Como é que surge a Shaolin Si?

Quando fui estudar para o Porto já tinha uma bagagem significativa em termos de artes marciais e desportos de combate e ingressei na Associação Nacional de Artes Marciais Chinesas do Porto (ANAMCP), que na altura era uma das maiores associações desportivas do país na modalidade. A ANAMCP tinha uma série de núcleos e uma implantação muito forte na zona Norte do país, inclusive em S. João da Madeira, mas acabamos por nos dissociar. Tínhamos ideias muito distintas sobre aquilo que era o desenvolvimento associativo e a prática desportiva e cada um seguiu o seu caminho. Vim para S. João da Madeira e comecei a pensar o que fazer com os núcleos que estavam cá e a primeira opção foi dirigir-me a uma instituição local. Como não achei a receção satisfatória fundei a Shaolin Si, que arrancou com seis núcleos, dois de S. João da Madeira, dois de Espinho e dois de Vila Nova de Gaia.

E qual é o balanço que faz destes 25 anos?

Em termos desportivos é positivo. Acho que é uma das associações com o palmarés desportivo internacional mais acentuado e isso é muito importante para nós e fazia parte dos objetivos definidos à data da fundação. Como clube queríamos posicionarmo-nos onde estamos, como uma das associações que obtém mais resultados, quer a nível nacional como internacional, que lidera a componente desportiva.

Nas outras componentes é sabido que ainda nos deparámos com alguns problemas em termos logísticos, como condições de treino, processos de financiamento, entre outros.

Ao longo destes 25 anos houve uma aposta na transformação da associação, que era uma entidade que trabalhava essencialmente com o setor privado para uma que tem parcerias públicas e que hoje lhe permite ultrapassar algumas contrariedades de forma mais confortável.

“Como não achei a receção satisfatória fundei a Shaolin Si”

Ao longo destas duas décadas e meia a Shaolin Si já somou dezenas de títulos. Quando a coletividade foi fundada alguma vez pensou que 25 anos depois poderia estar neste nível em termos desportivos?

Era um objetivo. O plano original foi definido para 20 anos e esses foram condicionados por um projeto com diretrizes específicas e que conduziram a muitas coisas, como a parceria com a autarquia e a elaboração de determinadas iniciativas na cidade. Há uma data de ações que, ao longo do tempo, foram desenvolvidas pela Shaolin Si e durante esse período há muita coisa que foi alcançada e o palmarés desportivo, que foi planeado, foi uma delas. Desde início que pretendíamos ter atletas que se posicionassem no topo mundial, europeu e nacional.

E em termos logísticos o percurso da coletividade está dentro do que seria expectável?

Não, está muito longe.

Acha que deveria ser mais autossuficiente?

Não é uma questão de autossuficiência. Uma coisa que foi conquistada na parceria com a Câmara Municipal, embora não de forma ideal, foi alguma autossuficiência em termos de utilização de instalações, que é muito importante para o treino de atletas, particularmente aqueles que estão inseridos nas seleções nacionais ou na alta competição.

Então, neste momento, o que seria ideal para a Shaolin Si em termos logísticos?

É só olhar para aquilo que são as áreas de competição. Nós temos de replicar nos locais de treino os espaços de competição. Se não for assim os atletas não treinam nas condições em que vão competir e isso é prejudicial. Apesar do nosso palmarés, temos a certeza que os resultados poderiam ser outros e mais consistentes se tivéssemos as condições adequadas. O que se passa connosco é o mesmo que pedir a uma equipa de futebol para treinar num campo de terra batida com marcos de pedra a definir as balizas. Essa tem sido a nossa luta. Lutar para que haja respeito e igualdade de oportunidades para a prática das diversas modalidades desportivas.

“Lutar para que haja respeito e igualdade de oportunidades para a prática das diversas modalidades desportivas”

Mas isso é um problema geral, não apenas local.

Correto, mas é um mal geral que algumas modalidades já conseguiram ultrapassar, como por exemplo a canoagem. No caso das Artes Marciais Chinesas, não existe um Centro de Alto Rendimento, um Centro de Estágios ou sequer espaços adequados. No caso particular da Shaolin Si, estou otimista na resolução deste problema a médio prazo. Aliás, acho que ao fim de 25 anos já merecemos.

Considera que ao longo deste tempo tenha ficado alguma coisa por fazer?

Há muitas. Sendo uma instituição temos de garantir a sua continuidade através das camadas jovens, mas temos muitas dificuldades nesse âmbito. Há, por exemplo, atividades que têm oportunidade de divulgação e interação com o espaço escolar, enquanto outras estão, de certa forma, marginalizadas. A igualdade de oportunidades não passa apenas pelas instalações, mas também pela exposição da modalidade àquilo que são os seus recursos humanos.

