A cor do sonho

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A tarde ameaçava rasgar-se em trovoada. Sobre a serra pesava um capacete de nuvens negras deixando o sol esgueirar-se por trás, numa luta entre a sombra e a luz.

Abri o portão e, por entre a verdura, atraiu-me o olhar um tufo de flores cor de sardinheira, um rosa forte luminoso. Lembrei-me do sonho da véspera.

-Que estranho! Sonhei com uma taça de rosas entre a erva, rosas desta cor!

Pensei naquela imagem toda a tarde e na singular coincidência do sonho.

De repente, ao longe, ouviram-se os primeiros rugidos ainda surdos da trovoada. O ar estava húmido e a pele colava-se à roupa. A respiração era abafada pela atmosfera densa e pesada. Flamejaram os primeiros raios, ziguezagueando pela serra de lés-a-lés. Os trovões aproximaram-se lentamente, ribombando cada vez mais fortes.

Os melros deixaram os campos, empoleirando-se nas árvores de copas mais fechadas. Toda a passarada procurou abrigo.

O céu de chumbo abriu-se e despejou sobre a terra grossas cordas de chuva fustigando as árvores e inundando os campos. Toda a tarde as nuvens se desfizeram em água.

Recordei Rilkee a charneca. Die Heidee a força da sua natureza.

Recordei a senhora que morreu assombrada por um raio à saída da missa, junto à porta da igreja. E a outra que ficou com a volta de ouro derretida e enterrada no pescoço e que morreu mais tarde. Saltaram à memória o medo da trovoada quando era pequena, as rezas a Stª Bárbara Virgem, todos os mistérios do desconhecido.

A chuva parou e o sol espreitou. Voltou mais débil. Aproximava-se o fim da tarde. Ainda havia tempo de colher algumas flores por ali à solta para enfeitar a jarra no quarto da mãe. Tem sempre flores frescas e hastes de verdura colhidas ao acaso. Como ela gostava.

Calquei a erva velha e rija dos campos empapados, senti o frio da água nos buracos das sandálias. Quando era criança, muito gostava de chapinhar nas poças de água!

Pensei de novo no sonho. E no tempo. Passado, presente, futuro. Não. O tempo é só um, uma linha única, contínua, ininterrupta, apenas rompida por um golpe final… que leva o tempo para outros tempos.

Apanhei uma rosa solta de Stª Teresinha, uma campânula da mesma cor, heras com gotas brilhantes de chuva e umas delicadas hastes de esparvo.

O rosa das flores era muito pálido, sobressaindo suavemente no meio do verde. Não tinha a cor do sonho nem talvez a cor do tempo.

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