Por mero acaso foi descoberto um fóssil de uma pegada de dinossauro com 154 milhões de anos na Figueira da Foz, junto a um terreno onde estavam a decorrer trabalhos de movimentação de terras na encosta sul da Serra da Boa Viagem.

O sanjoanense Eduardo Leitão, de 46 anos, estava frustrado por não ter visto nenhuma pegada de dinossauro durante as férias até que no último dia foi surpreendido por uma pedra com o fóssil de 35 centímetros nela encastrado.

O seu interesse muito grande em geologia, aprofundado com a frequência de cursos e aulas online sobre a temática durante a pandemia, contribuiu para que tivesse a sensibilidade de estar atento a determinados pormenores que passariam despercebidos à maioria dos comuns mortais. “Fiquei surpreendido porque sabia que existiam pegadas, mas mais para o lado do mar e onde a descobri foi mais para a zona da Serra da Boa Viagem”, revelou Eduardo Leitão ao labor.

O sanjoanense não tardou em enviar as informações a amigos que tem na Figueira da Foz que conhecem o geólogo Pedro Callapez. Geólogo esse que dois dias depois estava no local com o paleontólogo José Soares Pinto da Universidade de Coimbra. “Pela fotografia perceberam logo que provavelmente era uma pegada e viram de imediato que era muito interessante”, contou Eduardo Leitão.

“Para mim o mais especial é o facto de obviamente me ter cruzado com a marca de um animal com 154 milhões de anos”, confessou o sanjoanense. “Mesmo especial também é que descobriram mais fósseis à volta. Inclusive mais pegadas, não tão bem preservadas como esta, alguns fósseis vegetais, um tronco de árvore fossilizado e vestígios da presença de sal que permite contextualizar o ambiente onde viveu aquele animal”, revelou Eduardo Leitão, que terá para sempre o seu nome associado à descoberta, ao labor.

“Não foi egoísta e teve interesse em partilhá-lo e torná-lo público. Outro teria levado (a pedra) para a sala lá de casa”

Em declarações à Agência Lusa, Vanda Santos, investigadora do Departamento de Geologia (Instituto D. Luiz) da Universidade de Lisboa e especialista em pegadas de dinossauro, acentuou o “reconhecimento” da comunidade científica para com quem encontrou o fóssil. “Não foi egoísta e teve interesse em partilhá-lo e torná-lo público. Outro teria levado (a pedra) para a sala lá de casa”, explicou Vanda Santos. Acerca da pegada fossilizada, onde são visíveis três garras, a investigadora considera que “o facto de ser bastante mais comprida do que larga, leva a pensar num (dinossauro) carnívoro” do período do Jurássico Superior. Na altura, há 154 milhões de anos, o que hoje é a encosta da Serra da Boa Viagem virada para a Figueira da Foz seria os meandros de cursos de água que atravessavam aquele local, o delta de um rio com vários canais, por onde os dinossauros se passeavam junto às margens, segundo os especialistas, esclarece a Agência Lusa. “Seriam quilómetros e quilómetros de uma extensa planície, daqui até à Galiza (Espanha), com águas pouco profundas”, expôs Vanda Santos.

Um fóssil “singular, que não se encontra todos os dias”

Questionado pela Agência Lusa sobre a zona onde foi encontrado o achado, o geólogo Pedro Callapez, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, clarificou que há 154 milhões de anos “só existia um bocadito do Atlântico Norte”, oceano que se começou a formar há 215 milhões de anos, “tipo ‘fecho eclair’, de norte para sul”. “Temos muita dificuldade em imaginar isso”, assumiu Pedro Callapez, exemplificando com a Terra Nova, no Canadá, hoje a cerca de 4.000 quilómetros do continente europeu, mas que, na altura em que os dinossauros se passeavam por aquilo que é hoje o continente português, estava “a poucas centenas de quilómetros”. “E não existiam os Alpes, os Pirinéus, muito menos a Serra da Boa Viagem. Não existiam relevos montanhosos pronunciados, a Serra da Boa Viagem não terá mais de 2,5 milhões de anos, formou-se quando a Península Ibérica foi comprimida contra o norte de África”, continuou Pedro Callapez. O geólogo, que é mestre em Geociências e doutorado em Paleontologia, descreve este como um fóssil “singular, que não se encontra todos os dias”, destacando-lhe a relevância científica, patrimonial, lúdico-turística e educativa, uma vez que, como sublinha, “quando se junta dinossauros a crianças, há logo um interesse acrescido”.

“Nada impede” a mudança de Lisboa para a Figueira da Foz

De acordo com a Agência Lusa, a pegada agora encontrada sucede a várias outras descobertas naquela região, nomeadamente identificadas na zona do Cabo Mondego, para onde está prevista a constituição do chamado Geopark do Atlântico.

Vanda Santos, Investigadora; Anabela e Fábio, donos do terreno; Eduardo Leitão, autor da descoberta; Carlos Monteiro, presidente da Câmara da Figueira da Foz; José Soares Pinto, Paleontólogo; e Pedro Callapez, Geólogo

Vanda Santos recorda o trabalho “pioneiro”, ali desenvolvido, no final do século XIX e início do século XX, por Jacinto Pedro Gomes, alertado por trabalhadores das minas “que diziam que havia fósseis curiosos na praia”. Fósseis estes que, como afirma a investigadora, acabariam removidos do local para assim sobreviverem à ação erosiva do mar e estão, desde então, no Museu Geológico de Lisboa. Uma situação que a  Câmara Municipal da Figueira da Foz pretende ver revertida. Do ponto de vista de Vanda Santos, que defende que o património geológico seja preservado no local onde é encontrado, neste caso e com os devidos cuidados, “nada impede” a mudança de Lisboa para a Figueira da Foz. “Podem vir ou não, é uma questão política de decisão”, conclui a investigadora à Agência Lusa.

A Figueira da Foz é conhecida pela riqueza e diversidade dos seus fósseis dos períodos Jurássico e Cretácico da Era Mesozoica, entre os quais se encontram pegadas e trilhos de dinossauros. Estas ocorrências centram-se no Cabo Mondego, em frente às instalações das antigas e desativadas minas de carvão e fábrica de cal hidráulica. Incluem as mais antigas referências a pegadas de dinossauro em Portugal, da autoria do naturalista Jacinto Pedro Gomes e publicadas, em 1916, pelos Serviços Geológicos de Portugal, segundo a Câmara Municipal da Figueira da Foz.

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