Do período da Renascença até ao Contemporâneo

Foi ao som dos metais que se deu seguimento ao AcáMúsica, ciclo de concertos da Academia de Música de S. João da Madeira.

Ao Quinteto de Metais do Conservatório de Música do Porto, constituído pelos músicos Rui Brito e Manuel Luís Azevedo (trompete), Gil Lopes (trompa), Alcides Paiva (trombone) e Avelino Ramos (tuba), todos eles com carreiras de referência, tanto na docência como enquanto artistas, juntou-se ainda Mário Azevedo, distinto orador que acompanha toda a programação do AcáMúsica e professor na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo do Porto.

“O auditório Marília Rocha encheu com um público muito entusiasta e constituído por pessoas de todas as idades, respondendo, assim, ao espírito da iniciativa que integra na sua programação um caráter pedagógico, para além de música eclética mas de grande qualidade”, deu a conhecer Joana Raposo, diretora da Academia de Música, sobre este concerto onde “revisitámos a História da Música, desde o período da Renascença aos dias de hoje”.

Nesta verdadeira “viagem no tempo” foi possível “observar e sentir as nossas próprias condições de escuta, de interpretação e de criação em torno do que sabemos e do que ainda não sabemos”, revelou Joana Raposo, explicando, de seguida, cada um dos momentos vivenciados no auditório da Academia de Música.

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“Para o período da Renascença (1450-1600), o quinteto apresentou-nos obras de William Byrd e Tielman Susato. Ambos os compositores envolvidos na captura do humanismo renascentista que faz afastar o artesão do artista e eleva este à condição de criador inventivo. Foi neste período que nasceram as sociedades estéticas no seio da aristocracia e é assim que a arte passa a ser vista, enquanto fazer sabendoe não como uma mera utilização do saber fazer”. Já na ilustração do “período Barroco (1600-1750), de Jean-Joseph Mouret a Johann Sebastian Bach, damos conta do avanço dos valores estéticos aqui dirigidos a uma sociedade aristocrática que aposta na dignidade crescente da música, enquanto fator de distinção social, etiquetado pela expressão: diz-me o que ouves e eu dir-te-ei quem és!Ao mesmo tempo, importa dizer que o barroco não é uma essência. É, sobretudo, a potência de uma expressão que se afirma pela sua intensidade e que nos permite ouvir os sons não só pela luz que irradiam, mas também pela sombra que os envolve”. Quando “chegados ao período Clássico (1750-1810), o grupo de metais destaca Joseph Haydn – o compositor que gostaria que toda a sua música fosse ouvida e cantada no mundo inteiro – permitindo-nos observar a emergência de um fazer musical apostado em reivindicar os valores do equilíbrio, da simetria e da harmonia sonora. A sua procura inventiva destinou-se a afirmar que todos os objetos sonoros deveriam ascender sempre à condição de eternidade. Isso coloca-nos perante a ideia de que uma obra clássica será sempre aquela que nunca será esquecida e que será objeto permanente de leituras muito variadas. O período Clássico torna-se, por isso, numa espécie de charneira de um livro inteiro dedicado à música”. Na entrada do “período Romântico (1810-1910), entre Georges Bizet e Richard Wagner, acontece a reivindicação da liberdade criativa e da emancipação social dos artistas. O romantismo esforça-se por afirmar que a arte é a verdade mais genuína da vida e é o tempo e o espaço dedicados à metáfora sonora e à interpretação singular de narrativas que se abrem ao mundo. É este o tempo em que o valor do progresso insufla mudanças capitais na sociedade, na economia e na política e é este o tempo em que os artistas se arrojam por caminhos rebeldes e pródigos em aventuras inusitadas. Basta ouvir Bizet e Wagner para lhes sentir a óbvia diferença de personalidades criativas e o Quinteto de Metais, caracterizou este efeito tão singular e distintivo, de forma sublime”. Por último, no “período Contemporâneo (1910-…) o quinteto escolheu obras dos compositores Victor Eward e Richard Roblee. Com este período, já demasiado longo, aproximamo-nos da expressão atual de expor a música, aqui comprometida com a ideia de legitimar a potência da criação em abertoao mundo dos sons e em aspirar à descoberta de novos territórios sonoros. Não haverá tempo como este tão disposto à disrupção, à aventura e à livre circulação de eventos sonoros tão variados como a vida que temos no acento agudo do presente. Será esta música aquela que é mais exigente para o ouvinte, hoje? Ou será que é a exigência dos recetores que a coloca em marcha, sobretudo para dela podermos dizer que ser contemporâneo é ter um pé no presente e o outro num outro tempo, seja ele passado ou futuro?”. A diretora da Academia de Música sanjoanense realça ainda a “mestria” deste quinteto de sopros que permitiu a cada um dos espectadores fazer a “leitura sonora dos diferentes períodos da história da música”.

Ensemble ECCO atua dia 5 de dezembro

O próximo concerto do AcáMúsica será no dia 5 de dezembro, pelas 11h00, e terá como intérpretes o Ensemble ECCO. A Academia de Música de S. João da Madeira convida todos a estarem presentes e a acompanharem a programação. A entrada é livre, mas mediante reserva através do email secretaria@amsjm.edu.pt.

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