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Catarina Aguiar Branco tem 54 anos e é diretora do serviço de Medicina Física e de Reabilitação (MFR) do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV).

A médica fisiatra, especialista em MFR, é professora auxiliar e vice-presidente da Comissão de Ética da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Catarina Branco preside à Sociedade Portuguesa de MFR e é membro da Assembleia de Representantes e do Colégio da Especialidade de MFR da Ordem dos Médicos e do Comité Executivo da Sociedade Internacional de MFR, representante das Sociedades Europeias de MFR. A médica fisiatra é ainda delegada na Sociedade Europeia de MFR e na Secção de MFR da União Europeia de Médicos Especialistas.

O que é a Medicina Física e de Reabilitação (MFR)?

A MFR é uma especialidade médica autónoma, que está centrada no doente. Não só na doença, mas também na implicação da doença na sua funcionalidade, nas suas atividades e na participação de vida diária e social, considerando todas as situações de limitação funcional, de incapacidade e restrição. Tem como objetivos últimos, para além da promoção e prevenção da saúde, o diagnóstico clínico e funcional, a terapêutica, a reabilitação, incluindo a habilitação e/ou capacitação e a paliação.

A MFR é ainda uma área onde intervêm múltiplos profissionais em equipas de reabilitação multiprofissionais em interdisciplinaridade com outras especialidades médicas e outros profissionais. É transversal às restantes áreas médicas e cirúrgicas da saúde, a todas as faixas etárias, a todos os níveis de cuidados de saúde (Cuidados Hospitalares, Centros Especializados de Reabilitação, Cuidados Primários, Rede de Cuidados Continuados Integrados e Cuidados Ambulatórios e da Comunidade).

 

Uma (física) é indissociável da outra (reabilitação)?

Sim. A Medicina Física – antes a Medicina dos Agentes Físicos, presente desde há mais de 100 anos em Portugal e em vários outros países – interliga-se, em dialética complementar com a Medicina da Reabilitação, na abordagem clínica dos doentes (na prevenção, diagnóstico e terapêutica). A nossa especialidade já existia no início do século XX, ainda que a designação atual, a nível nacional, tenha origem no final dos anos 60, com esta denominação de Medicina Física e de Reabilitação em 1970-1971. Já muitas décadas antes havia médicos especialistas nesta(s) área(s), a nível nacional, como a Dr.ª Maria Adelaide do Carmo, o Dr. Rogério Ribeiro, o Dr. Evaristo da Fonseca, o Dr. Helder Camelo, a Dr.ª Edite Ribeiro, o Dr. Santana Carlos (fundador e primeiro diretor do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão), o Dr. Ângelo Araújo, o Dr. Delgado da Rocha, o Dr. Miguéns, a Dr.ª Alzinda Matondo, a Dr.ª Olga Figueiredo, o Dr. Dídio Aguiar, entre outros. Foram precursores na área da Reabilitação em Portugal. Também outros profissionais de saúde da área da Reabilitação, precursores, devem de ser recordados.

 

“A MFR tem serviços nas unidades de Santa Maria da Feira, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis”

 

Quando é que foi criada a especialidade de MFR no CHEDV?

Em 1999.

 

Há quanto tempo está à frente da mesma?

Desde 2006, tendo sido a direção de serviço renovada por concurso público em 2020.

 

Quantos serviços de MFR existem no CHEDV?

A MFR tem três serviços nas unidades de Santa Maria da Feira, de S. João da Madeira e de Oliveira de Azeméis.

 

Quantos profissionais estão afetos à MFR?

Nas três unidades hospitalares do CHEDV, exercem atividade na MFR, direta e indiretamente, mais de 90 profissionais de saúde. Médicos Fisiatras, Enfermeiros de Reabilitação e Generalistas, Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais, Terapeutas da Fala, Assistentes Técnicos, Assistentes Operacionais e outros em interligação direta, como os Assistentes Sociais, as Psicólogas, a Neuropsicóloga, sempre que justificado para o doente.

 

“Nas três unidades hospitalares do CHEDV, exercem atividade na MFR, direta e indiretamente, mais de 90 profissionais de saúde”

 

Qual a evolução do número de doentes desde a sua criação até então?

