A Doença dos Legionários trata-se de uma pneumonia atípica grave (taxa de mortalidade de 5-30%) causada pela bactéria Legionella pneumophila. É uma doença de notificação obrigatória (Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro de 2021 – consultar aqui).

Quais os sintomas?

Inicialmente o doente pode começar por apresentar anorexia (diminuição do apetite), mialgias (dores musculares generalizadas), cefaleias (dores de cabeça), e febre que pode atingir os 39 – 40,5ºC acompanhada de arrepios de frio. Outros sintomas comuns são a tosse não produtiva (seca), dor abdominal e diarreia.

Qual o período de incubação?

O período de incubação, isto é, o tempo que decorre entre a entrada do microorganismo no ser humano até este desenvolver o primeiro sintoma é de 2 a 10 dias, sendo considerados 14 dias para efeito de investigação epidemiológica pela Saúde Pública. 

Qual a forma de transmissão?

A transmissão da bactéria ocorre por via aérea, através da inalação de aerossóis contaminados com Legionella ou aspiração de gotículas contaminadas. Não ocorre transmissão através da ingestão de água. Já foram descritos casos de transmissão (provável) pessoa-a-pessoa, incluindo um caso associado ao surto ocorrido em Vila Franca de Xira em 2014. (Correia, et al., 2016 – consultar aqui)

Qual é o reservatório da bactéria Legionella?

A Legionella é uma bactéria ubiquitária em rios, lagos, ribeiros, nascentes, solos húmidos e águas subterrâneas. Também pode existir em reservatórios artificiais de água, criados pelo Homem, que aerossolizam a água:

  • chuveiros;
  • fontes ornamentais;
  • locais de lavagem automática de carros;
  • torres de arrefecimento;
  • ar condicionado;
  • torres de arrefecimento;
  • sistemas de distribuição de água;
  • condensadores;
  • hidromassagem;
  • instalações termais, saunas e jacuzzis, entre outros. 

Quais os fatores de risco?

Quando infetados por Legionella pneumophila, os grupos populacionais mais predispostos à infeção grave são:

  • Idade superior a 50 anos (Figura 1);
  • Sexo masculino;
  • Tabagismo;
  • Alcoolismo;
  • Diabetes;
  • Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica;
  • Imunossupressão, incluindo corticoterapia, transplante de órgãos, doença oncológica ou renal.

Qual a época do ano mais propícia à sua ocorrência?

Ao longo de todo o ano, mas mais frequentemente no verão e outono (quer para os casos isolados, quer na ocorrência de surtos) (Figura 2).

 

Evolução do número de casos de Doença dos Legionários no Agrupamento de Centros de Saúde de Aveiro Norte

Ano Doença dos Legionários no ACeS Aveiro Norte* n (%)
2015 0 (0,0)
2016 1 (12,5)
2017 2 (25,0)
2018 1 (12,5)
2019 2 (25,0)
2020 2 (25,0)
Total 8 (100,0)

 

Medidas Preventivas 

Quadro 2 – Identificação de equipamentos de risco e atitudes preventivas a serem adotadas para evitar casos de doença dos Legionários

Equipamento de risco Prevenção
Torres de arrefecimento
  • Acesso fácil ao seu interior para limpeza, remoção e desinfeção dos materiais;
  • Ser dotadas de dispositivos defletores que minimizem a libertação de aerossóis;
  • Ser submetidas a purgas regulares ao sistema;
  • Ser submetidas a um tratamento contínuo da água do processo com recurso a biocidas, inibidores de corrosão e incrustação;
  • Ser submetidas a uma limpeza e desinfeção regular dos equipamentos (frequência semestral);
  • Apresentar um programa de controlo da qualidade da água.
  Concentração de cloro residual livre: [0.5 mg/l – 2 mg/l].
Rede de água quente Temperatura: ≥ 50ºC (medição nos pontos de extremidade e circuito de retorno).

Limpeza e desinfeção periódica (frequência trimestral).

