“A Guerra Colonial é sempre um crime contra a humanidade”

Ser médico em tempos de guerra

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“Nada em especial” levou Adão Cruz a ser médico. Pese embora os factos de em catraio ter feito “muitas ´cirurgias´ em rãs, sapos, sardões…” e de ter sentido “qualquer propensão”, acredita que a escolha da profissão acabou por ser “mais ou menos aleatória”.
Adão Pinho da Cruz nasceu no lugar das Figueiras, freguesia de Castelões, concelho de Vale de Cambra, em 1937, é licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especializado em Cardiologia e sub-especializado em Ecocardiografia.
O primeiro doente que teve à sua inteira responsabilidade foi um vizinho da família na aldeia, de madrugada, com uma cólica renal. “Não podia ter corrido melhor”, recordou o médico. Assim como as “péssimas” e “inimagináveis” condições dos cuidados de saúde antes do 25 de Abril em Portugal. “Sei o que digo porque logo após a licenciatura fiz seis anos de Clínica Geral, em Vale de Cambra, três anos antes de ir para a Guiné e três anos depois de vir”.
A “dura e rica experiência” de Adão Cruz levou a que fosse convidado pela própria FNAM – Federação Nacional de Médicos a abrir o seu 11º Congresso sobre o Serviço Médico à Periferia, o qual nasceu depois do 25 de Abril, com uma conferência sobre a medicina antes
da revolução, estando a sua intervenção disponível no youtube.
“A vida é uma sucessão de acasos” o que leva a que seja “muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha”. Com a obrigação de cumprir o serviço militar, “não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel…”. “A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez irmão do neocolonialismo e do imperialismo”,
considerou Adão Cruz que foi alferes médico, durante 1966 e 1967, na Guerra da Guiné. “Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, mas ela ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitamos como vitória”, confessou, continuando: “sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de
coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana,
valeram 20 anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou”.

“A palavra hospital era desconhecida no mato”

“Estive sempre na linha da frente, sempre no mato, sobretudo no Leste e Norte da Guiné”. Onde praticou medicina de guerra, mas também prestou toda a espécie de assistência médica às populações. Os serviços médicos ora eram prestados “no terreno”, ora “numa minúscula enfermaria se é que podemos dar-lhe esse luxuoso nome. A palavra hospital era desconhecida no mato. Os casos mais graves, em combate ou não, eram transferidos de helicóptero para Bissau”, contou o médico que se recorda de todos quantos salvou, tratou
e morreram nas suas mãos.
Ao longo dos dois anos que prestou serviço militar, “foram muitos os momentos maus. Do ponto de vista pessoal, talvez o facto de o Estado Maior me obrigar, creio eu por vingança, já perto do fim da comissão, a ficar mais dois ou três meses no mato. Desobedeci a ordens do comando central, dando a companhia como inoperacional para uma arriscada emboscada noturna. De imediato, a companhia foi sujeita a uma inspeção, por elementos vindos de Bissau em helicóptero, um médico do hospital militar, o major chefe do Serviço de Saúde e o próprio comandante supremo Arnaldo Schultz. Valeu-me o facto de reconhecerem a minha razão, ainda que tenham ficado ressabiados. De outra forma iria parar à pildra. Consegui que a companhia fosse rendida a três meses do fim. Toda a gente chorou ao verem-me ficar…e eu também”, confidenciou Adão Cruz. Também foram “muitos” os momentos bons vividos em tempos de guerra. “Tenho histórias maravilhosas,
algumas publicadas, que constituem pérolas únicas na minha vida, mas não cabem aqui”. “Se fosse a contar as situações dramáticas, poéticas e humanas com que me deparei na guerra, não chegariam vários jornais labor”, constatou, francamente, o médico.

A morte de um grande amigo e o primeiro bebé que ajudou a nascer 

CANQUELIFÁ, LESTE DA GUINÉ, RELATIVAMENTE PERTO DA FRONTEIRA COM
A GUINÉ CONAKRY, 1966. ESTE RAPAZITO DE 12 ANOS PERCORRIA CERCA DE
20KM A PÉ, SOZINHO, PELO MEIO DO MATO, PARA VIR À MINHA CONSULTA.
TINHA UM FÍGADO DO TAMANHO DA BARRIGA. TRAZIA-ME SEMPRE NUMA
LATA MEIA DE LEITE.

Adão Cruz acabou por referir apenas duas situações extremas com as quais se deparou na guerra. “A morte do meu grande amigo e colega de quarto, crivado de balas, e o nome de
Adão Doutor, dado pela mãe ao primeiro bebé que ajudei a nascer. Quanto às condições, eram precárias como podem imaginar. Um pequena enfermaria do tamanho de um quarto e o chamado carro sanitário, onde tínhamos o mínimo de tudo o que era essencial”.
O convívio era com toda a gente, soldados, sargentos, oficiais, milícia nativa e toda a população, desde as crianças até aos velhos. “Vivíamos todos dentro de uma cerca de arame farpado. Uma espécie de família”, relembrou o médico cujos primeiros anos após o
regresso da guerra também não foram fáceis. “A morte do meu pai, ainda novo, foi muito amarga. Ele só pedia para estar vivo aquando do meu regresso, o que felizmente aconteceu. De resto, as vivências e recordações da guerra são tão profundamente marcantes que permanecem durante anos, quer em sonhos, quer nos nossos próprios
comportamentos”.

