Sobre um texto de Adão Cruz

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É difícil encontrar o caminho rectilíneo da objectividade no mundo de memórias e sentimentos que me ligam ao meu irmão. Percorrendo os corredores do tempo, numa vivência de total cumplicidade de ideais e de valores, somos árvores irmãs, nascidas da mesma semente, enraizadas no mesmo ventre que cresceram afagadas pelo mesmo sol, fustigadas pela mesma chuva e pelo mesmo vento. Vestiram-se de rosas e espinhos, e nos seus ramos cantaram todos os pássaros que ali fizeram ninho. Deram frutos feitos de sonhos, tanta vez roubados às estrelas. Na sua folhagem nasceu a Primavera, que a vida foi lentamente murchando até o Inverno chegar. “Não há volta a dar-lhe”. A Primavera vai e volta sempre, mas a vida não volta mais. O sonho verde, levando o mundo pela frente, toma agora as cores do fim da tarde. O tempo rodou, e a vida foi-se encurtando deixando cada vez mais longe a Primavera.
Grande parte da vida de meu irmão cruzou-se com a minha e também por esta terra passou. As alegrias e as tristezas que o ligam ao seu velho consultório também por mim e pelos meus foram partilhadas. Também nós sentimos a falta dos curtos momentos da hora de almoço, das breves e sãs conversas, das trocas de opinião, do alívio, ainda que momentâneo, do stress que o trabalho a todos nos trazia.
Resta dizer que fica para trás uma doce e amarga saudade. Numa análise o mais objectiva possível, e num julgamento criterioso e autêntico, foi o dever cumprido. Fica, porém, a nudez daquilo que não foi feito.
Esperando que me desculpem a influência da amizade e dos laços familiares, não ficaria bem com a minha consciência se, nesta fase da vida, deixasse de dizer que a imagem que se impõe do meu irmão é de força e confiança, de inteligência, de espírito combativo, de coragem e audácia, de emoções fortes e sentimentos sãos, de nobreza e generosidade. Numa irrequietude constante, persegue a ciência e a arte à procura da sua essência e faz dela a sua crença. Aí assenta todo um exemplo de vida, na tentativa de agregar a humanidade na mudança para um mundo melhor, mais justo e entendível. A mão que cura é a mesma mão que pinta, que escreve, que acarinha, que afaga. A mão da sabedoria do médico, a mão poética da pintura, a mão colorida do poeta e do escritor, a mão solidária na firmeza do amigo.

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