Todas as peças que compramos têm uma história. A história de quem, quando e onde a fez. Uma história que se transforma em milhões delas que ficam por contar. Contar a história de um objeto produzido por uma indústria constituída por ene pessoas é o que está a ser feito pelo projeto “Interferências 1.0”.  Desenvolvido pelo Teatro da Didascália e desenhado pelo Museu do Calçado, Museu da Chapelaria e pela Casa da Criatividade, em parceria com a Divisão de Ação Social da Câmara Municipal de S. João da Madeira, no âmbito do Programa “Cultura para Todos”, cofinanciado pelo Portugal 2020, este projeto é dirigido a pessoas com origens e vivências diferentes e tem como objetivo levar a comunidade a ter um papel ativo em ações artísticas com base nas suas memórias, nas suas histórias. A visita performativa “Cada um sabe onde lhe aperta o seu sapato”, apresentada em maio no Museu do Calçado, foi a primeira de cinco “interferências” artísticas associadas a marcas de identidade de S. João da Madeira. Desde o dia 16 de julho que a peça “Invisíveis” da instalação artística de Cláudia Ribeiro, desenvolvida com o apoio de Vera Santos, pode ser visitada no Museu da Chapelaria.

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Até novembro continuará tal como está, em cima de uma máquina junto à imagem dos “Unhas Negras”, mas a ideia é criar uma aplicação que lhe permita ficar suspensa entre o teto e a máquina, ficando assim à vista as mãos que por enquanto permanecem invisíveis a não ser que o visitante procure por elas. Mãos essas que pertencem às pessoas que dedicaram muito do seu tempo à criação da peça que deu origem a esta instalação artística. Muitas dessas mãos carregaram a peça do exterior para o interior do Museu da Chapelaria durante a sua inauguração, sexta-feira passada, seguindo-se duas reposições no dia seguinte. Assim foi assinalado o processo de um mês de trabalho manual “difícil” e “minucioso” levado a cabo por várias pessoas que também ali deixaram as suas histórias sobre S. João da Madeira e outros países, explicou Vera Santos.

“Invisíveis” é “uma homenagem aos ´atores´ e ´atrizes´´ da indústria chapeleira”, considerou Joana Galhano, diretora do Museu da Chapelaria e do Calçado, dando como exemplo algumas das personagens que deram o corpo e a alma à confeção e à venda de chapéus, um dos objetos que colocou S. João da Madeira no mapa a nível nacional e internacional.

Personagens como as Recoveiras, que levavam os chapéus na cabeça, descalças, aos mercados de Ovar, Espinho e até Porto; os homens, que além do suor, sangue e lágrimas, ficavam com as unhas, e as mãos, todas negras e acabaram por ser apelidados de “Unhas Negras”, cuja história é retratada no romance com o mesmo nome pelo sanjoanense João da Silva Correia; e os homens de chapéu ilustrados no Museu da Chapelaria; foram “o ponto de partida para chegar à ideia do tapete”, explicou Cristina Ribeiro, à margem da inauguração, ao labor.

Um processo enriquecido pela pesquisa de fotografias e pelas entrevistas a empregados da indústria de chapelaria que, por momentos, deixaram de ser “invisíveis” e tornaram-se “visíveis” aos olhos de quem quis ouvir as suas histórias que são desde “maravilhosas” até de “arrepiar”, revelou a figurinista, para quem as mãos dos participantes assumiram o protagonismo na instalação artística em homenagem às mãos de tantas pessoas que dedicaram a sua vida à indústria chapeleira. “Interessa-me as mãos que criaram a peça”, “fotografadas e desenhadas” ao longo da criação do tapete que passou a ser “um corpo com memória”, deu a conhecer Cristina Ribeiro ao labor.

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A figurinista, que coordenou ao longo de 12 anos, o guarda-roupa do Teatro Nacional S. João, no Porto, é docente na ESMAE e na Escola Artística Soares dos Reis, onde eleciona várias disciplinas na área da Cenografia e da Tecnologia, e enquanto freelancer trabalha com diversas personalidades da área do teatro, música, ópera, ballet, televisão e cinema. No seu curriculo, conta ainda com muito trabalho com a comunidade, sendo “Invisíveis” o mais recentemente desenvolvido através do “Interferências 1.0”. “Um projeto muito interessante, próximo e pouco convencional”, descreveu Cristina Ribeiro, demonstrando estar visivelmente emocionada não só pela peça, mas sobretudo pelo trabalho desenvolvido com e pela comunidade. “A capacitação das pessoas em perceber a arte. Elas perceberem que este espaço é delas” porque “sem elas ele não existe”, concluiu Cláudia Ribeiro ao labor.

O livro “A minha vida foi um futuro, para toda a minha família” é parte integrante da instalção plástica “Invisíveis”, contendo desenhos das mãos, imagens e testemunhos dos seus participantes.

 

Vamos ter mais três “interferências”

Desde dezembro de 2020 até julho de 2022 vai ser desenvolvido um trabalho que levará à criação de cinco “interferências” artísticas em S. João da Madeira. Para além da visita performativa “Cada um sabe onde lhe aperta o seu sapato” no Museu do Calçado e da instalação artística “Invisíveis” no Museu do Calçado, que foram a primeira e a segunda, respetivamente, seguem-se mais três intervenções em diferentes espaços da cidade. A saber, na Casa da Criatividade (com período de criação entre agosto e novembro de 2021), na Oliva (com período de criação entre dezembro de 2021 e março de 2022) e na Praça Luís Ribeiro (com período de criação entre abril e julho de 2022).

“Memória Futura”

As cinco “interferências” vão integrar o circuito artístico e urbano “Memória Futura” que estará disponível através de QRCode em diferentes locais da cidade. O objetivo é que este formato digital também fique disponível em meios digitais para que S. João da Madeira chegue a todo o mundo.

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