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Paula Gil

Filha de pai ribatejano e de mãe alentejana, Paula Gil nasceu em Tomar. Mas desde muito tenra idade, com apenas um ano, veio viver para o Porto, onde o seu pai viria “a integrar a primeira equipa de monitores do Centro de Formação Profissional do Porto, que era então o Centro nº 2 do país”, e onde ainda reside.

A atual diretora do Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado (CFPIC) trabalha com a formação desde que se conhece, tendo assumido várias funções, sempre dentro do IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, I. P..

Numa primeira fase, começou como formadora externa, tendo entrado, depois, para os quadros do IEFP como técnica de controlo. Mais tarde, saiu dos programas operacionais do Fundo Social Europeu e foi para o Centro de Formação Profissional do Porto como coordenadora de formação. Entretanto, foi nomeada coordenadora do Núcleo de Formação Profissional da Delegação Regional do Norte. Em setembro de 2020, surgiu o convite para dirigir o CFPIC, do qual já era presidente do conselho de administração há ano.

Licenciada em Engenharia Metalúrgica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Paula Gil encontra-se a cumprir um mandato de três anos enquanto diretora do CFPIC. E fá-lo com “um orgulho muito grande”. Afinal, como confidenciou ao labor, “a formação profissional é, de facto, a paixão, a paixão da minha vida”.

Em entrevista ao labor, a nova diretora dá-se a conhecer e fala da mudança que pretende incutir neste Centro de Formação Profissional já com 55 anos de atividade 

Pelo que sabemos, a Paula Gil é uma defensora acérrima da formação profissional…

Desde que me lembro de existir, a formação foi sempre a minha vocação. Considero que a formação profissional é, de facto, o veículo mais importante para a capacitação das pessoas. E acredito verdadeiramente no seu propósito como criadora do desenvolvimento de competências, seja de que natureza for, seja de que área for.

Sente-se sozinha nessa convicção? Acha que a formação profissional é subvalorizada?

Sem dúvida. Creio que no país temos passado por diferentes períodos de vida da formação profissional. E quando foi criado o IEFP [- Instituto do Emprego e Formação Profissional, I.P.],nos primórdios da formação profissional em Portugal, ela era, de facto, muito valorizada.

Através dela foi possível, realmente, formar muita gente em áreas que têm hoje uma relevância para o país. E os nossos centros de formação, os primeiros, tinham um carisma marcadamente prático e visavam efetivamente formar pessoas em áreas importantíssimas como a serralharia, a carpintaria, a mecânica, etc..

Tínhamos jovens – e citando aqui o Porto, que foi o caso que conheci melhor – que vinham de todos os pontos do país, incluindo as ilhas, para aprender uma profissão. Era assim que se dizia. E aprendiam. A verdade é que aprendiam.

Eram cursos com alguma duração, cursos longos, em que era dado o ABC (até ao Z) de todas as profissões que os centros podiam dar. E era uma formação muito boa, de muito boa qualidade.

Depois, como tudo, acabou por haver um pouco a disseminação da formação profissional e a viragem para outras áreas. Houve o alargamento, a criação de vários centros de formação, de vários centros de formação setoriais como é o caso deste, do calçado. Fomos o primeiro centro de formação profissional a ser criado no país, com 55 anos de existência.

“Temos empresários [da indústria do calçado] excecionais, de uma dedicação extrema, que não baixam os braços”

Há quanto tempo está ligada ao CFPIC?

Há um ano e cinco meses. Primeiro como presidente do conselho de administração. Depois como diretora. Sou diretora desde o dia 9 de setembro de 2020.

Como tem corrido o desempenho deste cargo?

Tem corrido bem. Foi com total sentido de responsabilidade que assumi o cargo, num momento difícil que Portugal e a indústria do calçado atravessavam, porque a indústria do calçado já antes da pandemia se vinha confrontando com uma viragem de tendências, de hábitos de consumo, de questões de competitividade, de mercados. Já havia necessidade de enveredar por uma indústria mais “limpa”, mais virada para as questões da sustentabilidade, das tecnologias.

A pandemia veio trazer uma dificuldade acrescida que é a não necessidade de utilizar tanto calçado quando as pessoas estão confinadas em casa. E, portanto, com isso os decréscimos de produção, temos os atrasos nas cadeias de abastecimento das matérias-primas.

