Retalhos da vida de um professor

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De regresso a casa, senti a música do rádio interrompida por uma chamada do jornal labor, comunicando-me que uma antiga aluna minha lhes tinha pedido encarecidamente o meu contacto, depois de ter lido qualquer texto meu nesse mesmo jornal. Há muito que nada sabia de mim e queria reencontrar-me. Não tardou a que eu recebesse um email deliciosamente generoso de afecto e dedicação que me deixou comovida. Pelo nome da aluna, Ana Margarida Abrantes, apercebi-me logo de quem se tratava. Não é fácil, só pelo nome, chegar ao reconhecimento de uma aluna ou um aluno entre milhares que me passaram pelas mãos. Pedi-lhe que me desse mais alguns pormenores a seu respeito, me referenciasse o ano e a turma, e de imediato consegui vê-la, ali à minha frente, com os seus olhos sempre atentos, a sua expressão precocemente responsável e séria, na terceira ou quarta fila da sala de aula. Apesar da memória já gasta, revisitei também, como num filme a preto e branco, mais um pequeno retalho da minha vida. Duas fotos que me enviou, do ano de 1989, uma delas a sós comigo, confirmaram o que momentos antes me tinha avivado e acariciado a lembrança. Todos os alunos me marcaram pelas mais diversas razões. A Ana marcou-me pela sua postura de atenção, de interesse, de sabedoria e também de humildade. Hoje é uma grande mestra, com um percurso académico invejável, com doutoramentos e bolsas de estudo na Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Dinamarca… e uma linguista ou filóloga com uma experiência de vida científica invulgar. Deu aulas em várias universidades, incluindo a Universidade Nova, sendo actualmente professora de Alemão na Universidade Católica em Lisboa. Na sequência de trocas de correspondência, enviou-me um livro da sua autoria, “Alemão – Uma língua para a Europa?”. É sobre esse livro, que li com muito interesse e agrado, que gostava de dizer algumas palavras. Trata-se de uma obra valiosa, muito bem escrita, numa linguagem muito profissional, mas muito simples, clara e entendível. Para além da erudição e do saber que revela, é um livro profundamente filosófico, cheio de humor e poesia. Constitui, a meu ver, uma motivação rara à aprendizagem da língua alemã. Acima de tudo, está bem patente o gosto que tem pelo estudo desta língua, gosto e amor que com ela partilho. Em sua opinião, o que muito me honra, fui eu quem lho transmitiu como professora, nos primeiros passos que deu comigo no que veio a ser o seu longo e prestigiado caminho.

Licenciei-me em Filologia Germânica por mero acaso. Tinha jeito para as línguas, mas gostava mais das ciências e era francamente melhor nesse campo. A vida não é mais do que uma sucessão de meros acasos que determinam o caminho de todos nós. Quanto ao meu, não me arrependo de o ter seguido. A língua é também uma ciência. Sobretudo nos dias de hoje, com o impressionante avanço das neurociências, é mais do que reconhecida a profunda interligação da ciência com as mais diversas humanidades. Saber uma língua cientificamente, de forma oral ou escrita, é saber usá-la como veículo de comunicação social, desde a comunicação mais comum a toda a comunicação emocional, sentimental e artística. É entender a sua história e a sua razão de existir, o seu valor no conhecimento e cultura de um povo bem como o seu papel no mundo. A língua alemã é francamente difícil, mas como a Ana dá a entender, o melhor caminho para a dominar é atenção, motivação e predisposição emocional, deixando que o cérebro, na sua magnífica e surpreendente neuro-plasticidade actue da única maneira que conhece, aprendendo e guardando. A língua alemã é muito lógica, cerebral, mas apesar dessa rigidez, o desafio da sua aprendizagem é aliciante e emocionante, levando a apreciá-la na sua beleza escondida. Não será por acaso que é a língua de uma infinda fileira de poetas como Goethe, Hölderlin, Schiller, Heine, de filósofos como Marx e Engels entre tantos outros, de pedagogos como Fröbel, o pai do jardim de infância, de compositores sem fim como Beethoven, Schumann, Brahms, Bach, Mendelssohn, Wagner e tantos mais.

De uma forma muito simples e metafórica, a Ana tenta desmontar essas dificuldades que vão desde a complexidade dos géneros onde o sol é a sol, a lua é o lua, e a rapariga é neutra, passando pelas quatro declinações do nome, do adjectivo, dos determinantes, dos pronomes, até à construção da frase com o verbo frequentemente no fim, e à alteração do sentido das palavras, dada pelos sufixos e prefixos, até à composição de frases como Donaudampfschifffahrtsgesellschaftskapitän, que eu, curiosamente, escrevia sempre no quadro no primeiro dia de aulas, por brincadeira, quando iniciava o estudo dessa língua com uma turma. É muito bela e muito sábia a forma como a Ana suaviza a dificuldade da aprendizagem desta riquíssima língua, usando comparações com galáxias novas, com parques, jardins e pinturas. Pela forma como este livro está escrito, adivinho-a uma excelente professora. A motivação é a pedra de toque para a aprendizagem, e a Ana Margarida tem esse dom mágico de a saber criar.

Tenho muito orgulho em ti. Parabéns, minha querida aluna.

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