“A intervenção contempla toda a área onde está inserido o palacete, encontrando-se em ponderação abranger os viveiros municipais, que poderão ser integrados no Turismo Industrial, adiantou o Município ao labor

 

Já é conhecido o vencedor do concurso de ideias para a instalação do Centro de Memória da Indústria no Palacete do Rei da Farinha.
Das três propostas recebidas, a selecionada foi apresentada pela CNLL Architecture. Dos cinco elementos do júri, que não inclui nenhum membro do executivo municipal, quatro escolheram a proposta que acabou por ser vencedora, tendo a votação decorrido sem que houvesse conhecimento da identidade dos concorrentes. Uma decisão que foi homologada a 9 de junho pelo presidente da câmara Jorge Sequeira. As propostas preteridas pertencem ao arquiteto Luis Henrique Gomes e à empresa OITOO, Lda.

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O trabalho escolhido “respeita a história do edifício, transpondo-o para o futuro e adequando-o à instalação do Centro de Memória da Indústria e à necessária e desejada revitalização desse espaço”, revela o Município, depois de ter sido questionado sobre o assunto pelo labor, adiantando que “a intervenção contempla toda a área onde está inserido o palacete, encontrando-se em ponderação abranger a área onde estão situados os viveiros municipais”. Ponderação essa que tem em vista “uma futura integração dos viveiros no circuito do Turismo Industrial”.
Depois da concretização do concurso de ideias, o Município seguirá com a elaboração do projeto de execução e o lançamento do concurso da intervenção de um dos edifícios mais históricos da cidade. Para já, “o que é possível adiantar é que o projeto de execução será adjudicado no atual mandato”, avançou o Município.
A intervenção de reabilitação do Palacete do Rei da Farinha tem “um valor estimado de cerca de 1.210.000 euros” que poderá contar com “uma eventual comparticipação comunitária”, disse o Município, assumindo que está a trabalhar
nesse sentido.

“A ideia da Casa da Memória sofreu um ‘upgrade’ que em muito valorizará a cidade e a sua história” 

A criação da Casa da Memória sobre a história de S. João da Madeira é uma das promessas que constava no programa eleitoral socialista apresentado nas eleições autárquicas de 2017. Ao longo do mandato, o executivo decidiu mudar o nome, de Casa da Memória para Centro de Memória da Indústria, e o conceito, mas manteve o local (Palacete do Rei da Farinha). “A nossa cidade deve a sua centralidade e desenvolvimento ao longo dos tempos ao seu forte cariz industrial”, por isso a alteração do nome tem como objetivo “criar uma simultaneidade entre a criação de um centro de memória e a devida homenagem à história da cidade, valorizando e promovendo o programa municipal de Turismo Industrial e aumentando a atratividade da cidade”, explica o Município. Em relação ao conceito pré concebido em 2017 e o desenvolvido ao longo deste mandato, no seu entender, “a ideia da Casa da Memória sofreu um ´upgrade´ que em muito valorizará a cidade e a sua história, sendo certo que grande parte da memória histórica do nosso concelho é uma memória industrial”. “O Centro de Memória da Indústria é, portanto, a concretização da proposta do programa eleitoral, dando foco a um aspeto central da nossa história”, concluiu o Município ao labor.