Essas têm sido as principais dificuldades ao longo destes 25 anos?

Sem dúvida. As nossas principais dificuldades são de natureza logística e de estabelecimento de igualdade de oportunidades na prática desportiva.

Se essa igualdade existisse o patamar desportivo em que hoje a Shaolin Si se encontra seria diferente?

Seria completamente diferente. O último mundial, por exemplo, não contou com a presença de atletas da Shaolin Si, mas tenho a certeza que se o patamar fosse outro não só teríamos elementos em prova como teríamos capacidade para almejar a conquista de medalhas de forma consistente.

Não é à toa a correlação que existe entre as principais economias do mundo e as principais potências desportivas.

Há algum momento que tenha ficado marcado na memória?

Os títulos mundiais. Isso é algo que fica sempre marcado pois são produto do esforço dos atletas, treinadores, dirigentes, instituição e dos próprios pais, até porque o financiamento é praticamente todo ele feito do nosso bolso.

São momentos muito emocionantes e extremamente importantes.

São esses títulos que o deixam mais orgulhoso deste percurso de 25 anos?

Há muito mais para além disso. Os títulos desportivos são importantes e deixam-me orgulhoso e com o sentido de dever cumprido, mas há valores mais importantes, como poder contar com o testemunho e colaboração de atletas que estão cá desde o início da Shaolin Si. Isso é mais enriquecedor que os títulos. Sob o ponto de vista social, pessoal e emocional é mais importante sentir que andamos aqui há 25 anos e que não perdemos as pessoas, que elas ficam e que isto também passa a ser a casa delas.

Em 25 anos de atividade devem ter sido muitas as adversidades. Tem sido fácil manter a coletividade?

As adversidades são muitas e extremas. Como não somos um desporto favorecido, apesar de ter utilidade pública desportiva e ter reconhecimento olímpico e de todas as instituições, o facto é que não há reconhecimento geral, do grande público, que é o mais importante, porque não temos a oportunidade para chegar lá. É essa questão da desigualdade, tanto ao nível logístico como em termos de oportunidade no acesso ao grande público e às massas, que nos dói e que dificulta, por exemplo, a criação de equipas e isso é uma das coisas que os treinadores sentem. Como não temos massa critica, basta um elemento desistir para a equipa deixar de funcionar e todo o trabalho que foi desenvolvido ser perdido.

“As nossas principais dificuldades são de natureza logística e de estabelecimento de igualdade de oportunidades na prática desportiva”

Uma das adversidades com que a coletividade se deparou recentemente foi a pandemia. Como é que as Shaolin Sí tem procurado ultrapassar este obstáculo?

Para nós não foi muito difícil porque tem havido alguma compreensão por parte da Câmara Municipal. Além disso, temos conseguido integrar-nos dentro da lei e daquilo que são as diretrizes da DGS, e aceder aos recursos que necessitamos para desenvolver a atividade dentro do que é possível e do bom senso federativo e da associação.

Quando foram publicadas as diretrizes para a suspensão da atividade nós já o tínhamos feito porque entendemos que não era seguro. Fomos dos primeiros a fazê-lo, como se calhar também o fomos no que diz respeito a encontrar enquadramento de prática segura para os atletas que são nucleares.

Mas as limitações e condicionantes trouxeram consequências à Shaolin Si?

Teve um impacto na ordem dos 70%. O impacto que vamos ter naquilo que é o contrato programa vai ter uma expressão negativa muito significativa no suporte logístico à atividade. Quem está no mundo do desporto conhece a ginástica que se faz dentro dos clubes e associações em termos contabilísticos para funcionarem e nós dependemos desse dinheiro, essencialmente, para termos suporte ao nível do que são equipamentos e capacidade e mobilidade para participar em competições.

Como olha para o futuro?

Já andamos aqui há 25 anos pelo que já é altura de algumas coisas se efetivarem e, por isso, acredito que o futuro será risonho. Neste momento temos um problema de saúde pública que vai mudar a forma como o mundo se vai reger nos próximos tempos. Não vai terminar no próximo ano com a vacinação e vai criar limitações de vária ordem, como, por exemplo, na regulamentação da prática desportiva. Apesar de tudo, não vejo as coisas sem ser de uma forma risonha. Conseguimos chegar aos 25 anos de forma relativamente satisfatória, pelo menos no aspeto desportivo, e não acredito que nesse campo iremos regredir, pelo contrário. Nos outros aspetos acabaremos por chegar lá e criar o equilíbrio que é fundamental. Acho que isso será possível a curto prazo.

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