A hemorragia de “Boris”

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BORIS: – Sim, quem é?
MATT: – Sou eu, o primeiro-ministro. Posso?
BORIS: – Entre logo Matt, queria falar comigo?
MATT: – Sim primeiro-ministro. Há um assunto da agenda que precisa mesmo de ser decidido. Penso que não se pode adiar mais. É sobre Portugal e a Covid-19.
BORIS: – Certamente. Ainda por cima anda aí uma nova variante… como se chama? Você é Ministro da Saúde tem que saber isso!
MATT: – “Delta”, primeiro-ministro. Mas o que se passa com Portugal é que precisamos de tomar uma medida drástica, a meu ver. Existe uma hemorragia, se assim se pode chamar, do nosso povo para Portugal, mais precisamente para o Algarve. Isto em plena Primavera. O que será quando chegarmos ao Verão. Esta febre do Algarve.
BORIS: – Hemorragia? “What the hell are you talking about“?
MATT: – É como lhe digo primeiro-ministro. Os nossos cidadãos estão a sair aos milhares para o Algarve. Veja bem, em meados de maio num só dia, levantaram 20 voos e despejaram 5.500 ingleses em Portugal. Agora multiplique-se isso pelos dias até ao Verão. Veja no que isto vai dar. Aquilo vai parecer uma colónia inglesa.
BORIS: – Bom, isso já é há muito. Mas diga-me Matt… as autoridades de lá controlam de
facto a situação da Covid?
MATT: – Não me parece que controlem aquilo com muito rigor.
BORIS: – Não controlam? Por que diz isso?
MATT: – Lembra-se da final da Champions? Foi no Porto, a 2.ª cidade do país. O Governo disse que ia controlar a vinda de 20.000 apoiantes com a questão da “bolha” e o controlo foi nulo.
A rapaziada andava lá à vontade em tronco nu pelas ruas da cidade e fizeram grandes ajuntamentos na zona histórica. A polícia ficou a assistir impávida e serena. Foi confrangedor mesmo, primeiro-ministro. Veio nas televisões.
BORIS: – (pausa, e elevando a voz) – Farto-me de dizer que temos de acabar com esse turismo em massa para o Algarve. É intolerável.
– Ainda ontem me tornaram a ligar de França. O nosso embaixador. Ele tem tido contactos ao mais alto nível com a malta do turismo do Macron. Estão-me sempre a pressionar com isso.
– França tem praias fabulosas, a Riviera, Cote D’Azur, a duna maior da Europa… como se
chama…
MATT: – Arcachon.
BORIS: – Isso mesmo, Arcachon! Nunca lá estive mas dizem que tem imensa areia.
MATT: – De facto França tem praias de todos os tipos mas nada que se compare com as do Algarve. E depois os nossos “Brites” não fazem em França as selvajarias que fazem no Algarve e ainda por cima a cerveja é bem mais cara. O Algarve tem zonas que faz lembrar as nossas colónias em África, primeiro-ministro. É bom não esquecer. E depois tem aquele calor ameno, água suave e marisco. Tem ainda o golfe em condomínio fechado…
BORIS: – Já chega, já chega. O que é preciso é ter consciência que não podemos ignorar os franceses e o seu turismo. Eles são da maior importância para escoarmos os nossos produtos pelo Canal da Mancha. Não se esqueça disso.
São a nossa ponte terrestre para a Europa. A nossa atitude para com os franceses tem de ser muito mais próxima, está-me a seguir, Matt? O turismo nesta altura de crise é um patamar imediato para o consumismo. Temos de desviar o nosso povo para outros destinos.
MATT:– Sem dúvida, primeiro-ministro, é inquestionável.
BORIS: – Percebe para onde temos de orientar a nossa bússola? Agora invente qualquer
coisa!
BORIS: – (após silêncio) Diga-me … como estão os números da pandemia em Portugal?
MATT: – Bem aquilo está a aumentar de facto. Isto apesar de estarem a fazer uma boa campanha de vacinação. Mas os contágios estão efectivamente a aumentar.
BORIS: – Está a ver Matt (sorrindo).
MATT: Eles, de 1 para 2 de junho quase duplicaram o número de infectados. Cá também não está a correr muito bem. Sempre temos aquilo em Bolton a subir em flecha e…
BORIS: (interrompendo) – Deixe lá o que se passa aqui. Para este assunto, não interessa nada. Arranje-me uma solução para estancar a tal hemorragia para Portugal.
MATT: – Bem sendo assim temos de encaixar Portugal na zona amarela e torná-lo como país indesejável. Só vejo essa saída.
BORIS: – Humm…. se tiver que ser, para a
frente! E rápido.
MATT: Mas vai cair muito mal, primeiro-ministro. É muito pouco diplomático. Mandámos para lá aqueles “huligans” todos na final da Champions e agora fazemos uma coisa dessas? Tiramos-lhe o tapete debaixo dos pés e mandamos os nossos cidadãos virem para casa?
BORIS: – “ Do not worry, be happy” nunca ouviu dizer? Encare as coisas com naturalidade. Veja bem o P.M. português, o Costa, é um tipo bem disposto. Com ele está sempre tudo bem e nem vai reagir. Está mortinho por organizar em 2030 o campeonato do mundo com a Espanha. Por isso abriu os braços à Liga – “Costa is a good chap”! E depois nós somos Ingleses, não se esqueça. Temos arrojo e frontalidade! God save the queen. No tempo da Rainha Vitória pusemos a China a fumar ópio e invadimos-lhes os portos.
MATT: – Nós fizemos isso?
BORIS: – Ah, pois fizemos! Mas quem se lembra? E ainda agora metemos uns pozinhos na engrenagem chinesa em Hong Kong, sem ninguém dar por ela. Vai ver que os nossos jornais nem vão escrever uma linha sobre este assunto de Portugal. Como se nada fosse. Vamos ao que interessa… o que pensa fazer com os Portugueses?
MATT: – Talvez uma conferência de imprensa e estabelecer uma “deadline” para os nossos cidadãos virem embora do Algarve.
BORIS: Isso mesmo! Excelente ideia. Por isso o tenho no meu governo.
MATT: – Na conferência sempre posso dizer que é uma decisão muito difícil, muitíssimo ponderada, que nos custa muito… and so on .
BORIS: Jolly good! Até podemos dizer que a nível sanitário temos que nos proteger e dessa forma protegemos também os outros, não lhe parece?
MATT: – Sim claro. Isso tem toda a lógica, primeiro-ministro. Só não vê quem não quiser. E com esse conceito exaltamos os nossos laboratórios, está a ver… de forma científica e não política.

Mário Pessegueiro

BORIS: -Não vale a pena perder tempo nisso. A conferência de imprensa é o mais importante agora. E pensar nas nossas companhias de aviação.
– Vai ver que vão facturar mais em trazê-los de volta que daqui a dias ainda nos estão agradecidos. Exceto aquele esganiçado da Ryanair.
MATT: – por acaso… (dirigindo-se para a porta)
BORIS: – Olhe Matt, ao sair por favor chame-me a minha secretária.
SECRETÁRIA: – Sim …primeiro-ministro o que deseja?
BORIS: – Ligue-me ao embaixador francês e depois ao da Turquia. Right away please.

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