Maria Rosa Ribeiro faz parte dos últimos 75 guardas de passagem de nível do país. Trabalha na Estação de S. João da Madeira 

Em toda a rede ferroviária estão atualmente em funções 75 guardas de passagem de nível (GPN), 48 dos quais a trabalhar na Linha do Vale do Vouga e cinco na Estação de S. João da Madeira.

O número total de GPN em Portugal já chegou a ser mais de um milhar. Só em 1999, segundo adiantou a Infraestruturas de Portugal ao labor, existiam 837 guardas, sendo que 819 eram mulheres e 19 eram homens.

Com o desenvolvimento dos investimentos na modernização da Rede Ferroviária Nacional, progressivamente, serão automatizadas ou mesmo suprimidas as passagens de nível, tendo como objetivo o reforço da segurança do sistema ferroviário e também das condições de atravessamento rodoviário e pedonal.

Aos colaboradores que ainda “vestem a pele” de GPN será oferecida a oportunidade de reconversão de funções e dada a formação adequada para que possam a integrar numa das diversas áreas de atividade da empresa. Alguns deles, a maioria na casa dos 20 anos, foram recrutados há cerca de um ano e vieram juntar-se às “velhas guardas”. Tanto uns como outros serão os últimos a desempenhar esta função no país.

Para trás, fica toda uma história de homens e mulheres que se dedicaram de alma e coração a esta profissão com fim à vista. Esta categoria profissional não demorará muito tempo até ser extinta. É uma questão de “três, quatro anos”.

“Quando isto acabar vou para casa. Faltam-me três anos para ir para a reforma”

A nossa reportagem foi ao encontro de Maria Rosa Ribeiro, de 63 anos, na Estação de S. João da Madeira. Natural de Baião, reside em Rio Tinto e é guarda de passagem de nível desde sempre, cuidando diariamente da segurança de pessoas e bens.

Já lá vão 37 anos desde que “o meu tio pediu para vir para aqui [para a empresa] trabalhar” e a verdade é que não se vê a fazer outra coisa. Como praticamente “toda a minha família trabalhou sempre no caminho de ferro”, Maria Rosa Ribeiro limitou-se a “seguir o trilho” do “avô, pai, irmão, tios e cunhado” e não se arrepende de o ter feito.  “Quando isto acabar vou para casa. Faltam-me três anos para ir para a reforma”, contou ao nosso jornal.

Começou por ser GPN em Recarei-Sobreira (concelho de Paredes), na Linha do Douro. Também passou pela Madalena (Vila Nova de Gaia). Depois, Granja e Esmoriz. E agora está em S. João da Madeira (SJM) há já oito anos. Nesta estação ferroviária situada nas imediações das Piscinas Municipais trabalha com mais quatro colegas.

Maria Rosa Ribeiro confidenciou ao labor que antes de vir para SJM ficou “apreensiva, porque não conhecia a terra”. Mas agora não pensa assim. Agora, já está familiarizada com a cidade, as pessoas, e até ocupa parte do tempo livre a plantar couves junto à linha de comboio, o que chamou a atenção da nossa reportagem.

Também quando não tem o que fazer entretém-se a ouvir rádio e com o telemóvel ou, então, vai falar com pessoas amigas que foi conhecendo durante estes oito anos.

“Às vezes, íamos para algumas passagens de nível que não tinham água, luz nem casa de banho”

Desde que chegou a S. João da Madeira que as condições de trabalho são melhores: “Antes não tínhamos tantas condições como temos agora. Às vezes, íamos para algumas passagens de nível que não tinham água, luz nem casa de banho”.

Hoje já não é assim. No caso das GPN que estão em SJM, têm isso tudo e até “instalações para dormirmos cá quando não dá para ir para casa”. É o que, aliás, Maria Rosa Ribeiro tem feito ultimamente, porque o marido tem problemas de saúde e “eu não quero arriscar com toda esta situação da Covid”.

Ao longo destas quase quatro décadas, foram poucos os “sustos” que apanhou e os acidentes ferroviários que testemunhou. Também não foram muitos aqueles que não acataram as suas indicações. Volta e meia, lá há um ou outro impaciente que “me diz que o comboio ainda está em Espinho ou Oliveira de Azeméis e que eu já estou a fechar”. Mas nada que a deixe verdadeiramente aborrecida.

Maria Rosa Ribeiro tem duas filhas e dois netos. Até ver nenhum deles quer trabalhar nos comboios, o que, claro, respeita. Mas o seu olhar não esconde uma pontinha de emoção quando o assunto são precisamente os comboios.

“Estou emocionada, porque é uma vida. Deixamos marido, filhos, deixamos tudo para estar aqui. Não temos Natal, Ano Novo, Páscoa. Não temos nada”, respondeu ao labor quando questionada sobre o que sentia a poucos anos de se reformar.

Maria Rosa Ribeiro faz parte dos últimos guardiões da segurança da estrada e do próprio comboio do país, que nos habituamos a ver erguendo uma bandeira vermelha enrolada.

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