O serviço de MFR, inicialmente no Hospital de S. Sebastião, Feira, e posteriormente com a integração dos hospitais de S. João da Madeira e de Oliveira de Azeméis no CHEDV, tem evoluído assistencial e formativamente, de acordo com as necessidades do hospital, da população, da comunidade, do estado da arte e da ciência. Não só em número de utentes, como em diferenciação e especialização dos seus cuidados, como por exemplo nas Unidades de Reabilitação Músculo-Esquelética, Unidades de Reabilitação Neurológica (inclui o apoio ao doente com AVC Agudo em internamento-UAVC), Unidades de Intervenção em MFR, Unidade de Reabilitação Pediátrica, Unidade de Reabilitação de Disfagia, Unidade de Recondicionamento ao Exercício (incluindo a Reabilitação Respiratória, a Reabilitação Cardíaca),  Reabilitação do Doente Crítico, Unidade de Reabilitação Oncológica, entre outras.

 

Quais as principais causas que levam os doentes até esta especialidade?

A dor, a limitação das mobilidades, as lesões e a perda de força muscular, a perda da capacidade de movimento, o cansaço, as queixas cardíacas, respiratórias e vasculares, as sequelas de acidentes, das doenças cancerígenas, das cirurgias e dos internamentos prolongados.

 

Covid-19: “As sequelas principais são respiratórias, cardiorrespiratórias, neurológicas e psicológicas”

 

Quantas pessoas que recuperaram da Covid-19, mas ficaram com mazelas, se encontram a ser acompanhadas por esta especialidade?

Atualmente, mais de 400 no CHEDV, considerando o seguimento em consulta de MFR presencial, em teleconsulta de MFR, nos programas de Reabilitação Covid-19 em seguimento domiciliário e nos programas de reabilitação pós-internamento por Covid-19 no serviço de MFR. De referir a importância das redes assistenciais de interligação com os Cuidados de Saúde Primários (e as Unidades de Reabilitação na Comunidade), o Centro de Reabilitação do Norte e as Unidades de Cuidados Continuados.

 

Quais as mazelas encontradas nestes doentes?

As sequelas principais são respiratórias, cardiorrespiratórias, neurológicas, psicológicas, nomeadamente perda de massa e força muscular, alteração do equilíbrio e da capacidade da marcha, fadiga, tremores, tonturas, dispneia (falta de ar), tosse seca/irritativa ao esforço, parestesias (formigueiros) nos membros, ansiedade, depressão. Apesar da base comum em muitos dos doentes quanto às queixas e limitações respiratórias, as queixas, sintomas e sinais são variáveis de indivíduo para indivíduo e ao longo da evolução subaguda e crónica, em ambulatório.

 

“Ainda que muitos se encontrem unicamente em reabilitação, outros encontram-se já integrados profissionalmente com seguimento da MFR”

 

Que tratamento estão a receber?

Os doentes encontram-se em Programas de Reabilitação de Síndrome Pós-Covid-19, com consultas médicas e programa com equipa de reabilitação multidisciplinar, de acordo com as suas queixas, clínica e limitação funcional, incluindo reabilitação cardiorrespiratória, recondicionamento ao esforço/exercício, reabilitação neurológica, numa abordagem multimodal.

 

Quais os resultados?

Apesar da variabilidade clínica, funcional e de complexidade/gravidade dos doentes em Programa de Reabilitação Síndrome Pós-Covid-19 no serviço de MFR, temos verificado melhorias clínicas, funcionais, das incapacidades para a realização de atividades e das restrições à participação social. Ainda que muitos se encontrem unicamente em reabilitação, outros encontram-se já integrados profissionalmente com seguimento da MFR, de acordo com as suas necessidades (quer no Serviço de MFR do CHEDV, quer em MFR da comunidade).

 

“A MFR é uma especialidade, internacional e nacionalmente, em crescimento”

 

Quando os doentes chegam à MFR é traçado um plano de trabalho, certo?

Sim, aos doentes após consulta médica fisiátrica (de MFR), é prescrito medicamente um plano de reabilitação com uma ou mais intervenções terapêuticas, por diferentes profissionais de saúde, integrado e complementar, que será adaptado de acordo com a evolução do doente. Sendo o CHEDV um hospital de agudos/subagudos, por definição, o seu serviço de MFR assiste predominantemente utentes agudos/subagudos e crónicos agudizados (em patologias que acarretam maior limitação funcional), por períodos limitados no tempo, em interligação com os cuidados primários e com as restantes instituições da Rede Nacional de Referenciação de MFR.

 

Os profissionais estabelecem de imediato as previsões do que podem vir atingir ou é um processo gradual?

Após a observação do doente e a prescrição do Plano de Reabilitação pode-se inferir da previsibilidade de evolução (tipologia, intensidade, …), mas existem outros fatores contextuais pessoais, ambientais (da própria doença), que tornam esta previsão cautelosa e de acordo com as evidências científicas e clínicas, nomeadamente pela possibilidade de intercorrências, de novas sequelas e regressões clínicas.

