Em entrevista ao labor, Paulo Coimbra Amado, o número um da candidatura “Uma Banda para Todos”, mostrou-se decidido a “virar a página” da história da filarmónica de S. João da Madeira, não poupando críticas ao atual líder da direção 

 

O Paulo foi músico da Banda de Música de S. João da Madeira (BMSJM) até quando?

Até 7 de fevereiro de 2020, com efeito retroativo do dia 4.

Nessa altura foi dispensado?

Sim, por carta registada. Estive num ensaio no dia 7 de fevereiro de 2020. Mas supostamente já teria sido dispensado no dia 4. Devem ter-se esquecido de me informar antes.

E qual foi o motivo?

Não há um motivo invocado. Disseram: “a partir deste momento está dispensado da Escola de Música, da Orquestra e da Banda”.

Mas não suspeita qual foi a razão?

Suspeito. Fui dispensado depois de uma reunião que tive no dia 5 de fevereiro com a direção, os presidentes da assembleia-geral e do conselho fiscal e o maestro, em que lhes expus, entre outras coisas, a minha intenção de me candidatar à presidência da direção.

É, aliás, importante que seja dito como surge a minha candidatura. Ela surge porque o senhor presidente da direção, nos 10 anos em que estive ligado à instituição, disse reiterada e publicamente que estava na Banda porque na direção não havia mais ninguém, que o seu lugar estava à disposição, que era uma vida muito difícil porque ninguém queria colaborar.

Ainda no Concerto de Páscoa de 2019, se não estou em erro, apelou à entrada de novas pessoas para os órgãos sociais porque que era preciso sangue novo.

Depois, numa entrevista na rádio Sintonia Feirense em agosto de 2019, voltou a dizer que – e agora vou citá-lo textualmente – “lá me vou mantendo até aparecerem outras pessoas para gerirem a instituição. Isto dá um bocadinho de trabalho e ninguém quer trabalho”.

Para além disso, houve algumas decisões tomadas pela direção com as quais não me identifico e que entendo que prejudicam a Banda. E isto agravou-se nos últimos cinco anos, desde que saíram o falecido e saudoso senhor Jaime Oliveira, que era um dos diretores, e o senhor Mário Pinho. Agravou-se, sobretudo, desde a saída destes dois senhores.

“A Banda, neste momento, é pouco mais do que uma orquestra académica”

O Paulo passou a não se identificar com a direção?

Sim, foi isso. Em 2015, o presidente teve um comportamento para com os pais da Escola de Música (EM) que foi, no mínimo, indelicado e que redundou na saída de cerca de metade dos alunos.

Ora, metade dos alunos de uma EM é muito potencial músico que a Banda podia ter hoje e que não tem. Não só porque muitos desses meninos deixaram de estudar música, mas também porque os outros que foram para outros lados estudar de certeza que não voltarão para a BMSJM enquanto o atual presidente lá se mantiver.

Entretanto, em princípios de 2019, a gestão dos recursos humanos também levou a que saíssem vários professores e músicos. Na altura, a Banda sofreu uma queda brutal não só na quantidade de músicos, mas também na sua própria qualidade.

Saíram músicos antigos e também professores licenciados. Todos essenciais numa Banda, porque isto é quase como numa equipa de futebol. São precisos os mais velhos para ensinar os mais novos.

A Banda, neste momento, é pouco mais do que uma orquestra académica, segura, talvez, por uma dezena de músicos mais velhos.

Para uma festa é preciso contratar, pelo menos, 20 músicos de fora, o que financeiramente é dramático, porque esses músicos implicam encargos bastante altos. Aliás, isso vê-se nas contas.

Segundo as contas que foram indicadas no ano passado, relativamente a 2018 houve um prejuízo de mil e qualquer coisa euros e em 2019 de cerca de 3.000 euros.

Daí um dos vossos objetivos ser o reequilíbrio financeiro?

Sim. Não esquecendo que a BMSJM é financiada pela câmara. E o financiamento, se não me falha a memória, são 20 mil euros anuais.

Em nosso entender, a Banda com os recursos financeiros que tem e mais alguma coisa que tem de fazer para angariar dinheiro poderia, no mínimo, ter a situação equilibrada.

Então, acha deveria haver um maior número de músicos da casa, uma aposta maior na EM?

Claro! Mas infelizmente isso não acontece. Neste momento, a BMSJM é pouco mais do que uma orquestra académica, com 10 músicos talvez mais velhos, com experiência, que já estão lá há muito tempo e que ajudam.

Atenção que os meninos que lá estão são excelentes. São meninos de uma dedicação fantástica, que se levantam às quatro da manhã para irem para festas para longe. Mas, no fundo, é uma orquestra juvenil.

Mais de metade da Banda, neste momento, é composta por meninos de 18 anos para baixo, que, quando se tem de ir fazer uma festa de duas e três horas ao sol, no verão, não têm estofo físico para tal.

Querem mais e melhor para a Banda. É isso?

