Os bancos

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Não é dos bancos que roubam que vou falar. Trata-se de bancos de jardim, de encosto, de ferro e madeira. Mal tratados pelo tempo, estavam a precisar de ser raspados e pintados. Aproveitei a estadia na aldeia, por uns dias, dos meus netos e netas para os ocupar em algo de útil e também para os educar na valorização do trabalho. Achei que era interessante a tarefa e senti-os entusiasmados.
Comprei lixa, tinta, pincéis e diluente, e tentei transmitir-lhes o pouco que sabia destes assuntos. Como boa empresária, ajustei com eles o salário e garanti-lhes toda a segurança no trabalho, apetrechando-os de avental até aos pés, luvas e máscaras.
Numa destas tardes de calor escaldante, com a água da mina a correr, tivemos a sorte de ser bafejados com uma brisa refrescante que afagava as copas das árvores que se erguiam no meio daquele reino de flores e verdura. Condições ideais para deitar mãos à obra. Começámos pelo primeiro banco. Eram três. O entusiasmo era tal que todos queriam, numa espécie de competição, mostrar o maior brio e esmero no trabalho. Foi sol de pouca dura, como também acontece a nós, adultos, em muitas ilusões e tarefas da vida. Ao fim de pouco tempo, o entusiasmo inicial foi lentamente esmorecendo, e todo aquele esfusiante empenho conseguiu, já a custo, levar apenas à pintura de um dos bancos.
Visivelmente cansados e um tanto desiludidos, sentaram-se no chão, desistindo dos outros dois. Tentando emendar e salvá-los do desânimo, atirei-me eu ao trabalho de pintar o segundo, sozinha. Com muito custo, levei a tarefa até ao fim. A segunda demão e a pintura do terceiro terão de esperar por outras mãos e outros dias de ânimo e entusiasmo.
Nem tudo foi em vão. Viveram-se momentos de partilha e alegria, dois bancos ficaram de cara lavada, e tudo isto motivou uma longa e salutar conversa sobre o trabalho manual e braçal, sobre a sua dureza, o seu valor e utilidade. Falámos também de salários, do justo salário que anda tão ofendido por esse mundo fora, e mesmo da necessidade de incluir tarefas deste e outros géneros nos currículos escolares.
Com toda esta simplista pedagogia e dialéctica, uma boa refrescadela com a mangueira, na ausência de piscina – nem só de piscina vive o homem – e uma bela merenda, saímos todos dali enriquecidos.

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