O cheiro da cidade

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Vem de fora, vem de dentro, no abrir das portas, no descobrir das montras, no começo do dia, na força das vendas ou no vazio das lojas, nas horas da tarde e da noite, horas incertas de gente à pinha ou de ninguém. O cheiro adocicado dos bolos cobertos de açúcar e baunilha, das natas pintalgadas de canela, dos pastéis mais variados, do pão torrado.
Cheiro a Oriente, a café, a cacau e a chá, ao molho das francesinhas, cheiro a cravo, noz-moscada, pimenta e mostarda, cheiro a Norte vindo da Galiza, a presunto e a cerveja, cheiro a estrugido, cheiro a Sul a saber a Alentejo, cheiro a Ocidente vindo do mar e do rio, a bacalhau e a sardinha assada.
Cheiro a roupa nova do escaparate, a pano e a couro, cheiro de gente a arrastar vestes pelo chão ou a corpo perfumado de juventude, quase nua, cheiro a mofo dos sem-abrigo, cheiro a caro e a barato, cheiro a música de rua, cheiro ao ritmo da cidade no vaivém da vida ao sabor do tempo.
Cheiro a leite, a legumes e fruta, a lembrança do campo, da horta, da terra lavrada, do gado e das gentes que a trabalham.
Cheiro também a lixo, a desacerto entre a riqueza e a miséria, a caixotes remexidos por mãos famintas que procuram restos da cidade despejada.
Cheiro a Primavera, cheiro ao tempo de menina, cheiro a nevoeiro e ao fumo das castanhas assadas do Outono da vida.
Majestosa coreografia da saudade, desenhada nos cheiros doces e amargos do realismo poético, enigmático e simbólico da invicta cidade.

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