Um ano e 10 meses depois de abrir portas o primeiro, e até agora único, apartamento de autonomização para pessoas em situação de sem-abrigo no concelho de S. João da Madeira, o labor conta a história de superação de duas delas.

“M” e “V” pediram a reserva da identidade, mas falaram sem qualquer tipo de entrave sobre aquela que foi e sobretudo aquela que é a sua realidade.

O caminho de um e de outro cruzou-se há muitos anos com o de S. João da Madeira. Mais tarde, devido às dependências, com o do Trilho – Unidade de Apoio a Toxicodependentes e Seropositivos da Santa Casa da Misericórdia.

“M” está na casa dos 60 anos e sempre trabalhou na área da construção civil. Ora por conta de outrem, ora por conta própria. Não teve interesse em criar a sua própria família. “Nunca me interessei em casar nem quis a responsabilidade de criar filhos”, afirmou, sem hesitar, ao labor.

Com o passar dos anos, “M” desenvolveu uma relação abusiva com o álcool. Uma companhia que levou ao afastamento de outras muito mais importantes, a da família e a dos amigos. Viveu 12 anos num quarto de pensão. Chegou a dormir onde calhava. “Na rua nunca dormi, arranjava sempre casas abandonadas com água e luz, mas vi que não era vida. Tive que vir aqui (Trilho) pedir ajuda e aqui continuo. Foram elas (técnicas) que me deram sempre ajuda”. Uma dessas ajudas foi fazer um tratamento à dependência do álcool, o qual começou e terminou com sucesso. Uma outra foi viver num apartamento de autonomização, cedido pela Câmara Municipal de S. João da Madeira à Santa Casa da Misericórdia, no qual teve o seu próprio quarto e partilhou os espaços em comum com até mais três residentes. “Como não queria ser alcoólico fiz o tratamento de um ano. Não foi nada fácil, mas consegui. Hoje não bebo. A partir daí a minha vida mudou. Para melhor. Assim que saí do tratamento as coisas começaram a melhorar muito. Fui recuperar os amigos, a família, que me ajudam porque veem que tenho outra atitude. Também as minhas técnicas”.

O apartamento de autonomização foi “uma experiência boa. Muito melhor do que um quarto. Uma casa tem tudo. Sentia-me mais confortável. Apesar de ter existido um conflito com este ou com aquele, adaptei-me”. Com o “teto” veio a contrapartida de aprender a partilhar o espaço comum com outras pessoas, fazer tarefas, gerir orçamentos, entre outras competências que perdeu com o passar dos anos, sempre com o acompanhamento e apoio das técnicas do Trilho.

Uma nova oportunidade surgiu para “M” e “V” em 2021. Enquanto candidatos disponíveis para partilha de habitação social, foi-lhes atribuído um outro apartamento de tipologia dois. A seu favor jogou o facto de serem duas pessoas que conseguiram viver um ano e nove meses no mesmo apartamento de autonomização. No novo lar “sinto-me bem. Agora sinto-me mesmo melhor e mais à vontade. Não há chatice. Não há nada. Sinto-me como nunca. A vida está-me a correr bem. A correr cada vez melhor. Valeu a pena mudar de vida”. 

“Consegui ultrapassar, mas não sozinho…”

“V”, também na casa dos 60, já trabalhou no mar, na restauração e em empresas ligadas a diferentes áreas. Teve relacionamentos, mas nenhum o levou a constituir família. “Não calhou. Também nunca procurei essa coisa de família que é um bocado de responsabilidade”, revelou ao labor.

Para além da relação dependente do álcool, teve uma outra ligada ao consumo de drogas. Dormiu em casas abandonadas até conseguir um quarto. “Graças a Deus consegui ultrapassar (as dependências). Nem tenho apetite. Não me estou a ver noutras composturas. Gosto de ajudar. Tento cativar os outros. Se não puder ajudar, também não faço mal”. Na luta contra as dependências venceu a força de vontade em voltar a assumir as rédeas do seu (e com o) trilho. “Os tratamentos ajudaram”, assim como “a muita força de vontade”. “Consegui ultrapassar, mas não sozinho …”. Um dos efeitos desta mudança foi a reaproximação à família com quem esteve há já algum tempo. “Esses cinco dias valeram 10 anos”. Outro dos efeitos foi ser um dos residentes do apartamento de autonomização. “Mais um repto que recebi muito bem. É outra coisa do que viver num quarto. Não foi com muita facilidade, mas acabei por me adaptar”. Problemas de adaptação à parte, “valeu a pena” porque “consegui mudar de vida”. Tanto num apartamento como noutro “é uma aprendizagem. Vamos conseguindo”. Neste momento “estou contente com o que tenho”. Quanto ao futuro, “tenho expectativas. Não deixo de sonhar, como é evidente”.

“Histórias a correr mal é o que mais temos. Estas pessoas personificam aquilo que correu bem”

“Estas duas pessoas não tinham como objetivo o emprego. Uma pela questão da idade, outra pelos problemas de saúde associados. Também não têm descontos suficientes para uma pensão. Ambos estão com RSI (Rendimento Social de Inserção). Não há resposta social montada para as pessoas que estão nesta idade e com este tipo de problemas. Estas respostas são necessárias para que tenham alguma qualidade de vida e dignidade também”, deu a conhecer Branca Correia, diretora técnica do Trilho, ao labor.

