O Acampamento

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Há muitos, muitos anos, meti-me em aventuras de que hoje me orgulho e que me deixaram lindas e saudosas memórias. “Admiro-lhe a coragem” – disse-me o Governador Civil de Aveiro, quando, um dia, me passou um passaporte colectivo para cerca de cinquenta alunos, todos menores, com o m de fazerem uma viagem de autocarro por essa Europa fora, sob a minha tutela. Alimentavam-me, então, o sonho e o entusiasmo de alguma juventude, o amor à arte do ensino e a solidariedade de alguém que pensava em sintonia comigo.

Hoje, perto dos oitenta anos, devia ter mais prudência e talvez mais juízo. Quando a minha neta mais velha me pediu para acampar com parte da sua turma no campo do meio da nossa casa das Figueiras, na aldeia, fiquei em pânico, apesar de querer muito fazer-lhe a vontade. “É apenas uma noite e eu sou responsável, Avó.” Eu sei que ela é de facto responsável, apesar dos seus verdes dezasseis anos, que ela gostaria de festejar dessa maneira, já que a pandemia não permitia outra. Estariam ao ar livre e todos com o teste do maldito vírus realizado.

O pai de um dos rapazes do grupo, que à chegada, descobrimos ter sido meu aluno, bem como o seu sogro, veio logo de manhã montar uma tenda enorme. Senti que ficou sossegado porque achava que o lho cava bem entregue. A mãe de uma outra menina tinha sido minha aluna, a de outra frequentou a escola quando eu era professora e a tia de outra também tinha sido minha aluna. O sossego que, pelos vistos, inspirava à família ainda mais carregava a responsabilidade que tinha sobre os ombros. Todos queriam ter a certeza de que os lhos cavam bem entregues e com a presença de algum adulto em quem pudessem confiar. Levei comigo a minha empregada e amiga, pondo também de sobreaviso pessoas amigas que por lá trabalham e comigo convivem.

É óbvio que não preguei olho a noite inteira, bem como a pobre da empregada que nem sequer chegou a ir à cama. Muito discretamente por lá os foi observando sem dar a entender que os vigiava. Entretanto ia- -me dando conhecimento do que se passava.

Felizmente correu tudo bem. Fizeram no “ervado” em cima de liteiros o seu pique- nique, sem tocarem em nada do que era da casa, apesar de terem tudo ao dispor, água, sumos, leite, queijo, bolo, chocolates, fruta. Queriam mostrar a sua autonomia e independência. De nada se serviram do interior da casa, para além de um quarto de banho no rés-do-chão e da mesa de pingue-pongue. Por lá se divertiram, correndo e saltando através dos campos, pelas eiras, canastros, pátios e caramanchão. Faziam questão de não dormir para ver nascer o sol no cume da serra mais negra do que a própria noite. Porém,

o cansaço venceu as forças e pelo raiar da madrugada esqueceram o sol e por lá se aninharam embrulhados em sacos-cama, uns na tenda, outros debaixo do telheiro protegidos pelo terraço. A noite estava fria e húmida e, com eles já bem entrados no sono, lá fomos cobrindo com mantas os mais desprotegidos. Por volta das dez da manhã, começaram os telefonemas dos pais a avisarem que os vinham buscar. Acordaram estremunhados. Atrevi-me então a ir ter com eles ao campo, a m de lhes ver melhor a cara e de saber os nomes. Perguntei-lhes se gostaram da aventura. Pareceu-me que sim.

Outrora, no tempo da nossa mãe, a natureza ali estava cuidada, com ramadas cheias de uvas, campos bem tratados onde havia de tudo. Dois jornaleiros diários, grandes amigos que recordamos com saudade, faziam daquele recanto um jardim. Hoje é um ervado com heras a cobrir arbustos e tanques, com as ramadas quase depenadas, mas onde a verdura e as cores da natureza e a cadenciada música do cantar da água da bica da mina ainda oferecem um ambiente idílico de calma e beleza. “Aqui não há piscinas”, disse eu, “nem requintes das casas modernas, mas espero que tenham usufruído do bucolismo”. Pela surpresa que a palavra causou, percebi que não sabiam o que significava. Olharam uns para os outros a ver se alguém os livrava de uma certa vergonha. A minha neta foi por eles interpelada e respondeu que não sabia, mas que provavelmente teria a ver com o verbo falar. “Estás talvez a confundir com laconismo. Bucólico é o mesmo que campestre”, expliquei eu.

Havia que desmontar a tenda. De novo o meu antigo aluno se atirou ao trabalho. Estavam todos tão atordoados que pratica- mente o fez sozinho com a ajuda da esposa e da empregada. O campo ficou limpo e tudo foi deixado impecável. Todos muito educados e responsáveis. Com a tenda desfeita, lá se desfez também o sonho que aquela dezena de jovens trazia na cabeça há muito tempo.

Foram todos entregues aos pais. Alguns com roupas menos adequadas ao campo, mostravam alguma preocupação com as sapatilhas de marca ou as calças esverdeadas, sujas da erva ou da terra batida, mas a água lava tudo.

Regressei aliviada. Quanto a elas e eles, espero que lhes tenha ficado alguma coisa boa na memória. Pelo menos aprenderam uma nova palavra – bucolismo – e muito concretamente, o que ela significa.

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