“Aquilino no Feminino”, editado pela Unicepe, é o mais recente 

 

Como Miguel Veiga, um amigo e admirador, um dia lhe disse, “nunca ninguém escreveu tão bem e tão profundamente” sobre Aquilino Ribeiro. Manuel de Lima Bastos, de 81 anos, é “aquiliano de alma e coração” tendo escrito mais de uma dezena de livros, o equivalente a “cerca de 1.600 páginas”, sobre o romancista oriundo do Carregal da Tabosa, concelho de Sernancelhe.

Editada pela Unicepe – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, a sua obra mais recente intitula-se “Aquilino no Feminino”. O lançamento está previsto para setembro na Universidade Sénior Eugénio de Andrade (antiga Fundação Eugénio de Andrade), no Porto. Depois disso, e pelo menos para já, haverá uma outra sessão em Sernancelhe. Ambas as apresentações estarão a cargo do “confrade nas letras e velho amigo de há poucos anos” José Manuel Mendes a quem, aliás, a obra é dedicada.

Entretanto, o livro já pode ser adquirido através do email unicepe@net.novis.pt devendo os interessados indicar o nome para a dedicatória. O seu custo é de 18 euros. Para os associados da Unicepe é de 14,40 euros.

“Aquilino no Feminino” mostra-nos um outro Aquilino mais sentimental

Com “Aquilino no Feminino”, no qual trabalhou “à volta de 2.500 horas” durante o primeiro ano de pandemia, Manuel de Lima Bastos quis mostrar um Aquilino Ribeiro muito diferente daquele que os seus leitores conhecem. “Quis mostrar o fácies apaixonado, amoroso, de Aquilino porque quem conhece a sua biografia imagina que era um homem muito regrado e tão-somente um incansável obreiro da palavra”, contou o autor ao labor.

Aparte a época em que esteve casado com a alemã Grete Tiedemann (1913), o único amor da sua vida, e depois com Jerónima Dantas Machado (1929), “Aquilino Ribeiro primou sempre por uma conduta exemplar, digamos assim, embora aproveitasse certos períodos mais libertinos tendo sido um apaixonado bailarino da valsa a “trois temps” desfrutando da boémia das noites de Paris”.

1º Prémio num concurso de contos a nível nacional

À nossa reportagem, Manuel de Lima Bastos abriu não só as portas de sua casa, em Miramar, mas também o “livro” da sua vida. Natural de Fiães (Santa Maria da Feira), o escritor foi também advogado durante quase 40 anos, é casado e tem três filhos e sete netos.

A caminho dos 82 anos, que completará a 13 de janeiro de 2022, Manuel de Lima Bastos sempre preferiu as humanidades às ciências exatas. Aliás, ainda no 2º ano do liceu “teve uma professora que me mandava fazer composições que lia aos outros alunos”.

Depois, já no 6º ano e com 16 anos de idade, incentivado também por uma professora, participou num concurso de contos a nível nacional. Escreveu “um conto sobre os homens da Ria de Aveiro que ganhou o 1º prémio” e que lhe valeu “800 escudos, quantia apreciável para a época”.

Manuel de Lima Bastos ainda pensou pegar no dinheiro e comprar “um bilhete interrail para passear um mês pela Europa”, mas o pai trocou-lhe as voltas. O cheque serviu para pagar “a pensão e a despesa de ir para Braga”, onde Manuel de Lima Bastos tinha frequentado o internato anexo ao Liceu Sá de Miranda, para subir a nota a Alemão. “Lá consegui subir para 14 nessa língua horrorosa. E com isto obtive a média de 16,75 que me dispensava do exame de aptidão à universidade”, partilhou com o labor.

Seguiu-se a frequência da Universidade de Coimbra, para onde foi estudar Direito, porque “naquele tempo quem não sabia para que servia ia para Direito. O Direito dava para tudo”. Só que o 1º ano de faculdade “foi uma desgraça, um calvário” tendo chumbado por faltas por não ter conseguido conciliar as aulas com a sua paixão pelo teatro: “Entrei para o CITAC [Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra] que era o teatro experimental, modernista, vanguardista por comparação com o TEUC vocacionado para obras clássicas e vicentinas. Como os ensaios eram à noite, acabavam às duas, três ou quatro da manhã. Depois ainda íamos cear qualquer coisa. De modo que era raro chegar a casa antes das seis. Não tinha tempo para ir às aulas”.

