Quando “temos muitas mais perguntas sobre as quais ainda não temos respostas”, considerou Alexandre Quintanilha 

Tal como queria, Alexandre Quintanilha criou mais dúvidas do que certezas durante a sua intervenção como convidado da última conferência “Pensar Futuro”, dedicada ao tema ambiente, realizada no sábado passado através de videoconferência.

O autor, investigador, coordenador de vários trabalhos nas áreas do ambiente e deputado à Assembleia da República admitiu que o papel que gosta de ter é “um pouco de provocador da imaginação e da curiosidade de todos nós”. No final da sessão “quero que saiam com mais dúvidas do que certezas” porque “as certezas são muito perigosas” quando “temos muitas mais perguntas sobre as quais ainda não temos respostas”, considerou Alexandre Quintanilha, dando sete exemplos recentes que fascinam e inquietam a espécie humana.

A saber, um bebé que nasceu depois da morte cerebral da mãe. A mulher esteve ligada a um surporte de vida até o bebé ficar formado e ficou em condições de salvar a vida a mais pessoas através da doação dos seus órgãos; uma criança que nasce com material genético de três pessoas diferentes. Há mitocôndrias com doenças graves e até mortais herdadas apenas da parte da mãe, sendo possível ir buscar esse material genético a uma terceira mulher. O que tem gerado uma enorme confusão sobre a inscrição dos pais no cartão de identidade; uma mulher tetraplégica que colocou um chip no cérebro que está ligado ao computador e a um robot. Num vídeo disponível no youtube é possível ver que ela dá ordens ao computador através do pensamento que por sua vez as transmite ao robot que vai buscar e levar até à sua boca uma chávena de chá; a possibilidade de editar ADN que permite corrigir mutações que possam dar origem a doenças graves graças à descoberta das cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna que foram distinguidas com o Prémio Nobel da Química; a possibilidade de fazer carne no laboratório (agricultura celular) e de produzir leite materno através de células mamárias; a jovem que foi excluída dos jogos mundiais na Alemanha por ser sicamente uma mulher, mas ter a constituição genética de um homem; e o acesso a publicações de 70 mil pessoas que permitiram perceber através de um determinado número de gostos como é que responderiam a determinadas questões.

“A natureza não é vingativa, é totalmente indiferente. Ela evolui à sua própria velocidade” 

Como se os exemplos anteriores não tivessem sido surpreendentes, o investigador fez questão de surpreender ainda mais o seu público. “A maioria não tem noção que quase 70% das células não são humanas, mas de vários tipos de organismos que vivem no nosso corpo, 90% da informação genética também não é humana e que 99,9% das espécies já desapareceram”. Para além dos exemplos anteriores, Alexandre Quintanilha mencionou outros que demonstram o impacto do conhecimento na medicina como os antibióticos, a reprodução medicamente assistida, a vacinação, os métodos contracetivos, os transplantes, etc. Todos eles são geradores de “grande discussão” porque “ao ir contra a natureza parece que estamos a infringir qual- quer coisa de sagrado”. Só que, “a natureza não é vingativa, é totalmente indiferente. Ela está-se nas tintas para aquilo que somos ou que existe. Ela evolui à sua própria velocidade” e a prova disso está em acontecimentos naturais, constatou o investigador. Uma das mostras da evolução da terra são as alterações climáticas cujos desenvolvimentos mais recentes em todo o mundo podem estar relacionados com o que é provavelmente o início do antropoceno que é o período mais recente na história do planeta Terra. Um período em que as decisões e as ações em relação às energias alternativas, a evolução da demografia a e o clima vão ser decisivas.

“A função principal do conhecimento é transformar espelhos em janelas” 

Como forma de aprofundar os assuntos abordados ao longo da sessão, Alexandre Quintanilha deixou as seguintes sugestões de leitura: Rathenau Institut – múltiplos relatórios; How to be Good, John Harris, Oxford U. Press (2016); Beyond Human Nature, Jesse J. Prinz, W. W. Norton & Company (2012); The Uninhabitable Earth, A Story of the Future, David Wallace- Wells, Allen Lane (2019) e Natural, the Seductive Myth of Nature ́s Goodness, Alan Levinovitz, Pro le Books (2020).

“A viagem da descoberta não se limita a encontrar novas paisagens, mas também a ver com novos olhos”, de Marcel Prust, 1922, e “a função principal do conhecimento é transformar espelhos em janelas”, de Sydney J. Harris, 1986, foram as frases com que o investigador terminou a sua intervenção, dando um especial enfâse à última. Por norma os espelhos refletem apenas aquilo que está à sua frente assim como as pessoas que têm todas as certezas porque não conseguem ver as questões que continuam sem resposta. “O conhecimento tem a vantagem de estilhaçar esses espelhos que só nos permitiam ver a nós próprios e criar janelas para vermos novas paisagens que estavam escurecidas”, concluiu Alexandre Quintanilha.

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