Alminhas

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Lá estão para quem quiser ver. Nas encruzilhadas dos caminhos, cravadas na pedra dos muros ou na parede de alguma casa velha.

As do Aido-Baixo vivem por ali desde o meu tempo de criança, incrustadas na casa da Ti Cezilia, junto aos da Rosaira.

Entre crases e metáteses, qualquer linguista encontraria ali num voar de arestas pano para mangas.

Agora as coordenadas do local estão mais definidas. As Alminhas situam-se entre duas ruas que não passam de dois becos, mas que foram honradas pela Junta com placas verdes e os nomes de rua das Flores e rua do Engenho. Uma grade de ferro negra da velhice guarda dentro um painel desbotado com labaredas de fogo e o Salvador a resgatar as alminhas, provavelmente para o Purgatório.

Recordo-me de espreitar em pequenita aquela imagem que sempre me aterrou, iluminada pela luz débil de uma lamparina de azeite. Lá dentro via pequenas moedas quase todas negras, e raramente uma moeda a reluzir ao branco. Alguém de fora… ou promessa…

Impressionava-me ver as alminhas ali presas e preferia imaginá-las, ainda que desaparecidas, no meio dos campos, a lavrar, a semear ou a colher, nos montes a cortar tojo arenal, a fazer a cama ao gado, a mungir as vacas ou a pôr a canga aos bois.

Já que tinham morrido, e se por ali andavam no imaginário do povo e das crianças, melhor fora soltá-las ao vento, ao sol e à chuva, como em vida. Ainda por cima, ardendo no meio das chamas com gestos de terror e angústia…!

Com o esboroar da casa também se foram degradando as Alminhas, ao ponto de quase não se dar por elas. Mas com os anos veio também a renovação, e assim, a par da reconstrução das casas e dos muros se activaram as Alminhas. As grades foram pintadas de branco e o painel desapareceu. Lá dentro, à noite, brilha a frouxa luz de uma lâmpada eléctrica.

Cresceu à sua volta uma roseira que trepou pela parede acima e emoldurou a cercadura das Alminhas. É uma roseira que dá rosas vermelhas e já está em flor. Quando por lá passo, imagino em cada pétala, em cada folha ou em cada espinho as alminhas de todos os que por ali viveram, resgatadas à terra pela memória e saudade. E se dependesse de mim, apagava a lâmpada e deixava apenas a luz do sol e da lua.

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