“No Reino Unido os casos de adoção são irreversíveis ainda que venham a reconhecer que foram erros que levaram à decisão”, contou a realizadora Ana Rocha de Sousa

“Listen” retrata de forma dura e crua as adoções forçadas no Reino Unido. Um tema polémico que envolve muitas crianças cujos progenitores são de outros países como Portugal. Foi precisamente a notícia sobre uma mãe portuguesa a quem tinha sido retirado o bebé recém-nascido que levou a realizadora a pesquisar sobre o tema. Ana Rocha de Sousa tinha sido recentemente mãe, tinha feito o mestrado em cinema em Inglaterra e tinha noção das adoções forçadas.  Quando deu conta encontrou o tema daquele que veio a ser o seu primeiro filme. “Listen” não é baseado num caso verídico, mas em vários cujos pormenores levaram-na a ficcionar sobre aquela que veio a ser a história do casal português Bela e Jota e dos seus três filhos. As dificuldades em conseguir viver com o mínimo de condições levaram-nos a pedir ajuda aos serviços sociais. Os mesmos que acabam por lhes retirar os três filhos devido a duas situações em que as aparências literalmente iludem e decidem ser melhor apoiar as famílias adotivas. Por isso o foco do filme, “e quando tudo o que parece, não é?”. Uma sucessão de erros toma lugar. O filho mais velho é adotado, mas consegue fugir com o apoio de um grupo de voluntários que ajuda famílias a quem os filhos foram retirados injustamente. A do meio é rejeitada por ser surda e muda. Só por essa razão regressa para junto dos pais. A mais nova, recém-nascida, é adotada e não a voltam a ver. “Tomei o ponto de vista da família”, mas “tentei de forma muito séria ser o mais justa e correta com o próprio sistema”, esclareceu Ana Rocha de Sousa, explicando que no Reino Unido “a separação (entre progenitores e filhos) acontece como uma prevenção do risco” só que “é diferente sermos condenados por algo que fizemos do que por algo que possamos vir a cometer”. Há “casos gritantes de inocência absolutamente total” só que “no Reino Unido os casos de adoção são irreversíveis ainda que venham a reconhecer que foram erros que levaram à decisão”, deu a conhecer a realizadora, contando que nestes casos só quando as crianças atingem a maioridade é que podem decidir voltar a morar com os progenitores. O filme termina de forma inesperada, mas a ideia sempre foi essa. “Eles perdem sempre. Aquele trauma ninguém lhes tira. Vão ficar com a esperança eterna de será que um dia a vamos recuperar? É uma forma abrupta (de terminar o filme), mas é um processo sem fim”, alertou Ana Rocha de Sousa.

“Município é exemplo do que é apostar na cultura e desconfinar em segurança”

Além da sessão dirigida à comunidade escolar (Agrupamentos de Escolas Dr. Serafim Leite, João da Silva Correia e Oliveira Júnior e Centro de Educação Integral) durante a tarde, uma sessão dirigida ao público em geral voltou a encher à noite a Casa da Criatividade que exibiu pela primeira vez um filme e que marcou o regresso do Cine S. João. Um projeto promovido pelo Município sanjoanense com curadoria do Cine Clube arouquense. De seguida, tomou lugar a habitual tertúlia com a presença de Irene Guimarães e Paula Gaio, vereadoras da Educação e da Ação Social, respetivamente, duas áreas extremamente importantes no tema retratado no filme, e João Rita, presidente do Cine Clube de Arouca.

Tanto Irene Guimarães como Paula Gaio deram os parabéns a Ana Rocha de Sousa. A primeira pela “capacidade de transmitir uma realidade dura” que leva a “compreender que estas questões dramáticas podem acontecer a qualquer um de nós”. A segunda pela “intensidade” transmitida pelo filme que levou a que momentos após a sua projeção ainda continuasse “anestesiada”. Para João Rita “o que acabámos de ver é o futuro do cinema português. Se tivermos filmes destes a estrear conseguimos levar as pessoas ao cinema”. Numa altura em que a cultura, à semelhança de outras áreas, está a reabrir ao público, o presidente do Cine Clube de Arouca deixou uma palavra a S. João da Madeira. “O Município é um exemplo extraordinário do que é apostar na cultura e desconfinar em segurança”, salientou João Rita. Por sua vez, Ana Rocha de Sousa não escondeu estar “feliz por depois de mais um confinamento ver uma sala cheia. Creio que é importante para todos nós. Que seja o regresso à cultura e à normalidade”.

 

“Tudo o que é a fingir torna-se superficial”

Uma das curiosidades de “Listen” é que a atriz Maisie Sly, que interpreta Lu, uma menina surda e muda, é-o na realidade. O que levou a que a comunicação fosse um grande desafio entre a atriz e os demais. “Nós, adultos, não temos tanta facilidade de aprendizagem como as crianças. Tive várias aulas (de linguagem gestual). É extremamente difícil”, assumiu Ana Rocha de Sousa, considerando que “o lado bonito é esquecer isso e ir à base do que somos: pessoas com coração que conseguem comunicar de qualquer maneira”. “Tive imenso medo, mas nunca ponderei a possibilidade de colocar uma criança que não fosse surda. Tudo o que é a fingir torna-se superficial”, assumiu a realizadora. O que começou como um enorme desafio acabou como “uma experiência incrível. Ela tem uma magia. As minhas palavras nunca serão justas”, disse Ana Rocha de Sousa. Quem, do ponto de vista de Irene Guimarães, deu “uma lição imensa de integração” com a contratação de alguém que tem uma limitação, mas não deixa de ter talento.

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