Mas a indústria do calçado é, como tenho dito sempre, uma indústria muito resiliente. Temos empresários excecionais, de uma dedicação extrema, que não baixam os braços.

E, portanto, conseguimos assistir a dois cenários distintos na sequência desta pandemia: a um conjunto de empresas que, efetivamente, viram a sua atividade muito diminuída e, portanto, com bastantes dificuldades. Mas também a outras que acabaram por beneficiar de algumas necessidades de afetação de mão de obra a Portugal, vinda de outros países, e que conseguiram manter-se com níveis muito aceitáveis de encomendas. E, pronto, penso que esse é o grande desafio que temos neste momento da indústria do calçado: conseguir conjugar todos estes sub-desafios, de que já falei, e manter a indústria viva e o nome do calçado português vivo por esse mundo fora.

Desde que é diretora do CFPIC, quais têm sido os principais desafios e dificuldades?

Estes foram cinco meses muito cheios. Porque houve que fazer uma remodelação muito grande daquilo que era o funcionamento do CFPIC. Sobretudo, uma remodelação ao nível da imagem. Porque, daquilo que me pude aperceber, o Centro tinha pouca visibilidade junto do mercado – vou dizer assim – quer aqui, em S. João da Madeira (SJM), quer em Felgueiras.

Portanto, houve necessidade de fazer alguma reformulação interna do próprio Centro. E quando digo interna é mesmo ao nível, enfim, da estrutura orgânica. E depois também a passagem da imagem para o exterior, que também se tentou melhorar a vários níveis, desde a identificação na fachada, que não existia.

Foi colocada a identificação do Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado na fachada do edifício. Aliás, prefiro a designação de Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado [à de Academia de Design e Calçado].

“A formação profissional não pode ser olhada como uma coisa de segunda”

Mas isso por algum motivo em particular?

Porque é aquilo que nós somos. Nós fomos criados através de um decreto, de um diploma legal, como Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado.

Não vou questionar o porquê da necessidade de se ter feito esta alteração a meio do percurso da vida do CFPIC. Porque, de facto, a Academia de Design e Calçado acaba por ser uma subestrutura do próprio Centro.

Aliás, uma das nossas principais funções é a promoção dos talentos. E nós temos muitos talentos que têm saído deste Centro. Alguns muito sonantes, como é o caso do Luís Onofre, que é talvez o nosso, como costumo dizer, principal embaixador. E não só. Temos mesmo, todos os anos, jovens e adultos muito dotados que veem os seus trabalhos premiados em vários concursos internacionais.

Mas não podemos esquecer que a função principal do Centro é fazer formação profissional. Para isso, é que nós existimos. E a formação profissional não pode ser olhada como uma coisa de segunda.

A formação profissional é algo que nós temos de ter o cuidado de nunca deixar de fazer ao longo da nossa vida. Todos nós.

Portanto, em seu entender, o CFPIC nunca pode deixar de existir como Centro de Formação Profissional.

Exatamente. Primeiro, porque, sendo nós uma estrutura do IEFP, temos uma obrigação como uma entidade pública de dar resposta às necessidades de formação ao abrigo das políticas públicas do próprio IEFP que são determinadas pelo Governo. Essa é a nossa primeira função, neste momento, muito importante.

Neste último ano, fizemos muita formação para empresas que tiveram de entrar em layoff, que viram os seus horários de trabalho reduzidos, que viram a sua atividade reduzida em grande escala. E, portanto, houve que minimizar de alguma forma os efeitos negativos que teve esta crise, dando formação às pessoas no posto de trabalho, a outras aqui no Centro.

Mas depois temos a formação dos ativos empregados, que em qualquer situação normal precisam de “fazer um refresh”, precisam de fazer uma atualização, uma reconversão.

Portanto, o CFPIC tem que se manter ativo e em funcionamento dando resposta àquilo que são as necessidades de cada momento, de cada empresa, dos desempregados, dos empregados, dos jovens. Enfim, de todos aqueles que são os nossos públicos alvo, dos formadores, etc..

