Nunca ninguém sabe muito bem como começar um texto destes, parece que embora estas situações sejam inevitáveis, nada nos prepara para as enfrentar. E embora não estejamos preparados para enfrentar o que nos cabe, e exista uma diferença entre ter que o fazer e realmente tentar, há pessoas pelas quais vale a pena tentar.

Serás sempre alguém por quem vale a pena tentar, avô. E estou um pouquinho mais nervosa do que naquele teu aniversário em que te apenas dei um desenho. Perguntaste-me “porque achas que não iria gostar? Foste tu que mo deste.” Espero que gostes deste simples “desenho” também.

Em tempos disseste-me para escolher as minhas pessoas, que o mundo não seria justo. Para manter os amigos por perto, mas os inimigos mais perto ainda. Tinhas razão, o mundo não é justo. Por isso me ensinaste a escapar deste e a viajar para um melhor. Muitos de certeza estão neste momento a pensar na música… todos sabemos a importância que teve para ele e a maneira como serve de orientação para muitos de nós. E de certa forma permite-nos escapar realmente… as noites musicais que ele teve o prazer de nos proporcionar permanecerão. Os seus dedos a dedilhar as cordas da sua viola e a voz que me fazia sempre perguntar “é o avô a cantar?” permanecerão.

Mas estou a referir-me a talvez a maior conexão que guardarei com ele. Ele, os livros e eu. Nós e os livros. Os livros e nós. Todos dizem que ele tem uma biblioteca em casa e todos perguntam se ele já lera todos os livros. Não sou diferente, por isso fiz-lhe esta exata pergunta. Ele respondeu-me “esta vida não é suficiente para ler todos os livros que queres”.

Continuo a aprender com ele a construir a minha biblioteca e por isso te agradeço, avô. Por isso e por tudo o que fizeste por mim e por todas as pessoas que têm algo por que te agradecer.

Obrigada desde o momento em que tiveste medo de me segurar nos teus braços e de me deixar cair, até à última vez que me disseste para pousar o telemóvel e para ter juízo. Prometo que pousarei o telemóvel e que tentarei ter juízo. Diria isso para o mundo, mas o nosso mundo chega.

Espero que possas agora ler todos os livros que te faltavam e que tenhas reencontrado o nosso Dinis. Espera por nós. Sentiremos mais a tua falta do que o que possas pensar.

Amo-te.

Para sempre com orgulho, a tua Pequerrucha

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