O Cheiro

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Vem no ventre da madrugada, no nascer do sol, na força do dia, na fraqueza do entardecer. Vem no vento e na chuva, na brisa, na luz e na sombra, vem sorrateiro, sem pés, de nada vestido, a cortar o ar, a penetrar em tudo, a saber a vida, a dar alento à saudade.

Vem da casca do marmelo cozida, do fresco da tangerina nos caminhos da escola. Sai da boca da chaminé a vinho fervido, açúcar e canela, a ceia ao lume, a bacalhoada na escudela, cheiro de mimosas tão doce como o das rosas.

A madressilva, a cidreira e erva-doce, a gardénia em lapela de noivo, glicínias e feno, seiva de Páscoa. Do jasmim, alfazema e alecrim, dos goivos e lírios em asas de borboleta, da arruda azeda a espantar o mau-olhado. A folha de eucalipto e a resina em lufadas frescas.

Vem do mosto no lagar, cheirinho a barrela e a maçãs. Vem do palheiro a bandeiras de milho, da eira a praganas da ventaneira, do forno a broa cozida.

E também a estrume de gado fumegando nos campos lavrados, e a roupa lavada a corar na erva molhada com cheiro de sol.

Sobe do rio a cheirar a frio, a água da fonte, a tojo do monte e giesta amarela. Sai do curral a leite macio, a lã tosquiada, a pasto remoído, a galinha depenada, a canja fervida, a samagulos ao lume no crepitar das achas na fogueira aberta à lareira. Vem do pátio a porco chamuscado.

Cheiro a criança no esmorecer da tarde. Bem fundo arranha a saudade. À noitinha, no fim da estiagem, o odor intenso da beladona. Amaryllis, de nome meninas-prà-escola.

It made me lonely and it made me sad That Amaryllis had grown old.

Tão só e tão triste Amaryllis envelheceu.

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