 

“A evolução em várias situações não é para a cura ou para o retorno ao estado funcional prévio, mas para a otimização de um novo estado de saúde”

 

O que é mais comum acontecer: o doente progredir, estabilizar ou regredir depois das intervenções feitas por esta especialidade?

Sem dúvida, o doente progredir e evoluir, dentro das expectativas realistas para cada doença/patologia e estado funcional próprio daquele indivíduo e naquele momento.  Sabendo que em MFR, em muitas situações, nomeadamente no ambulatório, não realizamos “sprints clínicos”, mas “maratonas”, ou seja, os resultados favoráveis são mais “lentos” de obter, mas também mais funcionais e sustentáveis, existem resultados de evolução progressiva, resultados de manutenção de ganhos anteriores e resultados de prevenção de novas sequelas e agravamento, que se obtêm na maioria dos casos em simultâneo e em complementaridade. A evolução em várias situações não é para a cura ou para o retorno ao estado funcional prévio, mas para a otimização de um novo estado de saúde (funcional, de atividade e de participação).

 

Em qualquer um destes casos, a MFR terá de ser contínua ao longo da sua vida?

A Promoção e a Prevenção da Saúde em MFR (para os doentes crónicos) é, por definição e inerência a estes doentes e área da saúde para toda a vida, centrada no doente (familiares e cuidadores), o que implica a responsabilização também destes na gestão dos seus cuidados de saúde, em interligação com os serviços de saúde e aliteracia em saúde. Em muitas patologias incapacitantes (temporaria ou permanentemente), a reabilitação prolonga-se por períodos maiores, com diferentes níveis e intensidade de cuidados, que poderão ser de manutenção e prevenção de sequelas/agravamento para toda a vida. Até porque, com o passar dos anos os doentes com incapacidades físicas e cognitivas, têm também associadas as comorbilidades e as patologias próprias do envelhecimento, que poderão agravar as capacidades pré-existentes ou trazer novas limitações e incapacidades.

 

“A Medicina Física e de Reabilitação faz a diferença”

 

Qual o balanço da atividade deste serviço?

DF

A MFR é uma especialidade médica, internacional e nacionalmente, em crescimento (número de médicos), respondendo às necessidades epidemiológicas crescentes, como o envelhecimento da população e a existência de mais sobreviventes de situações clínicas agudas (doenças, acidentes) pela melhoria dos cuidados de emergência, agudos e pós-agudos, mas com sequelas e limitações funcionais, que exigem reabilitação. Tal como preconizado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a reabilitação é um direito. Como área da saúde multiprofissional, multidisciplinar e interdisciplinar a sua importância é crescente em termos clínicos para os doentes (seus cuidadores e familiares), mas também para as instituições e diferentes tipologias e níveis de saúde, para a comunidade/sociedade, assim como para a economia (gastos com assistência social, absentismo ao trabalho, incapacidades/deficiência) e para a gestão dos gastos, recursos e sustentabilidades dos Sistemas de Saúde (qualquer que seja a sua fonte de financiamento, público ou privado). É assim necessária a continuidade da intervenção da especialidade médica e das equipas de reabilitação nas várias tipologias e níveis de cuidados de saúde, num “continuum” de cuidados e serviços, com apoio das instituições responsáveis, a bem dos doentes e dos Sistemas de Saúde. Existe um slogan internacional que diz: a “MFR/Reabilitação faz a diferença”.

 

Como diretora da MFR do CHEDV, que meta gostava de o ver atingir em 2021?

Gostaria que o serviço mantivesse a continuação da prestação dos cuidados de reabilitação à população, de acordo com as suas necessidades, a especialização/diferenciação deste serviço e a missão do CHEDV e do próprio serviço. Como representante de uma instituição científica, a Sociedade Portuguesa de MFR, gostaria da continuidade da sua afirmação. Não só como especialidade médica, mas também como área da saúde, em complementaridade com todos os seus parceiros científicos e profissionais nas áreas da saúde e outros afins, como as da Engenharia, Tecnologias da Informação e Comunicação, Ciência Sociais e da Economia. Como Médica Fisiatra, gostaria que a “MFR, a Reabilitação e as suas Equipas fizessem a diferença”, bem patente neste período pandémico Covid-19. Não só para os doentes agudos e pós Covid-19, mas também para todas as outras patologias e doentes, que continuam a existir e em crescimento de necessidades assistenciais múltiplas.

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