Rede de água fria Limpeza e desinfeção periódica (frequência anual).
Torneiras e chuveiros Limpeza e desinfeção periódica (frequência semestral).
Canalizações Características anticorrosivas e bom estado de conservação.
Evitar estagnação de água quente
  • Utilização de bombas de recirculação com temporizadores;
  • Efetuar purgas regulares à rede de água nos pontos de menor utilização (torneiras e chuveiros) e aos depósitos.
Depósitos de água quente Limpeza e desinfeção periódica (frequência semestral).
Depósitos de água fria Limpeza e desinfeção periódica (frequência anual).
 Existência de programa de controlo da qualidade da água nas redes prediais
 Vigência de um Programa de Controlo Analítico

 

Legislação

A Portaria n.º 25/2021 de 29 de janeiro estabelece a classificação do risco e as medidas mínimas a serem adotadas pelos responsáveis dos equipamentos, redes e sistemas, previstos no artigo 2.º da Lei n.º 52/2018, de 20 de agosto, em função da avaliação do risco de contaminação e disseminação da bactéria Legionella que decorra dos resultados analíticos apurados, no âmbito do programa de monitorização e tratamento da água.

Nas situações de risco elevado, de acordo com a classificação do risco fixada no anexo I da Portaria n.º 25/2021 , os responsáveis pelos equipamentos, redes e sistemas incluídos no âmbito de aplicação das alíneas a) e b) do n.º 1 do artigo 2.º da Lei n.º 52/2018, de 20 de agosto, na sua redação atual, comunicam à autoridade de saúde local, num prazo de 48 horas após conhecimento da situação, os resultados analíticos e as medidas adotadas, nos termos do disposto no artigo 9.º da Lei n.º 52/2018, de 20 de agosto, na sua redação atual. Esta comunicação deve incluir o preenchimento do formulário constante do anexo II da referida portaria, anexando cópia do respetivo boletim de análise.

Ver videograma sobre Legionella da Direção-Geral da Saúde – clicar aqui.

Referências Bibliográficas

  • Correia AM, Ferreira JS, Borges V, Nunes A, Gomes B, Capucho R, et al. Probable person-to-person transmission of Legionnaires’ Disease. N Engl J Med. 2016; 374:497-8. https://doi.org/10.1056/NEJMc1505356.
  • Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro de 2021. Diário da República n.º 19/2021, Série II de 2021-01-28. Disponível em https://dre.pt/application/conteudo/155575942.
  • Circular Normativa 06/DT de 22/04/04. Programa de Vigilância Epidemiológica Integrada da Doença dos Legionários: Investigação Epidemiológica. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2004.
  • Orientação n.º 020/2017 de 15/11/2017. Doença dos Legionários: Diagnóstico laboratorial de Doença dos Legionários e pesquisa de Legionella em amostras ambientais. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2017.
  • Orientação n.º 021/2017 de 15/11/2017. Doença dos Legionários: Vigilância e Investigação Epidemiológica. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2017.
  • European Centre for Disease Prevention and Control. Legionnaires’ disease – Annual Epidemiological Report for 2019. Stockholm: ECDC; 2021. Disponível em https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/legionnaires-disease-annual-epidemiological-report-2019.
  • Heymann DL. Control of Communicable Diseases – Manual, Legionellosis. 20º ed. Washington, DC: APHA; 2015. P. 334-337.
  • Lei n.º 52/2018. Diário da República n.º 159/2018, Série I de 2018-08-20. Disponível em https://dre.pt/application/conteudo/116108098.
  • Portaria n.º 25/2021 de 29 de janeiro. Diário da República n.º 20/2021, Série I de 2021-01-29. Disponível em https://dre.pt/application/conteudo/155732599.
Nome Clínico: Marie Domingues
Grupo Profissional: Médica 
Local de Trabalho: Unidade de Saúde Pública do ACeS Entre Douro e Vouga II – Aveiro Norte

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