“Além da libertação da opressão à ditadura, foi a revolução das mentalidades”

Quando se deu o 25 de Abril, Adão Cruz estava no seu local de trabalho, no serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António. “O 25 de Abril, para além da libertação da opressão da ditadura, foi a revolução das mentalidades, a libertação das ideias aprisionadas e o amplo voo da liberdade pelos céus da esperança. Um dos tempos mais felizes que a vida nos proporcionou e uma promessa de futuro que encheu a alma a todos que entoaram no mais fundo do peito a Grândola Vila Morena. Uma canção e uma revolução com tal força que ecoaram em todos os cantos do mundo”, considerou o médico. “Infelizmente, a pequenez humana não demorou muito a destruir os pilares deste maravilhoso monumento democrático, e em pouco tempo a pomba democrática da paz e da liberdade foi perdendo as asas e foi tombando nos lamaçais da podridão”, lamentou Adão Cruz. “No entanto, mais de metade da humanidade ainda guarda dentro do peito o espírito do 25 de Abril, resistindo com as armas que lhe são próprias, o amor, o humanismo, a fraternidade e a solidariedade ao poder devastador das outras armas, da
ausência de escrúpulos, da corrupção e da barbárie”, indicou, o médico, como
uma réstia de esperança.

“A desilusão é muito grande perante a podridão que se apoderou da democracia”

Desde jovem situou-se sempre na oposição à ditadura salazarista, era antifascista, anticolonialista, antiracista, anticapitalista e anti-imperialista. “Não era propriamente um ativista, embora participasse, sempre que podia, em algumas ações e reuniões mais ou
menos proibidas e clandestinas”.
Adão Cruz foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Vale de Cambra logo após o 25 de Abril e teve uma breve ligação partidária ao MDP na altura em que foi candidato à Assembleia Constituinte.
“Daí em diante fui sempre um cidadão independente, de esquerda, politicamente
interveniente em tudo o que me interessava”. Revisitando os tempos da ditadura, “não é fácil explicar a falta de liberdade aos cidadãos que não a tiveram. De qualquer forma, embora sofrendo a censura e a opressão, não fui eu nem muitos como eu quem
sentiu verdadeiramente na pele e na alma, mas aqueles heróis lutadores que deram o melhor das suas vidas e a própria vida pela conquista da liberdade e da democracia”. “Violentados éramos todos, aos tornarmo-nos mais ou menos conformados e amorfos.
No meu caso, houve sempre alguma censura em artigos que publicava e também alguma resistência da minha parte sempre que podia”, contou. A três dias do 47º aniversário do 25 de Abril, “´fascismo nunca mais´ é um reconfortante slogan que deve ser gritado aos sete ventos”, firmou Adão Cruz, mas não sem demonstrar que, “tristemente, a desilusão é muito grande perante a podridão que se apoderou da democracia. Esta falsa e hipócrita democracia de hoje não passa, infelizmente, de ficção e de uma ferramenta do poder corrupto, aqui e em todo o mundo. Uma desilusão que se estende às antigas colónias, por
cuja independência tanto lutei”.
Se atualmente vivemos ou estamos prestes a viver alguma revolução, “revolução no sentido clássico, penso que não. O imperialismo irracional e selvagem é um obstáculo muito difícil de vencer. Só a revolução das mentes e a luta de massas poderiam trazer alguma esperança, mas para isso é indispensável uma cultura e uma educação
profundas que os poderes políticos não querem”, concluiu Adão Cruz ao labor.
Para ilustrar esta peça sobre ser médico em tempos de guerra, a nosso pedido, Adão Cruz escolheu duas fotografias que, tal como o próprio descreve, “são de paz e não de guerra, e que ilustram o mútuo afeto, para não dizer amor, que consegui criar entre aquela gente pobre, maravilhosamente pura”.

Quadros e Contos sobre a Guerra

“TUDO SITUAÇÕES REAIS E RIGOROSAMENTE VERDADEIRAS”, REVELOU ADÃO CRUZ AO LABOR

Além de médico, Adão Cruz é pintor e escritor. “Quadros pintei poucos, uma meia dúzia. Contos publicados em livro aí uma dúzia. Muitas crónicas em revistas, jornais, blogues e Facebook. Tudo situações reais e rigorosamente verdadeiras. Não me lembro de escrever qualquer ficção sobre a guerra, a não ser uma (Pequenas e Grandes Verdades), a qual, sendo verdadeira no essencial, tem uma linguagem um tanto ou quanto ficcionada”, revelou Adão Cruz ao labor.

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