Há um ano – a 17 de março de 2020 -, S. João da Madeira registava o seu primeiro caso de Covid-19. Desde então, mais de 2.200 sanjoanenses tiveram a doença que afetou mais de 800.000 portugueses e muitos milhões de pessoas a nível mundial. A maioria recuperou, mas isso não apaga o impacto tremendo das inúmeras vidas perdidas, do sofrimento e das sequelas para a saúde física e psicológica de tantos infetados e das respetivas famílias, para não falar das consequências para a economia, que se traduzem numa quebra acentuada de rendimentos e na perda de emprego.

Haveremos de vencer este terramoto que se abateu sobre a humanidade e encontraremos o momento certo para honrar, devidamente, todos os que foram vítimas desta terrível pandemia. Mas, desde já, há uma homenagem simples, embora decisiva, que todos podemos prestar no nosso dia-a-dia: não descurar nos cuidados que nos permitiram sair do topo dos países com mais casos por 100.000 habitantes para nos colocarmos entre aqueles que têm melhor desempenho na União Europeia.

Apesar da redução do número de casos, não é tempo para baixar a guarda. O que aconteceu nos últimos meses de 2020, e no início de 2021, mostra que, de repente, se pode deitar a perder tudo o que se conquistou. Temos que continuar a ser resilientes e determinados no cumprimento das regras, para evitar recaídas e retrocessos.

O momento crítico que vivemos evidencia para todos, de forma impressiva e tocante, a importância da ciência e do estado social. Na verdade, sem os recursos científicos de que dispomos, ao nível da medicina e da farmacologia e sem a cobertura da rede social que ampara as eventualidades económicas da crise, a situação que atravessamos seria muito mais devastadora. Por isso, o investimento na ciência e no fortalecimento da solidariedade constitui um imperativo político indeclinável que, pela sua manifesta relevância, não posso deixar de assinalar neste momento.

O percurso desta crise foi feito com pessoas e instituições. Recordo, assim, a coragem dos bombeiros João Lima e Fábio Pinho no preciso instante em que, nas primícias da pandemia, e no quadro de incerteza e de tensão que então vivíamos, se prepararam, equiparam e executaram o primeiro transporte de um doente confirmado de Covid-19. Tenho presentes os sucessivos contactos com o resiliente Vitor Gonçalves, diretor técnico da Santa Casa da Misericórdia, e o dia em que decidimos instalar, urgentemente, a primeira de duas zonas de evacuação de pessoas (localizada no pavilhão da Escola João da Silva Correia). Lembro-me, igualmente, das dezenas de conversas que mantive com a Diretora da CERCI, Dulce Santos, e com o seu Presidente António Cunha, e do modo abnegado como geriram os casos de Covid-19 ocorridos na instituição. Evoco especialmente, sem olvidar todos os seus demais dirigentes e colaboradores, a ação singular de Rosa Santos e de Daniela Teixeira, funcionárias da CERCI que, com vista a assegurar a indispensável prestação de apoio a utentes do Lar Residencial daquela instituição, se dispuseram a viver um isolamento de 14 dias com tais utentes. Sublinho a energia e a entrega da equipa da ACAIS, dirigida por Patrícia Coelho, que assegurou a manutenção do apoio domiciliário a dezenas de idosos sem proteção familiar, proporcionando-lhes refeições, cuidados de higiene e atenção. Saliento a capacidade de adaptação da gestão das escolas, dos professores, educadores de infância e auxiliares educativos que abraçaram as exigências da escola digital e do ensino presencial em quadro de emergência. Agradeço às empresas, instituições e particulares que ofereceram à cidade bens e serviços (máscaras, viaturas, equipamentos de proteção, trabalho voluntário), demonstrando que nos momentos difíceis sabemos que o essencial é a união.

