Há 12 anos nos órgãos sociais do clubes, os últimos 10 como presidente, que balanço faz, até ao momento, da sua gestão?

Os factos falam por si. Em 2009 tínhamos um clube completamente destroçado, quer ao nível desportivo, financeiro ou junto dos fornecedores. Com uma dose de loucura, encetamos a sua recuperação e com perseverança, trabalho e muita humildade isso foi conseguido. Neste momento temos a situação financeira a caminho de um passivo estável a médio prazo, mas que não aflige.

Onde incidiu a prioridade quando foi definido o plano de recuperação?

A linha de conduta foi atacar os principais focos que podiam destabilizar o clube. Foram mais de 250 reuniões com treinadores, fornecedores, atletas, organismos públicos e instituições bancárias, que podiam recorrer a tribunal, para chegar a acordo. Durante os primeiros sete ou oito anos foi isso que norteou a minha gestão. É necessário realçar, para que os sócios não tenham uma visão unicamente desportiva, que em 10 anos foram amortizados 300 mil euros de empréstimos contraídos por outra direção ao mesmo tempo que fomos reduzindo o passivo, tudo sem recorrer à banca. Paralelamente a tudo isso, os resultados desportivos falam por si.

Por tudo isso tenho de considerar o balanço positivo e estou orgulhoso do trabalho realizado e de todos os que nos apoiaram.

O que considera que esteve na base de todo esse trabalho?

Muita dedicação, sem entrar em aventuras na constituição das equipas, reforçada por uma aposta na formação nas várias modalidades. Foram esses atletas que desportivamente nos ajudaram a ultrapassar uma situação bastante difícil.

Tenho orgulho no passado e no presente do clube e estou convicto que nos próximos três anos vamos ter uma sanjoanense ainda mais robusta e, se possível, nas primeiras divisões.

Ao longo destes 12 anos o passivo reduziu em mais de um milhão de euros e a dívida à banca foi totalmente liquidada.

Isso permite que o clube viva hoje mais desafogado financeiramente?

Não diria isso. É uma palavra muito forte. Permitiu que o stress diário ao nível da tesouraria deixasse de existir. Tirando eu, temos tudo em dia com os nossos credores de acordo com o que foi convencionado. Ao nível de fornecedores o pagamento é feito a 30 ou 60 dias.

“Estou orgulhoso do trabalho realizado e de todos os que nos apoiaram”

O facto de a determinada altura se ter “profissionalizado” o cargo de presidente também contribuiu para este desempenho?

Para um clube que se projeta para esta dimensão não era suficiente ter um presidente que ao final da tarde estava presente para assinar documentos. Hoje, com as novas tecnologias, há e-mails e telefonemas para resolver assuntos quase de imediato e isso só é possível se existir uma pessoa a tempo inteiro, dedicada e concentrada no que está a fazer.

Ao longo destes 12 anos na direção do clube há algo que o tenha marcado no meio de tantas dificuldades?

O momento mais doloroso pelo qual passei foi acompanhar um atleta muito jovem que teve de se afastar por motivo de doença. Regressou, levando a pensar que estava no caminho da recuperação, mas alguns meses mais tarde o seu estado de saúde agravou-se e acabou por falecer. Foi um dos momentos mais tristes que passei à frente do clube. Quando comparadas com este tipo de situações, as derrotas e tudo o resto são insignificantes.

As últimas duas épocas trouxeram dificuldades acrescidas como consequência da pandemia. Como é que o clube sobreviveu durante uma fase de paragem quase total?

O período de estabilidade que conseguimos alcançar, fruto do trabalho realizado ao longo dos anos para reduzir o passivo, foi fundamental. Tivemos uma quebra nas receitas superior a 50%, pelo que o apoio da câmara municipal e dos sócios que mantiveram o pagamento das cotas, mesmo sem a realização de jogos, foi importantíssimo.

Referiu que durante este período, com o clube impossibilitado de jogar, alguns sócios continuaram a pagar as cotas. Sente que ainda há bairrismo na cidade?

Ao longo dos últimos anos houve uma transformação social e aquelas gerações de industriais, que tinham orgulho de serem sanjoanenses e de apoiarem o clube, quase não existem.

A cidade gosta do clube, mas só aparece quando há grandes conquistas.

Tenho, no entanto, de reconhecer que o estádio e o pavilhão também já não oferecem as melhores condições de comodidade e hoje as pessoas são mais exigentes nesse aspeto.

“A cidade gosta do clube, mas só aparece quando há grandes conquistas”

E há algo que esteja planeado para requalificar essas infraestruturas?

