Nem Sempre o que Parece…É.

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O resultado das eleições em S. João da Madeira do passado domingo merece alguma análise e reflexão, pois nem sempre “o que parece…é”.

Sem prejudicar a continuidade de uma maioria absoluta confortável em todos os órgãos autárquicos, o PS perdeu um vereador na Câmara Municipal em favor da coligação PSD/CDS/IL e perdeu um deputado na Assembleia Municipal em favor do Bloco de Esquerda.

Todos os demais mandatos se mantiveram inalterados, para todos os partidos concorrentes, face às eleições de 2017.

Na Assembleia de Freguesia os resultados não são comparáveis porque houve uma forte redução do número de mandatos (agora são apenas 13 lugares) o que fez com que os lugares se dividissem em 7 para o PS e 6 para a Coligação PSD/CDS/IL.

À primeira vista poder-se-ia dizer que a coligação liderada pelo PSD “retirou” um vereador ao PS. Mas isso não é verdade. A coligação ganhou um vereador exclusivamente por causa das subidas de percentagem obtidas pela CDU e pelo Bloco de Esquerda com a correspondente redução da percentagem do PS.

Em 2021 face a 2017, nos resultados para a Câmara Municipal, a coligação PSD/CDS/IL desceu 0,2% (de 32,33% para 32,13%), ficando praticamente com a mesma proporção para a atribuição de mandatos; o PS desceu 3,77% (de 55,37% para 51,6%), a CDU subiu 0,55% (de 4,02% para 4,57%) e o Bloco de Esquerda subiu 1,44% (de 2,41% para 3,85%).

Note-se mesmo que, das 4 formações concorrentes, apenas a CDU (com menos 2 votos) e o Bloco de Esquerda (com mais 106 votos) subiram as suas percentagens na votação para a Câmara Municipal, apesar de terem votado menos 1.795 pessoas.

Estes números dizem-nos, sem qualquer dúvida, que aquilo que provocou a perda de um vereador pelo PS foi a subida percentual do Bloco de Esquerda e da CDU, com a correspondente e direta redução percentagem obtida pelo partido maioritário.

Esta transferência de praticamente 2% dos votos do PS para a sua esquerda, e a manutenção da coligação PSD/CDS/IL praticamente com a mesma percentagem, provocaram uma alteração da proporcionalidade entre o PS e a coligação de direita, em favor desta última. Como os mandatos são atribuídos pelo método proporcional, isso foi determinante para que o sétimo mandato na Câmara Municipal fosse atribuído ao PSD criando o resultado de 4-3 (e não ao BE, pois este partido, apesar da subida, não conseguiu votos suficientes para atingir o limiar mínimo de entrada).

É precisamente esta mesma razão que fez com que, na Assembleia Municipal, um deputado do PS tivesse sido transferido para o Bloco de Esquerda.

Ou seja, quem ofereceu ao PSD um mandato a mais na Câmara Municipal foi o resultado eleitoral do Bloco de Esquerda. Na Assembleia Municipal, como há mais mandatos e o limiar de entrada é muito mais baixo, o Bloco conseguiu que o mandato retirado ao PS fosse para si próprio.

Esta análise é importante porque os responsáveis do PSD/CDS começaram a dizer que “conseguiram retirar um mandato ao PS” e que isso “é um aviso à maioria”. Estes estão a fazer mera propaganda e a enganar quem os ouve, porque o PSD/CDS limitou-se a ficar na mesma e a receber o proveito de uma subida da esquerda e diluição do PS.

Aliás, é para mim surpreendente, até, que a Coligação PSD/CDS/IL não tenha conseguido aumentar o seu peso eleitoral nestas eleições em S. João da Madeira nem tenha subido a sua aceitação popular percentual (até baixou 0,2%).

Tal surpresa deriva de várias circunstâncias que, a meu ver, exigiriam a João Almeida e sua equipa um resultado muito melhor do que o obtido por Paulo Cavaleiro há quatro anos:

– O Dr. Paulo Cavaleiro candidatou-se num contexto muito difícil para ele, na altura vereador desgastado e com o PSD dividido pelo processo de escolha do candidato e pelo conflito com Ricardo Figueiredo, sendo que este e os outros dois vereadores da sua equipa apoiaram (ainda que tacitamente ou por “sinais”) o Dr. Jorge Sequeira. Também não se pode dizer que fosse uma figura tão atrativa como a do Dr. João Almeida;

– Por sua vez, o Dr. João Almeida tinha tudo a seu favor em comparação com o antecessor. Figura nacional de destaque na direita, ex-membro do Governo, Deputado em funções e candidato a líder do seu partido, apoiado na campanha pela deslocação a S. João da Madeira das Jornadas Parlamentares do CDS (com a presença do líder do partido), e ainda de Paulo Portas, de Marques Mendes, de Castro Almeida e de Cotrim Figueiredo. Todos lhe reconhecem (até eu) características de pessoa muito amável, cordata, educada, séria e com capacidade de intervenção pública.

Mas, afinal de contas, nem a proposta política do PSD foi reforçada nem o Dr. João Almeida conseguiu uma validação popular superior à do Dr. Paulo Cavaleiro. Bem pelo contrário, a percentagem de sanjoanenses que confiou nele foi até inferior (em 0,2%) do que aqueles que confiaram em Paulo Cavaleiro.

É curioso notar o paradoxo: o Dr. João Almeida tem uma performance pior do que o Dr. Paulo Cavaleiro ao nível do voto, mas nos caprichos do método de distribuição de mandatos para a Câmara recebe mais um vereador do que o antecessor.

Ficou, assim, disfarçado o insucesso, parecendo até que este resultado é melhor. Tira-se uma conclusão: o Dr. Paulo Cavaleiro é um homem com azar e o Dr. João Almeida é um homem de sorte.

Ficamos a aguardar para saber se vai ocupar o lugar de vereador que os sanjoanenses lhe confiaram ou se vai fazer como da outra vez…

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