preparação da época?

O andebol feminino teve uma preparação normal, que passou por escolher um técnico e com ele construir uma equipa amadora, mas antes do início do campeonato, fomos forçados a trocar de treinador. Contudo a equipa dá muito boas garantias para os objetivos que estão definidos.

E que objetivos são esses?

O objetivo é lutar sempre pela vitória em todos os jogos e tentar alcançar a melhor classificação possível.

E a temporada está a correr dentro do esperado?

Sim. A equipa só perdeu o primeiro jogo. Foi um jogo estranho, onde tínhamos mais de metade da equipa em confinamento. Pedimos inclusivamente à Associação de Andebol de Aveiro para intermediar o adiamento e sei que fizeram todos os esforços para que tal acontecesse.

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