“Acabamos por ter noção dos nossos limites”, reconheceu a enfermeira Eliana Correia, que venceu o vírus, mas enfrenta agora as sequelas, ao labor

Eliana Correia tem 34 anos, é natural de Travanca, freguesia do concelho de Santa Maria da Feira, e enfermeira no Bloco Operatório Central do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV).

Ao longo de um mês e meio de isolamento teve toda a sintomatologia associada à Covid-19. Por quatro vezes foi à urgência com situações bastante complicadas e por duas vezes recusou internamento. Se fosse hoje, não voltava a fazê-lo. Venceu a Covid-19, mas enfrenta agora as sequelas.

Desde o início de fevereiro que Eliana Correia está entre os mais de 400 doentes que recuperam de mazelas provocadas pelo novo coronavírus com a ajuda do serviço de Medicina Física e de Reabilitação (MFR) do CHEDV. “Neste momento apresento o perfil quase como se fosse um doente asmático. Ainda apresento algum cansaço, tosse e fiquei com uma dessincronização da respiração, ou seja, desaprendi a respirar”.

Como era “uma pessoa bastante ativa, fazia ginásio todas as semanas, corria, fazia montanhismo, trail, escalada”, de um momento para o outro ver-se nesta situação é “complicado”.

Aquando da conversa com o labor, na segunda quinzena de abril, encontrava-se a fazer reabilitação motora e cinese de terapia respiratória. O objetivo é voltar a ganhar a muita massa muscular que perdeu e desconstruir mecanismos de defesa que criou devido às dificuldades respiratórias como fazer grandes períodos de apneia a falar e a comer para não se engasgar. “No início fazíamos exercícios passivos, ou seja, são exercícios que as máquinas fazem por nós, quer de braços, quer de pernas. Só na semana passada é que comecei a fazer exercícios ativos como passadeira e bicicleta”. Para já, “tenho um bocado mais de receio de falar da minha evolução. Acho que as pessoas de fora têm melhor perceção”, acautelou Eliana Correia que, três meses depois de começar a reabilitação, continua sem um prazo definido de quando poderá voltar ao trabalho.

Nos momentos de maior aflição, a enfermeira tinha em mente sobretudo dois pensamentos. Um deles era “isto é tudo psicológico”. O outro “não quero ser mais um número a preocupar os meus colegas”. Além do mais, o afastamento da família pesou sempre mais do que a sugestão de internamento ainda que existisse contacto entre os doentes e os familiares através dos meios digitais com apoio dos profissionais de saúde, que louvou pelos sacrifícios que passaram a ser muitos mais dos que já faziam devido à pandemia e sobretudo pela humanização que construíram entre o doente e as famílias para compensar a proibição de visitas. Ao fim de um mês e meio de isolamento, o reencontro com a sua família foi “inexplicável”. “Acho que o meu caso foi uma situação grave. Olhando em retrospetiva não devia ter recusado internamento. Todos nós sabemos que quanto mais antecipado for o tratamento melhor será o resultado”, salientou a enfermeira, assumindo ter sido “repreendida” pelos colegas, profissionais de saúde, por não ter aceite o internamento e ter evitado muitas das sequelas provocadas pelo vírus. “A Covid foi o maior teste da minha vida. Acabamos por ter noção dos nossos limites”, reconheceu Eliana Correia ao labor.

“Todos deviam ser encaminhados para reabilitação nem que fosse para fazer uma avaliação”

Na opinião da enfermeira, os doentes que estiveram infetados com Covid-19 deviam ser avaliados para ser apurado se precisam de apoio ao nível da saúde motora, através de reabilitação, ou até de apoio ao nível da saúde mental. “Todos deviam ser encaminhados para reabilitação nem que fosse para fazer uma avaliação”. “Se precisarem (de reabilitação) e não a tiverem é muito mais complicado. Se a pessoa tem dores musculares, cansaço e dificuldades respiratórias, não consegue fazer a sua vida diária. Ao não conseguir, vai deprimir-se. Vai sentir-se incapacitada, debilitada. É normal que apareçam as depressões, os isolamentos. É precisamente isto que vai fazer a diferença”, considerou Eliana Correia.

“É um vírus que é como a morte, é certa para toda a gente”

A quem desvaloriza o vírus, a enfermeira deixou uma mensagem com base no que sentiu e ressente até hoje no corpo e na mente. “A Covid não escolhe raça, idade, condição física, não escolhe nada. É um vírus que é como a morte, é certa para toda a gente”, frisou Eliana Correia. Enquanto profissional de saúde, em nome de todos os seus colegas, que foram forçados a abdicar de tempo de descanso, em família, com amigos, pediu às pessoas que “tenham cuidado. Não vai ser a vacina que nos vai salvar. Vai ser sim a nossa postura defensiva e de proteção de nós mesmos e da nossa família”.

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