O passarito nu

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Enroscada no telheiro, a hera verdinha, colorida de manchas amarelas, não de velhas mas de viço, deixou cair um passarinho de corpito roxo, mal vestido de penugem, bico no ar, arrepiado de ter caído do ninho, desamparado, sem forças nem jeito de chamar a mãe. Ali ficou, almofadado por um tufo de relva, ao desígnio da sorte. O mais provável seria um gato comê-lo. Ou então um carreiro de formigas devorá-lo.
Abandonei o bichito ao deus-dará, já que a sabedoria popular me ensinou que não se devem apanhar os pássaros e voltar a pô-los no ninho porque a mãe enjeita. Volta e meia espreitava de longe o recém-nascido, com pena e curiosidade. Ouvia na ramada e nos arbustos por cima do tanque, misturados com o cantar sadio da água, os pios angustiados do pai ou da mãe, a rondar por ali. O passarinho, de tão nu, ainda não tinha identidade, não parecia pardal, nem pisco. Melro não era de certeza. Esses têm o bico amarelo e ostentam desde a nascença, com garbo, a marca da sua espécie.
Desde criança, aprendeu o meu ouvido a distinguir os pássaros pelo piar e pelo cantar de Primavera ou de Outono, de sol nascente ao sol poente. Aquele não me era familiar. Talvez a angústia lhe embargasse o grito, ao ponto de o fazer estranho.
De repente, o passarito que me parecia quase inerte e abandonado à morte, deu uns saltitos por milagre. À luz do sol vi a penugem do corpo e as asitas mais vestidas. A mãe desceu em flecha, de encontro ao filho, rodopiou várias vezes rente ao chão, transmitindo ao passarito a força necessária para o enfiar no ninho. Fiquei aliviada e pensativa.
De resto, é para mim um prazer observar e aprender com estes fenómenos e milagres da natureza. Naquela manhã, tinha ouvido na rádio, que mães abandonavam recém-nascidos nas maternidades, por não terem recursos para os criarem. Abandonar um filho, não o devolver ao ninho, ou deixá-lo morrer à míngua…deve ser dura a escolha.
A espécie humana parece ter menos miolos e coração mais duro que os bichos. A sociedade dos bichos parece mais humana. A ciência tem de rever a sua nomenclatura em termos de afectos.

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