Pedras boroas

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Quando subimos ao planalto da Serra da Freita e experimentamos o prazer da sua beleza, por mais vezes que tal aconteça, nunca voltamos os mesmos. A natureza é um fenómeno integral, uma vivência cultural, uma relação entre nós e o mundo que ultrapassa a percepção realista, a materialidade e as formas. É também uma visão idealista que nos
permite uma ampla projecção do espírito pelos campos da estética e da criatividade. Goethe, na sua obra “A viagem a Itália”, escrevia “a visão da paisagem magnífica à minha volta não desaloja em mim o senso poético, bem pelo contrário”. Não será por acaso que os maiores compositores criaram as mais belas músicas, por terras tão ricas de planaltos e belas montanhas que vão dos Urais e do Cáucaso aos Alpes e Pirenéus, dos Balcãs e Cárpatos aos Apeninos e tantos outros.
A Serra da Freita, para além da sua beleza natural, única e multifacetada é também um mundo de fenómenos geológicos e naturais raros. Recordo aqui as pedras parideiras, fenómeno geológico quase único no mundo, existindo, ao que se julga, apenas na Rússia, perto de S. Petersburgo. Pequeninas pedras de granito nascem e desprendem-se da rocha- -mãe, ali deixando as pequenas covas do seu ninho maternal. Diz a lenda que se deve dormir com uma pedra parideira debaixo da almofada para aumentar a fertilidade.
O outro fenómeno é o das pedras boroas ou broas, assim chamadas pelo aspecto da sua
superfície. Assemelha-se à côdea de uma boroa de milho. Este aspecto deve-se ao resultado da erosão que o granito sofreu, dando origem a uma rede de fissuras poligonais nas partes da rocha mais erodidas. Do subsolo desse local, emergem alguns veios de água que se juntam ganhando a forma de riacho, o qual se precipita, um pouco mais à frente, na imponente frecha da Mizarela, com a altura de oitenta metros. Foi preciso chegar a esta idade para desfazer o mistério e satisfazer a curiosidade de uma vida inteira.
Ali está ela, a nascente, o berço do meu rio Caima, o rio adulto da minha aldeia, o rio dos açudes, das cheias, dos amieiros, do poço fundo, o rio que ensinou os meninos a nadar, o rio que me canta a poesia no cachoar das suas águas tumultuosas de Inverno ou no sussurro das águas mansas de Verão, o rio dos maus e bons momentos da minha vida, sempre inspirador, sempre amigo, sempre regaço dos meus tempos de menina.

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