DF

“Histórias a correr mal é o que mais temos aqui. O Trilho está associado a muitas coisas negativas na sociedade e estas duas pessoas personificam aquilo que correu bem. São um motivo de orgulho. Ficamos muito contentes que as coisas estejam a correr bem para eles porque reflete um trabalho longo da equipa com eles”, declarou Branca Correia.

A superação deles “é gratificante e um reconhecimento de que todo o trabalho que fizemos com eles resultou numa coisa positiva para eles”, acrescentou Teresa Maia, educadora social do Trilho.

Tendo em conta estes dois casos de superação, a avaliação do apartamento de autonomização é “positiva”. “Aprenderam a respeitar o espaço de cada um. Estando em situação de sem-abrigo, por vezes o estar só faz parte das dinâmicas do dia a dia. Acho que a partilha tem o lado positivo de reativar algumas relações quer comunitárias, quer da relação interpessoal, porque de alguma maneira eles, enquanto residentes, foram-se apoiando uns aos outros”, explicou Priscila Almeida, psicóloga da unidade de apoio a pessoas com dependências da Misericórdia. 

“O fenómeno é multidimensional e existe uma série de fatores associados ao estar na rua”

A autonomização destes dois residentes no final do mês de março levou a que dois de quatro quartos ficassem disponíveis no apartamento. Um foi ocupado no dia 9 de abril. O outro continua vago. “Ao todo, pelo apartamento de autonomização, já passaram sete pessoas, sendo que estão lá três, dois autonomizaram-se e com dois não correu bem. Ambos abandonaram por iniciativa própria”, informou a diretora técnica do Trilho. Para quem, além desta resposta (apartamento de autonomização), existem outras que podem fazer a diferença na inclusão destas pessoas na sociedade. Como o NPISA – Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo. O de S. João da Madeira encontra-se “em processo de constituição formal, mas estamos a dar passos seguros nesse sentido”, adiantou Branca Correia. A proposta da sua criação foi apresentada pelo Trilho à Rede Social em junho de 2020. Juntamente com a Associação de Jovens Ecos Urbanos e o Centro Comunitário Porta Aberta, o Trilho acompanha pessoas em situação de sem-abrigo. Por ser a valência que mais identifica pessoas nessa situação foi-lhe entregue a coordenação do NPISA. “Eu tenho a certeza que (o NPISA) fará a diferença. É importante para intervir com as pessoas, mas também é importante para monitorizar o fenómeno”, indicou a diretora do Trilho. “O fenómeno é multidimensional e existe uma série de fatores associados à questão de estar na rua” como a da “saúde mental” que é “fundamental e condiciona a forma como vivemos o dia a dia”, adicionou Priscila Almeida.

“Programa de Apoio à Família da câmara ajuda-nos a prevenir muitas situações de sem-abrigo”

“Quando começamos em 1999 não estavam identificadas pessoas sem-abrigo. Não havia esta questão de as pessoas estarem anos na rua. Antes de 2011 já tínhamos pessoas a viver na rua há algum tempo. Algumas delas provavelmente ainda continuam a viver na rua agora. Há pessoas cuja forma de estar adapta-se a esta realidade. Acho que é onde conseguem controlar a sua vida. Tudo desmoronou, mas estou aqui e consigo controlar esta dimensão da minha vida. Não sendo o ideal, para algumas pessoas é”, clarificou Branca Correia. “O facto de haver o Programa de Apoio à Família da câmara municipal ajuda-nos a prevenir muitas situações de sem-abrigo”, ressaltou a diretora técnica do Trilho. Ao longo dos anos “já tivemos outros executivos que não deram valor à área social, à área das dependências”, “se alguma coisa podemos dizer deste executivo é que dá algum impulso aos serviços que trabalham na área social”, constatou Branca Correia que está no Trilho desde a sua fundação. Ainda assim, “claro que podemos melhorar, mas isso podemos sempre”.

“Sinto que estamos sempre a quebrar tabus”

Mudam-se os tempos e mudam-se as mentalidades. “A comunidade conseguiu dar esse passo”, considerou Branca Correia e “está preparada para isto de outra maneira”, complementou Priscila Almeida.

A prova disso está na integração das pessoas acompanhadas pelo Trilho no Festival de Teatro, na criação de obras para exposições públicas, na apresentação de projetos como o “Senta.Com”, um restaurante social, ao Orçamento Participativo, entre outros.

Cada um destes momentos permitiu “mostrar o outro lado desta população e mudou a forma como a comunidade a vê”, referiu Teresa Maia, partilhando a sua opinião de que, “modéstia à parte”, o Trilho tem sido o maior responsável por esta revolução de mentalidades.

A vitória do projeto “Senta.Com”, apresentado pela Santa Casa da Misericórdia, cuja reabertura está dependente da evolução pandémica, é um dos exemplos desta clara mudança. “Uma obra que nasceu dos votos da comunidade. Para nós é de um valor inacreditável”, sublinhou Priscila Almeida, bem como as parcerias com a câmara, o Espaço Aberto da Escola Dr. Serafim Leite, responsável pelo Festival de Teatro, entre outras, porque proporcionaram “uma série de oportunidades”. “Quando aparecemos as pessoas ficam admiradas. Eu sinto que estamos sempre a quebrar tabus. Acho que o caminho é por aqui. Não é segmentar pessoas”, defendeu Branca Correia.

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