Subitamente, a realidade impôs-nos um realinhamento radical das prioridades. De supetão, encerrámos equipamentos, cancelámos atividades e mudámos o modo de funcionamento de inúmeras operações. Fizemo-lo logo a 11 de março de 2020, com vista a controlar, ao nível local, a propagação da doença. Na atividade camarária, a proteção civil, a saúde pública, a ação social e económica conquistaram centralidade. Sem que até então nada o fizesse prever, a Câmara Municipal viu-se, por exemplo, confrontada com o apelo de cidadãos que lhe solicitavam a ligação urgente com as autoridades de saúde, em virtude da demora no serviço de atendimento da Linha de Saúde 24. Todos os funcionários municipais, sem exceção, foram mobilizados para as tarefas de proteção civil. Assim, vimos técnicos de desporto a gerir as admissões no Mercado Municipal e a contactar telefonicamente idosos, um técnico de som da Casa da Criatividade a executar tarefas na célula municipal de rastreio epidemiológico, conjuntamente com pessoal do gabinete de comunicação, da divisão de educação, das obras particulares, da biblioteca, do turismo e dos museus municipais. Uma funcionária do Museu do Calçado foi mobilizada para exercer funções na ARS Norte, no Porto, como líder de uma equipa de rastreio. A nossa divisão de ação social entregou medicamentos, alimentos e refeições ao domicílio. A unidade de logística, em cooperação com as autoridades de saúde, desenhou e montou um centro de vacinação, também preparado pelo nosso departamento de informática. Tem sido, destarte, exemplar a forma como os funcionários municipais têm exercido, sem hesitar, funções muito diversas daquelas que normalmente lhes estão confiadas.

Decisivo na resposta municipal à crise foi o papel desempenhado pela Proteção Civil Municipal. Quando em outubro de 2019, colmatando uma brecha antiga do nosso sistema, designei o Comandante Normando Oliveira como Coordenador Municipal de Proteção Civil, estava longe de imaginar a importância dessa decisão. Testemunho o seu elevado sentido de missão, a sua prontidão permanente, a sua capacidade de liderança, o seu espírito de iniciativa e a sua entrega absoluta à cidade, agindo muito para além do que lhe é exigido. Testemunho, outrossim, o papel desempenhado por Joaquim Milheiro e Isabel Wallenstein que durante muitos anos carregaram nos seus ombros as tarefas municipais da proteção civil. Saliento o trabalho dos demais agentes da proteção civil do território, designadamente a ação eficaz da PSP. E há uma lição, neste âmbito, que agora se retira: o momento presente prova que é nosso dever preparar a comunidade para os mais diversos riscos, não sendo estes, como se está ver, meras ameaças teóricas. E esta tomada de consciência é muito importante.

Com a pandemia de Covid-19, uma instituição ganhou especial saliência qualitativa. A autoridade de saúde local está no centro da gestão da crise. O médico de saúde pública Pedro Ferreira – até janeiro de 2021 – e a médica de saúde pública Sofia Rocha lideram as operações. É importante que aqui fique registado, para memória futura, o extraordinário e relevante papel por ambos desempenhado. E não podemos esquecer o esforço hercúleo do pessoal de saúde, quer seja do nosso Centro de Saúde, ou do nosso Hospital. Menciono igualmente a ação determinante do diretor do ACeS, Miguel Portela. E, bem assim, o empenho do centro de testes do Centro Médico da Praça.

As repercussões da crise são fortes. No bem-estar geral de todos, na atividade do comércio local e das empresas, na educação, na atividade desportiva, na vida das IPSS e das instituições recreativas e culturais. Para a superação desta fase difícil, contamos agora com um fortíssimo aliado: a vacina. Por isso, foi em clima de esperança que abriu, na Sala dos Fornos da Oliva, a 22 de fevereiro deste ano, o Centro Municipal de Vacinação de S. João da Madeira: um lugar histórico da cidade que agora prepara o seu futuro.

Por fim, contamos com a força da solidariedade, pois só unidos venceremos.

Jorge M. R. Vultos Sequeira

Presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira

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