Posteriormente o escritor ainda chegou a matricular-se em Lisboa mas, como confessou ao labor, “ainda hoje não sei onde fica a faculdade”. Começou a advogar no fim do verão de 1976 quando se demitiu da Caixa de Previdência de Aveiro à qual presidiu durante dois anos: “Vim em setembro para o escritório do meu patrono e padrinho, Dr. Alcides Strecht Monteiro, amigo íntimo de meu pai, que me convidou para sócio pois passava toda a semana em Lisboa como deputado na Assembleia da República”. Antes fundara uma empresa industrial, mas nessa época, casado e com dois filhos, decidiu enveredar pela advocacia.

“O meu pai intelectual é o Aquilino”

A paixão por Aquilino Ribeiro nasceu por culpa do pai, médico e apaixonado de sempre pelo escritor da Beira Alta. Manuel de Lima Bastos diz mesmo que tem dois pais: “Um foi o meu pai biológico, o outro foi meu pai intelectual. O meu pai intelectual é o Aquilino. A ambos devo, não só princípios e valores, como a inconformidade perante as injustiças do mundo”, asseverou ao nosso semanário.

Foi precisamente o seu pai biológico que, em janeiro de 1949, lhe ofereceu o livro “Cinco Reis de Gente”, da autoria de Aquilino Ribeiro, como prenda de anos. Manuel de Lima Bastos tinha nove anos e andava na terceira classe. “Li este livro e nunca mais parei de ler Aquilino”, ao ponto de, por exemplo, ter lido a obra “A Casa Grande de Romarigães” em 1957 e desde então continuar a lê-la todos os anos como se cumprisse um voto. De sorte como aconteceu com o Quixote de Cervantes a quem o juízo tresvariou com os livros de cavalaria. A partir daí nunca mais deixei de ler, reler e tresler Aquilino”, confessou.

Filho de Aquilino Ribeiro escreveu uma carta a Manuel de Lima Bastos

“À Sombra de Mestre Aquilino” foi o primeiro livro que Manuel de Lima Bastos escreveu sobre Aquilino Ribeiro com o qual, aliás, ganhou o Prémio Literário da Ordem dos Advogados de 2009. Recorde-se que no ano anterior o advogado e escritor Manuel Pereira da Costa, de S. João da Madeira, havia sido o laureado. Foi este primeiro livro que lhe deu a honra de receber uma carta de Aquilino Ribeiro Machado, o filho mais novo de Aquilino Ribeiro, a quem devotou a mais profunda amizade e que perdura ainda hoje. “Leu o meu livro e, sem eu saber, escreveu-me a carta” transcrita na contracapa de “Aquilino no Feminino”.

“Não trocava esta carta por nenhum prémio literário. Costumo dizer que ela é o meu “Prémio Nobel”. Não concebo honraria maior”, sublinhou.

Voltando ao “Aquilino no Feminino”, Manuel de Lima Bastos garantiu ao labor que, com esta obra, encerra a sua carreira literária. Esperemos sinceramente que não!

 

Bibliografia de Manuel de Lima Bastos

 

À Sombra de Mestre Aquilino (Prémio Literário da Ordem dos Advogados),

Princípia Editora, 2009, 1ª e 2ª edições

Itinerário da Vida de Um Homem Comum, Princípia Editora, 2009

Lírica Breve e Tardia, poemas, edição do autor fora do mercado, 2009

De Novo à Sombra de Mestre Aquilino, Princípia Editora, 2010

Na Luz da Sombra de Mestre Aquilino, Princípia Editora, 2011

Rumor no Bosque das Palavras, poemas, Tecto de Nuvens, 2011

No Esplendor da Sombra de Mestre Aquilino, Princípia Editora., 2011

O Albergue das Letras, ensaios heterodoxos, Princípia Editora, 2012

Os Amantes Clandestinos e Outras Inutilidades Poéticas, edição do autor, fora do mercado

À Sombra de Mestre Aquilino na Casa Grande de Romarigães, Princípia Editora, 2013

O Retrato de Aquilino I – Pintura Sobre Palavras, Princípia Editora, 2013, esgotado

Regresso a Romarigães na Sombra de Mestre Aquilino, Princípia Editora, 2014

Mestre Aquilino, a Caça e Uma Gaita Que Assobia, Princípia Editora, 2015

Mestre Aquilino Caçador e a Gaitinha do Capador, Princípia Editora, 2016,

O Anjo Refractário, conto, edição do autor fora do mercado, 2016

No Adeus à Sombra de Mestre Aquilino, Princípia Editora, 2017

O Retrato de Aquilino II – Pintura Sobre Palavras, Princípia Editora, 2017

À Mesa da Amante Fiel, Chiado Books, 2019

Aquilino no Feminino, Edições Unicepe, 2021

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