Creio que houve nos últimos anos alguma falta de conhecimento daquilo que o Centro efetivamente pode fazer. E creio que se partiu do princípio que nós estávamos muito circunscritos a determinadas áreas e públicos alvo na formação. Essa imagem tentou-se desmistificar e dar a entender que podemos fazer muito mais.

Proximidade com as empresas, internacionalização e criação de motivação nos jovens para a indústria do calçado são os principais focos

Então, o primeiro desafio foi dar uma nova imagem do Centro.

Sim. Não foi um trabalho de um dia para o outro. Este trabalho começou a ser construído já enquanto presidente do conselho de administração, porque me ia apercebendo em vários fóruns em que participava, em vários jantares, em vários momentos, onde se juntavam pessoas ligadas ao calçado, que algumas delas desconheciam a atividade que o Centro desenvolvia. Outras achavam que, enfim, era muito oneroso, que nós fazíamos formação para as empresas, mas a custos muito elevados.

E, portanto, foi preciso desmontar um bocadinho toda esta falta de informação e ir chegando às empresas, através de visitas, e oferecendo os nossos serviços.

Ou seja, estão a sair para ir ao encontro das empresas?

Exatamente. É fundamental que estejamos do lado das empresas. Aliás, o principal objetivo que tenho para o Centro é a proximidade com as empresas, com o tecido empresarial. E proximidade essa no sentido de poder dar resposta àquilo que são as necessidades das empresas, sejam elas quais forem.

Se é num momento em que temos uma pandemia, é preciso dar uma ajuda de determinada natureza damos. Se é num momento em que a empresa percebe que precisa de mudar métodos e formas de trabalho nós também ajudamos.

Se é uma formação que a empresa quer fazer porque é obrigatória em termos de código de trabalho e está um bocadinho perdida e não sabe que formação pode fazer, nós ajudamos.

E depois temos a formação dos potenciais empregados da indústria do calçado, que são agora os desempregados. Nós temos um défice de mão de obra muito elevado na indústria do calçado.

75 Jovens de São Tomé e Príncipe estão a frequentar cursos no CFPIC

GN

Caberá, então, ao CFPIC formar pessoas para colmatar essa lacuna?     

Sim. Temos muita falta de profissionais qualificados na indústria do calçado. E, portanto, é o que nos compete fazer como Centro de Formação Profissional: qualificar pessoas desempregadas que possam vir a colmatar essa lacuna.

Aliás, outro dos nossos focos neste momento são os jovens. É preciso criar nos jovens uma motivação para aderir ao trabalho na indústria do calçado.

Não estou a dizer que é um trabalho fácil. Foi-se criando muito a ideia que há profissões de primeira e profissões de segunda. E esta é uma situação que é sentida pela maioria das indústrias, seja a construção civil, seja o ramo automóvel ou seja o que for. Há um certo estigma que se cria que as funções mais práticas, mais industriais, não são tão apelativas. E os jovens querem é ser técnicos de informática ou ter um conjunto de profissões de papel e lápis, que até são mais limpas.

Mas a verdade é que não é muitas vezes fácil encontrar emprego nessas profissões ditas de papel e lápis. E, efetivamente, nós verificamos que na indústria de uma forma transversal há muita necessidade de mão de obra e que se o profissional for bom, se dominar as novas tecnologias, se tiver visão e um conjunto de competências comportamentais e transversais que vão para além do domínio técnico da profissão, já é pago a peso de ouro.

Neste momento, demos início a um projeto muito ambicioso, muito desafiante e muito inovador.

Recebemos [recentemente] 75 jovens de São Tomé e Príncipe, com idades entre 16 e 21 anos, que já estão a frequentar cursos de aprendizagem no Centro, desde o dia 18 de janeiro: cursos de modelação de calçado, de fabrico manual de calçado, de técnico de manutenção de máquinas para a indústria do calçado, de eletrónica e automação, que é também uma área forte do Centro, e de administrativo.

Portanto, temos 75 rapazes e raparigas que esperamos que possam vir a dar alguma resposta a essa falta de mão de obra [sentida em Portugal].

É a primeira vez que recebem formandos de fora do país?

Não é a primeira vez. Mas com esta dimensão é. Há dois anos recebemos um grupo da Palestina, de empresários e trabalhadores de empresas dos curtumes que queriam vir também aprender as técnicas básicas do fabrico do calçado.