A nossa equipa quer que a BMSJM volte a ser uma Banda de gente alegre, que gosta de lá estar. Antes, era uma alegria ir aos ensaios. Agora não é assim. Sobretudo desde que saíram os senhores Mário e Jaime, foram sempre saindo músicos, músicos, músicos. Poucos entraram.

Neste momento, a BMSJM é conhecida porque tem um presidente que é autocrata, um presidente do “quero posso e mando”. E é uma banda que não paga a tempo e horas as suas responsabilidades.

Há vários músicos que sabemos que prestaram serviços e que ainda não receberam. E isso é mau, porque prejudica a imagem da Banda.

O Paulo quer, então, “virar a página”?

É isso que queremos: “virar a página”, queremos “uma Banda para todos”.

Mas querem “uma Banda Para Todos” porquê? Porque atualmente é só para alguns?

É. Posso dizer que hoje é uma Banda do atual presidente, que decide tudo à sua conveniência. É uma Banda que não é coerente.

E por isso nós queremos “uma Banda para todos”, onde não haja dois pesos e duas medidas. Além disso, queremos respeito de forma bilateral: a Banda tem de ser respeitada por quem dela faz parte, mas a Banda também tem de respeitar os seus compromissos.

Infelizmente, a BM, neste momento, não é conhecida por isso. A Banda há vários anos que se atrasa sistematicamente nos seus compromissos para com os músicos, para com os professores. Meses de atraso, quando existe um subsídio da câmara com essa finalidade.

Está a dizer que há professores que ainda estão sem receber?

Neste momento, não sei.  Não posso dizer, porque desde 2020 não estou ligado diretamente à Banda. Mas até à altura em que estive era conhecido de todos os professores que ali estavam que havia meses de atraso.

E a sua equipa quer acabar com esse tipo de situações?

É obvio que sim. A Banda recebe um subsídio da câmara para ajudar nesses encargos.

Então para onde irão os 20 mil euros da autarquia?

Pois, não sei.

Não sabe ou não quer falar?

Não sei. Porque não estou dentro das contas. Não temos acesso às contas bancárias. Se me deixarem ter acesso às contas bancárias, consigo saber.

“A recandidatura [de Adelino Calhau] é incongruente sendo de alguém que diz reiteradamente que quer sair”

Que acha da recandidatura do atual presidente, Adelino Calhau?

Está no seu pleno direito. Mas, para mim, a recandidatura é incongruente sendo de alguém que diz reiteradamente que quer sair. Ainda mais quando há uma equipa pluridisciplinar como a nossa que não tem nada que se possa. Somos uma equipa muito heterogénea na sua composição, mas homogénea no seu querer. Queremos procurar servir o melhor a Banda. Na nossa equipa, não vai haver uma pessoa que decide, mas várias cabeças a decidirem.

Somos pessoas de várias idades, homens e senhoras, de várias profissões, com várias experiências a nível associativo, quer de base mais local, quer de base nacional. É uma “Banda Para Todos” que quer mais e melhor. Desta forma, ganha a Banda e ganha a cidade.

Está confiante que vão ganhar?

Estou. Porque temos uma equipa de gente competente, gente que sabe o que faz. Apelo aos sócios, sobretudo aos mais antigos, para que ouçam a nossa razão, ouçam a razão da outra lista candidata e decidam em consciência o que é melhor para a Banda. Porque o que é importante aqui é a Banda. Não é o candidato à presidência.

Paulo Coimbra Amado

Paulo Coimbra Amado, de 52 anos, é o número um da candidatura “Uma Banda para Todos” que, no dia 1 de maio, concorre aos órgãos sociais da Banda de Música de S. João da Madeira (BMSJM) para o próximo biénio.

Bancário de profissão, o candidato é natural de Angola, cresceu em Pampilhosa do Botão (Mealhada) e reside na cidade sanjoanense há 23 anos.

A sua paixão pelas bandas filarmónicas vem desde muito novo. Paulo Coimbra Amado ainda andou na Banda da sua terra a aprender música, mas foi na BMSJM que concretizou o seu sonho de menino.

Está ligado à instituição mais antiga do concelho há cerca de 10 anos. Começou por ser aluno da Escola de Música. Entretanto, entrou para a Orquestra Académica e, depois, para a BMSJM. Tocou pela primeira vez como músico no Concerto de Primavera que foi feito no CEI a 11 de abril de 2015, precisamente no mesmo dia em que lançou agora a candidatura.

Neste momento, continua ligado à filarmónica de S. João da Madeira apenas como sócio.

 

Banda de Música vai a eleições dia 1 de maio 

A eleição dos órgãos sociais da Banda de Música de S. João da Madeira (BMSJM) para o biénio de 2021/2022 está marcada para o próximo dia 1 de maio. O ato eleitoral decorre na sede da BMSJM, situada no Auditório Municipal, na Rua de Macau, entre as 11h00 e as 19h00, podendo só participar os associados que tenham as suas quotas regularizadas até março de 2021.

Neste momento, só ainda são conhecidas duas candidaturas: a da “Uma Banda para Todos”, encabeçada por Paulo Coimbra Amado, e a liderada pelo atual presidente da direção Adelino Calhau.

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