Ainda não temos capacidade financeira, muito menos depois destes dois anos, para nos aventurarmos numa intervenção total nas duas infraestruturas ou, eventualmente, substituir uma delas por outra mais moderna.

A construção de uma infraestrutura nova poderá ser uma opção?

Eu apostava na construção de um pavilhão novo, precisamente no estádio, situação que, face à proximidade dos vários espaços desportivos, possibilitava uma maior interação entre as diversas modalidades. Assim, em vez de ter a família sanjoanense distribuída por 13 espaços diferentes ficava concentrada numa única zona.

É certo que o pavilhão é um espaço emblemático, mas só estamos a fazer intervenções pontuais. Continua a não ter comodidade ou as medidas regulamentares para receber, por exemplo, o andebol.

No que diz respeito ao aspeto desportivo, as últimas duas épocas são para esquecer?

Ao nível da formação foi, efetivamente, uma época para esquecer, com grandes prejuízos para diversas gerações. Concordo com a ideia do departamento do futebol de formação em criar uma equipa B sénior (sub23) porque vai dar oportunidade às gerações destas últimas duas épocas de regressarem à competição depois de terem estado praticamente paradas.

No que diz respeito aos seniores serviu para repensar. Para além das consequências financeiras, o Covid-19 também veio influenciar os resultados desportivos nos diversos campeonatos de todas as modalidades. Acho que durante este período a verdade desportiva andou ao sabor do Covid-19.

“Eu apostava na construção de um pavilhão novo”

Na última Assembleia Geral revelou que assumiu a gestão da secção de hóquei em patins depois do vice-presidente Pedro Ribeiro ter anunciado que iria sair no final da época. Era a única solução possível?

Não podemos estar dependentes das eleições e esperar pela tomada de posse para se começar a trabalhar na próxima época. Essa responsabilidade recai sobre o presidente. Não podíamos ficar parados para se iniciar a preparação da nova temporada apenas em meados de junho.

É óbvio que o Pedro Ribeiro colocou a fasquia muito alta, não só pelo seu empenho, trabalho e dedicação, como também pela questão do apoio financeiro, mas temos de trabalhar com o que dispomos.

E que trabalho já foi feito nesse sentido?

Em termos técnicos optei por não fazer alterações, pelo que o Vítor Pereira vai continuar a ser o treinador, enquanto ao nível de jogadores vamos segurar os que pudermos. E já temos algumas renovações e um reforço, mas há situações que nos transcendem, como é o caso dos empréstimos. Temos de apostar na formação, numa equipa jovem, mas com qualidade e com atletas que queiram mostrar serviço.

“Foi das vezes que mais ponderei e coloquei o clube acima de tudo”

E qual é o objetivo?

Apenas a manutenção. Conforme as coisas estão, neste momento nem se pode estar a pensar noutro tipo de objetivo e, mesmo assim, confiantes de que irá haver um regresso à normalidade possível.

Porque é que recentemente revelou a sua intenção de se recandidatar a um novo mandato quando por diversas vezes já manifestou a vontade de sair?

Se calhar foi das vezes que mais ponderei e coloquei o clube acima de tudo, não pela questão financeira, mas pelo momento que atualmente se vive. Temos projetos em andamento, temos substituições a fazer administrativamente, temos a pandemia e a saída do vice-presidente de hóquei em patins. Tudo isso levou-me a ponderar se seria a melhor altura para abandonar o clube, pois neste momento saía tranquilo e com sentido de missão cumprida.

No anúncio da recandidatura revelou que iria apresentar uma equipa mais nova, renovada e com novas ideias. O que se pode esperar?

Há aspetos da minha candidatura anterior, como o marketing, a publicidade ou a realização de eventos para angariação de fundos que não foram colocados em prática. Agora é preciso dar vida a tudo isso e a juventude de hoje, até pelo conhecimento que tem das novas tecnologias, pode ter um papel preponderante.

Com a aprovação dos novos estatutos os mandatos passam a três anos. Se for reeleito será o presidente à frente do clube no seu centenário. A data histórica será celebrada de forma diferente depois de vários anos a assinalar o aniversário praticamente com o hastear das bandeiras?

É evidente que sim e não podia ser de outra forma. Aliás. É minha intenção, caso seja reeleito, constituir o quanto antes uma comissão que se dedique exclusivamente à preparação do centenário do clube, que terá que contar com a atribuição dos emblemas de ouro, que há muito não são entregues aos associados.

Com as eleições à porta, quais são os desafios imediatos?

A prioridade deve passar por erradicar de vez esta pandemia. Enquanto existir não se poderá dar início a uma época dita normal. Depois a preocupação deve passar por tentar recuperar os atletas da formação que se perderam durante este período.

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