Temos tido pontualmente alguns intercâmbios. Este [de São Tomé e Príncipe] é talvez o projeto mais ambicioso, porque são jovens que vêm estudar connosco durante três anos em regime de internato e que vamos conseguir de alguma forma moldar.

O Centro assegura-lhes alojamento e alimentação?

Sim. Os jovens têm direito a apoios sociais no âmbito daquilo que está estipulado pelo Fundo Social Europeu, que incluem alojamento, alimentação, seguro de acidentes pessoais e uma pequena bolsa (bolsa de profissionalização mensal). E nesse âmbito foi feito um acordo com o Inatel de Santa Maria da Feira onde eles estão alojados.

Há naturalmente aqui o envolvimento de todas as entidades públicas dos dois concelhos [SJM e Santa Maria da Feira (SMF)]. Um apoio muito grande dos municípios, sobretudo do de SMF, até agora, que é onde eles estão neste momento a residir.

Temos, de facto, muita satisfação pelo que se conseguiu fazer. Tem havido por parte de todas as entidades que contactámos, a quem expomos e apresentámos este projeto, uma aceitação imediata de ajuda naquilo que pode ser a colaboração de cada um. Desde transporte para ir buscar os jovens ao aeroporto, transporte (na semana em que ainda foi possível fazer isso) para fazer visitas aqui [em SJM] de reconhecimento do concelho. O próprio Inatel tem sido ímpar no apoio que tem prestado.

Pediram colaboração à autarquia de S. João da Madeira?

Sim, que se disponibilizou para tudo aquilo que for necessário.

Esses jovens vão estudar apenas em SJM. Não vão para Felgueiras?

Felgueiras será um segundo passo. A previsão era que viessem mais 75 para Felgueiras. Mas, pronto, houve algum atraso, que é normal, no processamento dos vistos de estudo destes jovens e, portanto, a solução melhor que se encontrou face ao contexto atual foi receber agora aqui estes 75. E será – penso eu que a partir de julho – também muito esperada a vinda de outros 75 para Felgueiras.

Queremos proporcionar-lhes um futuro melhor. Depois, há também a possibilidade de formar jovens à nossa medida que possam – se for o desejo deles no final dos cursos – resolver parcialmente o problema que temos de falta de mão de obra jovem, qualificada, nas empresas do calçado.

Mas e se eles regressarem a São Tomé no fim dos cursos?

São Tomé não tem indústria de calçado. São Tomé tem artesanato, onde se integra também o calçado. Lá há jovens muito capazes, com muito jeito para o calçado. E artistas que fazem manualmente trabalhos excecionais. Daí a importância de nós apostarmos no fabrico manual de calçado. Esta é uma área que poderá ser depois desenvolvida na sua terra, no seu país. Mas pronto. Depois, caberá a eles decidir onde querem ficar. Nisso não podemos mandar nem queremos.

Há pouco falou em visitas a empresas. Quantas fizeram até ao momento?

Olhe, até dezembro tínhamos feito nove visitas. Entretanto, já foram feitas mais algumas.

Tanto aqui como em Felgueiras?

Sim.

E como tem sido a recetividade?

Tem sido muito boa. As empresas têm reagido muito bem a esta nova atividade do Centro. É para as empresas que nós fomos criados e é para elas que devemos trabalhar.

Secção de marroquinaria prevista ainda para este ano

O Centro também acabou por fechar portas devido à pandemia?  

Sim. O Centro viu-se obrigado, neste momento, a fechar portas também, porque é essa a determinação do Governo. Mas recuando ao ano passado, quando no dia 16 de março foram impostos o primeiro confinamento e a paragem das atividades letivas, nós parámos, como todos os outros pararam. Em Felgueiras até parámos uma semana antes por causa do surto. E imediatamente foi dada orientação interna para que tivéssemos de reiniciar o mais depressa possível com formação à distância.

Felizmente, o CFPIC tinha já muito trabalho feito do ponto de vista da conversão para o digital. Internamente, essa mudança já existia. Mas, claro, teve de se fazer um reajustamento.

Fomos talvez dos primeiros centros de formação a conseguir ter, passado um mês, no dia 18 de abril, toda a formação a decorrer à distância. Toda aquela que era possível naturalmente. Porque a formação prática de calçado não se pode fazer à distância nem nunca poderá.