HISTÓRIA

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“´Manuel Nicolau da Costa´ não será um nome conhecido entre a generalidade da população de S. João da Madeira, mas o caso muda de figura quando, no mesmo contexto, a referência é ao chamado ´Rei da Farinha´. O primeiro nome representa o homem que no final do século XIX emigrou para o Brasil em busca de uma vida melhor e aí se dedicou às moagens, à produção de farinha, à gestão de barcos mercantes entre Belém e Manaus e ao comércio grossista de outros bens; a segunda expressão refere-se ao empresário que em 1938 de lá voltou rico e na sua terra natal passou a viver numa casa faustosa onde os pobres chegaram a fazer fila para dele receberem o pão e o chouriço de que se alimentaram durante os racionamentos da II Guerra Mundial – como rezam vários testemunhos orais recolhidos pelo Museu da Chapelaria. Habitável desde 1922, o Palacete do Rei da Farinha começou assim por ser a residência da família Nicolau da Costa, condição que se manteve durante várias décadas, mesmo após o desaparecimento do empresário em 1958, aos 78 anos de idade. A casa manteve-se depois como morada da sua esposa, Feliciana Ribbas Soares Costa, e só quando a senhora faleceu é que os inúmeros herdeiros de Manuel Nicolau – que não havia deixado filhos, mas, sendo o mais velho de oito irmãos, tinha inúmeros sobrinhos – decidiram vender ao Município os 16.000 metros quadrados da propriedade. Estava-se em 1985 e a compra custou então ao executivo de Manuel Cambra 42 mil contos. Instalar uma pousada no palacete foi uma das hipóteses consideradas quanto a possíveis utilizações do edifício, mas a escolha acabou por recair sobre uma instituição cultural cujo vínculo ao palacete se revelou de tal maneira forte que foi gradualmente apagando da memória coletiva a alusão ao ´Rei da Farinha´. Essa instituição era o Centro de Arte de S. João da Madeira, que iniciou a sua atividade a 16 de maio de 1986 e logo ocupou a casa de Manuel Nicolau. Ao longo dos anos, foi aí que essa entidade promoveu as principais exposições que passaram pelo Município, sempre no âmbito de uma programação que teve o cuidado de divulgar valores locais a par de artistas de reputação nacional e internacional e foi também aí que centenas de jovens receberam formação em áreas tão diversificadas quanto Pintura, Escultura, Gravura, Serigrafia, Desenho, Fotografia, Tapeçaria, Geometria Descritiva, Design Gráfico e Multimédia. Se a essa oferta se acrescentarem conferências, seminários, workshops e várias iniciativas dirigidas ao público escolar, não será surpreendente que o Palacete do Rei da Farinha, após décadas de atividade não correspondida em termos de manutenção da sua estrutura física, tenha atingido um estado de deterioração preocupante, com risco para a segurança do público que frequentava o local e para as obras de arte que aí se apreciavam. A recuperação do imóvel chegou em 2008. O Centro de Arte transferiu a sua atividade formativa para o Centro Coordenador de Transportes e a sua oferta expositiva para os Paços da Cultura, e a câmara municipal pode avançar para uma intervenção de restauro na antiga residência de Manuel Nicolau da Costa. Os trabalhos arrancaram em fevereiro de 2009 e centraram-se no exterior do palacete, onde se impunha travar a deterioração acelerada dos elementos arquitetónicos mais peculiares do edifício e onde havia o risco de se perderem definitivamente aspetos valiosos como os frisos de azulejo que decoram a casa com motivos florais em registo Arte Nova. Após uma intervenção que custou 225 mil euros, a aparência do Palacete do Rei da Farinha voltou assim a refletir a sua opulência passada, apreendida no tom pastel da pintura, na resgatada alvura da cantaria, no arranjo despojado do jardim e na firmeza dos corrimãos e balaústres dessa escadaria de disposição curvilínea que alguém tão adequadamente descreveu como ´cinematográfica´ que o adjetivo ainda hoje se associa aos seus históricos degraus”. *

*Fonte: Livro “S. João da Madeira
Património Municipal”, editado pela câmara
municipal a 11 de outubro de 2011

 

“AS PESSOAS AINDA HOJE ASSOCIAM O PALACETE AO CENTRO DE ARTE”

Recorde-se que o Centro de Arte (CA) de S. João da Madeira esteve instalado no Palacete do Rei da Farinha durante 22 anos, passou para as instalações provisórias da Casa das Associações nos cinco anos seguintes até ser instalado na Oliva Creative Factory em 2013. “O próprio edifício, tanto interior como exterior, motivava toda uma atmosfera artística. O próprio símbolo do CA é a representação de uma janela do palacete. As pessoas ainda hoje associam aquele edifício (Palacete da Quinta do Rei da Farinha) ao CA”, realçou Aníbal Lemos, professor, fotógrafo, investigador em Fotografia e novo diretor do CA de S. João da Madeira, em entrevista concedida em maio de 2020, ao labor.

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