Esse é o nosso desafio constante: a adaptação aos contextos, às mudanças. E essa adaptação passa também pelo aperfeiçoamento contínuo dos nossos profissionais, dos nossos formadores.

Temos de estar atualizados. E, nesse sentido, promovemos quer a formação interna dos nossos profissionais, quer as deslocações ao estrangeiro para feiras e outras iniciativas onde lhes seja permitido tomar contacto com aquilo que se faz lá fora, que se faz bem lá fora. E, ao mesmo tempo, também levar aquilo que se faz bem cá dentro.

Sim, porque nós também fazemos muita coisa bem.  É essa a ideia que tenho tentado passar aos profissionais, aos meus funcionários todos: a de que nós devemos ter orgulho na história do Centro.

O Centro tem uma história muito rica e muito importante. E temos de nos orgulhar de termos já formado muitos profissionais de excelência.  Aliás, é isso que queremos continuar a fazer.

A internacionalização é também fundamental. Não podemos estar fechados dentro de portas. Temos de aprender com os outros países o que se faz lá fora e tentar reproduzir aqui. E como disse também levar lá para fora o que fazemos bem. Esse será outro objetivo da nossa atuação.

Sabemos que têm o propósito de criar uma secção de marroquinaria. Quando é que avançam com a sua concretização?

Temos instalações muito bem apetrechadas, quer do ponto de vista técnico, quer nas áreas do calçado, quer nas áreas da eletrónica, onde somos também muito reconhecidos. E temos uma secção fabril, quer aqui, quer em Felgueiras, que é uma autêntica fábrica de calçado. Portanto, temos todas estas condições para poder dar esta colaboração às empresas do calçado.

Esperamos agora também conseguir ampliar para uma secção de marroquinaria. Já era para ser no ano passado. Não pôde ser. Mas este ano contamos que já possamos fazer aqui isso.

CFPIC fez protótipos de calçado de bebé para a Cortadoria Nacional de Pêlo

Quais são os vossos principais parceiros? A APICCAPS é um deles?

A APICCAPS [- Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos] é a associação que outorga o protocolo de criação do Centro. Portanto, sim, é um dos nossos parceiros. É o nosso primeiro ponto de ligação com as empresas do calçado. Mas não só, porque há empresas que não são associadas da APICCAPS e com as quais trabalhamos também.

Também trabalhamos muito com a APIC – Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes, com quem temos um projeto muito interessante também do Fundo Social Europeu: “Leather In Design”. No âmbito deste projeto, em termos muito básicos, fazemos a criação de um conjunto de protótipos de calçado e marroquinaria e malas utilizando as peles que nos são cedidas pela APIC.

Quando digo nós, são os nossos formandos dos cursos de design de calçado que criam, naturalmente com a colaboração dos formadores, protótipos sempre com as peles das últimas tendências. Com o couro da última tendência.

Depois fazemos a criação de um “book” próprio desses trabalhos feitos pelos formandos. Para além disso, também fazemos questão de, depois, expor os trabalhos e de os levar às feiras internacionais, quer àGaleria de Düsseldorfquer à Lineapelle, onde estivemos ainda em setembro do ano passado em Milão. Levamos sempre connosco um ou dois formandos e os trabalhos deles.

“Leather In Design” é um projeto muito interessante, um desafio interessantíssimo para os jovens, que sentem que, de facto, estão a produzir algo que é atual, que tem valor e que vai servir para divulgar o seu próprio trabalho.

É um projeto do qual gostamos muito, mas não é o único. Tivemos recentemente também (embora não possa avançar muito sobre o assunto) uma colaboração com a Cortadoria [Nacional] de Pêlo, que tem um projeto interessantíssimo de aproveitamento da pele do coelho de onde é tirado o pêlo para os chapéus de feltro.

Eles lançaram-nos um desafio interessantíssimo que foi o de conceber protótipos de calçado de bebé com as ditas peles. E nós fizemos coisas lindíssimas

O contacto veio através da APIC, dado que se tratava de pele e é um projeto inovador. Foi um projeto que nos deu muita satisfação fazer!

Outra solicitação veio do Centro de Emprego de Arganil:pediram-nos para fazer calçado para dar a idosos. Então, fizemos o protótipo e depois enviámos os moldes para eles poderem fabricar lá em formação têxtil, porque não têm calçado. Gostaram tanto que até já nos pediram para as formadoras virem ter formação de calçado aqui.

Tudo o que são projetos diferentes fazemos questão de participar neles, porque acho que isso é o que traz efetivamente vida ao Centro. E a colaboração e a cooperação são fundamentais entre entidades.

Os nossos parceiros? Diria que os nossos parceiros são todos os que quiserem trabalhar connosco. Temos procurado estabelecer parcerias quer junto de universidades (aquelas que se situam mais perto e não só), quer junto dos próprios municípios que também vão dando alguma indicação de projetos ligados a esta área. Procuramos também promover exposições dos trabalhos dos formandos em várias instituições. Por exemplo, estamos agora a procurar que esta próxima que vai ser feita [no âmbito do “Leather In Design”] seja exposta no Museu do Calçado.

O que salienta destes seus cinco meses à frente da direção do CFPIC? 

Todo este trabalho que tem sido feito e já com algum feedback positivo desta mudança. E é esse sentimento de que estamos a ser úteis, de que efetivamente como serviço público estamos a fazer aquilo que nos compete fazer, que é apoiar aqueles que precisam do nosso trabalho. E depois é esta reinvenção constante daquilo que podem ser as nossas funções e a nossa criatividade e o nosso apoio em coisas tão diferentes como a construção dos protótipos e a ajuda aos idosos. Aceito sempre todos os desafios, desde que naturalmente estejam dentro da nossa área de competência.

GN

O Centro está, assim, de portas abertas a desafios?

Completamente! E temos todo o interesse em estabelecer novas parcerias e acolher novos programas, novos projetos, onde possamos ser úteis. E efetivamente dar aqui algo daquilo que nós sabemos fazer bem e partilhar isso com a comunidade.

O Centro de Formação Profissional não é só o diretor, é toda uma equipa. E eu tenho o maior orgulho da minha equipa.

 

Números e áreas de formação do CFPIC

– 2 Edifícios: 1 em S. João da Madeira e 1 em Felgueiras

– 561 Formandos atualmente em ações de formação: 198 em Cursos de Especialização Tecnológica; 99 em Cursos de Aprendizagem; 201 em Cursos de Formação Modular Certificada; 12 em Cursos de Educação e Formação de Adultos; 16 em Formação Pedagógica Inicial de Formadores; 35 em RVCC (Centro Qualifica)

– 32 Formadores internos

– Principais áreas de formação: indústria do calçado; eletrónica e automação; audiovisuais e produção dos media; comércio; redes e sistemas informáticos; contabilidade e secretariado

 

Tribunal dá razão a ex-formanda 

Passados seis anos desde que uma ex-formanda foi expulsa na sequência de uma carta aberta que, juntamente com outros quatro colegas de curso, assinou com críticas ao funcionamento da Academia de Design e Calçado, um acórdão do Tribunal veio dar razão à sua pretensão de – finalmente – lhe ser atribuído o certificado do curso Técnico Especialista de Design de Calçado que frequentou. Note-se que, aquando da expulsão em maio de 2014, apenas esta antiga aluna decidiu avançar com um processo judicial contra a decisão tomada pela direção da altura.

Paula Gil não acompanhou este processo, porque “não estava cá sequer”. Mas mal teve conhecimento deste acórdão solicitou, como garantiu ao labor, “que efetivamente fosse confirmada a presença da formanda na formação, a existência de registos de que, de facto, ela esteve em formação e teve aproveitamento a todas as unidades de formação”.

Em consequência disso, conforme prosseguiu a atual diretora do Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado, “[a ex-formanda] tem naturalmente direito a ter o certificado, que aliás já lhe foi enviado”. Até ao momento, “não tivemos qualquer feedback da formanda, mas este processo está concluído”, assegurou ainda.

Relativamente aos outros jovens que estariam na mesma situação, “teremos de ver qual é a forma legal de responder à sua situação”. “Se nos for colocada essa questão iremos resolver de acordo com aquilo que é correto. Não temos qualquer problema em se tiver havido um erro do Centro que ele seja desfeito e corrigido e que seja dada razão a quem a tem”, deixou claro Paula Gil.

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